Os
Mehinaku não possuem escrita.
Num espaço
de quatro gerações, o passado se perde no tempo mítico.
O primeiro contato
dos Mehinaku com o mundo de fora aconteceu provavelmente com o alemão
Karl Von Den Steinen em 1887.
Os irmãos
Villas Boas estiveram com eles pela primeira vez na década de
cinquenta.

Nós percebemos, ao documentar os Mehinaku hoje, que os resultados
mais visíveis do contato com os de fora são o uso das
ferramentas de aço, a facilidade da comunicação
com o exterior e o despovoamento, que já foi mais sério
num passado recente.
Takulalo, a mulher
do cacique Yumuin conta com tristeza desse tempo.

"Nós somos poucos aqui porque o sarampo acabou com os nossos.
Tinha muita gente na Aldeia Mehinaku, mas o sarampo acabou com muitas
crianças, adolescentes e moças. Teve época em que
sobraram apenas seis Mehinaku de cada Aldeia, eram duas Aldeias. Das
tribos vizinhas como os Yawalapiti e os Awetí sobraram de 10
a 15 pessoas. Nós
temos muito medo do sarampo."

Os Mehinaku temem que eles próprios e sua cultura possam desaparecer
rapidamente.
Criança é
sinal de vida e promessa de futuro. Muitos Mehinaku consideram seus
filhos como o "meu eu anterior".

"Para
ter o bebê e tudo correr bem é necessário que duas
mulheres ajudem no parto. Uma segura embaixo dos braços e a outra
segura as pernas. Já aconteceu com uma índia, hoje uma
mulher mais velha, que pariu durante uma pescaria, em que estavam apenas
ela e o marido. Ela não teve a ajuda necessária e ficou
aleijada."
Na
cultura Mehinaku as atividades do pai estão relacionadas ao bem
estar do recém nascido.
O pai deve permanecer
de oito a dez meses em isolamento depois do nascimento. Porém
é duvidoso que esse tempo seja realmente respeitado, uma vez
que irá dificultar bastante a atuação do homem
como agricultor e pescador.
Pescaria
é coisa de homem entre os Mehinaku. Principal fonte de alimento,
o peixe é pescado individual ou coletivamente.
O pescador quando
retorna à Aldeia deve tomar cuidado. Outro índio que o
vir chegar, gritará. Ele então, terá que dividir
os peixes com todos que gritaram.
Quando a pescaria
é farta, o Mehinaku não se importa em fazer a divisão.
O
sal é um capítulo a parte na alimentação
dos Mehinaku. Eles são um dos poucos índios do Alto Xingu
que ainda preparam e consomem o sal vegetal, extraído da folha
do aguapé.
Se consumíssemos
o sal do índio nas mesmas proporções em que utilizamos
o nosso, teríamos poucas chances de sobreviver. Ele é
altamente tóxico, com elevado teor de cloreto de potássio.
Fabricar o
sal é tarefa feminina.
Durante
nossa permanência na Aldeia sentimos o quanto os Mehinaku são
solidários: na divisão da comida, no planejamento do trabalho
e na preparação de cerimônias.
Hoje os Mehinaku
tem um rádio, que facilita a comunicação
deles com outras tribos, com os Postos Indígenas, com Brasília,
São Paulo.
Mas
a rotina diária da Aldeia é a mesma. No final do dia os
homens se reúnem na praça, em frente a casa dos Homens
para fumar, dançar, conversar sobre os acontecimentos
do dia.
Fumar os longos
cigarros de fumo nativo enrolados em folhas de caité é
para poucos. Os fumantes não estão livres dos perigos
da proximidade de maus espíritos que segundo os pajes se alimentam
da fumaca. As crianças permanecem longe do círculo de
fumaça.
Se
o nascimento é fundamental para os Mehinaku, a morte significa
o início de outra vida. Na cultura xinguana ela é
celebrada com festas e rituais.
O Kaiàpa
realizado no início do período das chuvas, quando os Xinguanos
agradecem à natureza, é a festa da árvore.

A vida cerimonial Mehinaku é construída em torno de dois
tipos de rituais: um faz a relação do mundo dos espíritos
com o mundo do homem, e são festas de caráter comunitário.
O outro inclui festivais,
que podem contar com a participação de tribos vizinhas.
Todo dia, ao entardecer,
eles ensaiam uma dança,
que faz parte de um ritual. (Ouça
em Real Áudio)

Pudemos assistir a apresentação da Taquara, que
segundo o cacique Yumuin é uma festa realizada em poucas tribos.
O
último ritual que presenciamos na Aldeia Mehinaku, durante nossa
permanência, foi uma Pajelança.
Experiência
emocionante e única para nós Karaíbas.
O pajé conversa
com os espíritos, recebendo a força e fazendo a ligação
dos Mehinaku com o universo sobrenatural, tão importante para
eles.
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