Bate-bola com o Diretor

Jeremias Moreira trabalha com audiovisual desde 1968. Fez parte na produção de vários filmes na década de 70, e estreou seu primeiro longa em 76 (O Menino da Porteira). A partir de 80, foi diretor de filmes publicitários para as maiores agências do país, ganhando prêmios importantes. É reconhecido como especialista na direção de jovens atores e crianças.

O que faz exatamente um diretor de televisão de uma série de ficção?

O processo de direção da série "Galera" é um caso atípico aos comumente adotados pela televisão. Ele se assemelha mais ao da execução de um filme para cinema, e nesse sentido, costumo comparar o trabalho do diretor ao desempenho de um maestro, que organiza e conduz os componentes de uma orquestra.

Assim, meu envolvimento começou na análise dos roteiros escritos pelo Beto Moraes e na pesquisa e seleção de elenco. Em seguida, em reuniões de produção, foram dadas as diretrizes para os diversos setores: produção, cenografia, locações, iluminação, figurino, efeitos especiais, música, etc.

Concomitantemente, após ter selecionado o elenco, supervisionei as atividades de preparação de atores e participei do processo de construção dos personagens através da leitura dos roteiros e ensaios das cenas.
Finalizando esse processo de preparação para as gravações, fiz a decupagem dos roteiros, que nada mais é que a transposição da narrativa literária do roteiro para a de imagens (planos, enquadramento de câmera, etc).

Aí, começou o trabalho de campo - as gravações propriamente ditas! Nesse momento a "orquestra" (atores, produção, cenografia, iluminação, câmera) estava toda afinada. O meu papel foi dar a direção e o "time" de cada cena para a equipe e, principalmente para o elenco.

Finalmente acompanhei a "pós-produção" que são as edições dos episódios. Isso envolveu um trabalho de supervisão da montagem das cenas, computações gráficas, música, ruidagem, mixagem e finalmente a cópia pronta para ir ao ar.



Como foi o processo de escolha do elenco do "Galera"? Quais os critérios que devem ser levados em conta?

O elenco adulto não me preocupava, uma vez que existe um grande contingente de bons e experientes atores disponíveis no meio artístico. O grande desafio eram os personagens jovens, aqueles que dariam a "cara" à galera.

Os roteiros apontavam para personagens jovens muito fortes, com características físicas e psicológicas marcantes e, principalmente, com a "cara" do adolescente de bairro paulistano - miscigenada, classe média baixa, engajada em questões da atualidade (política, cultura, comportamento, ética, etc).

Optamos por "caras novas". Buscamos atores dentro do universo das escolas públicas, grupos amadores de teatro, associação de jovens, etc.

Foram realizados testes com 297 candidatos em 2 etapas. Da 1ª etapa - um teste de improvisação individual - foram selecionados 70.

A 2ª etapa deu-se em 2 fases. Na primeira fase propusemos uma improvisação em duplas. Com isso, queríamos avaliar o poder de criatividade de cada um e a sua performance diante de situações improvisadas e de interação com outros personagens.

Na segunda fase, as duplas de candidatos recebiam um texto pronto. Nesse momento estávamos avaliando a capacidade de agir dentro de uma mesma situação dramática definida: memorizar e dar um texto, construir um personagem e interagir com outro dentro dos limites de uma ação dramática pré determinada.

Desta 2ª etapa, foram selecionado 38 candidatos. Todos teriam condições de desempenhar papéis na série.

Então, levando em conta o perfil de cada personagem, selecionamos os 14 que compõem o elenco do "Galera".



Como foi o processo de desenvolvimento dos personagens com o elenco?

Uma vez definido o elenco, era necessário que cada ator desenvolvesse o seu personagem a partir das características criadas pelo Beto Morais.

Cada um então, construiu uma biografia para seu personagem, com toda trajetória de vida como a de um ser humano real: vida familiar, local onde nasceu, onde morou, onde estudou, os amigos, etc.

Essas biografias foram lidas e discutidas em grupo, para que todos os atores conhecessem todos os personagens.

À partir daí, através de exercícios de dramatização, os atores foram dando forma a esses personagens. Os exercícios foram importantes também para entrelaçar os personagens, criar e dar consistência a esse grupo que na série tem uma vida em comum: pertence ao mesmo bairro, à mesma escola e têm entre si relações de afeto, simpatia, antipatia, amor, inveja, etc.

A assimilação desse processo é que veio dar "verdade cênica" aos atores do "Galera".


Você tem muita experiência em "preparar" jovens e crianças para trabalhos em vídeo. O que significa exatamente a preparação ou laboratório de atores? Alguma tática especial?

Para Stanislavisk, não há ação sem objetivo. Seu método auxilia o ator a construir um personagem que deve agir, apenas com objetivos.

Para Viola Spolin, qualquer pessoa é capaz de representar e ela substitui o objetivo pelo POC - Ponto de Concentração. Seu método é para crianças e não-atores e é aplicado através de improvisações.

Da combinação desses dois métodos, desenvolvi um processo que venho utilizando, com muito sucesso, no cinema publicitário e que consiste no seguinte: os atores colocam-se como personagens. Através de improvisações, onde o objetivo de um é conflito para o outro, dá-se o entrosamento entre eles.

Finalmente, quando improvisa-se o roteiro do filme, a situação proposta já faz parte da vida desses personagens.

O chamado "laboratório com os atores" nada mais é do que a aplicação desse processo. Como as biografias, a construção dos personagens e as improvisações que eu citei.

No programa "Galera", foi a primeira vez que utilizei o processo numa dramaturgia de "verdade"



Como os jovens se comportaram ao longo da preparação e da gravação? Como se dá o crescimento do ator? Fica visível para o telespectador?

O elenco do "Galera" sempre esteve muito motivado.

Os jovens passaram por duas fases de preparação. A primeira, ministrada pelo Magno Silveira, logo após a seleção e que antecedeu a gravação do Piloto. A segunda foi o Sérgio Penna quem deu e aconteceu antes da gravação da série - o Magno e o Penna são professores de arte dramática.

Essas preparações seguiram uma diretriz e complementaram o trabalho que realizei com eles.

Na gravação do piloto, foi a primeira vez que a maioria deles representou para uma câmera. Então houve um certo estranhamento, uma certa dificuldade com a marcação, em entender o tom e a amplitude da interpretação para determinada lente, a continuidade, etc.

Quando eles assistiram o piloto alguns se decepcionaram com a própria atuação. Mas aí, aconteceu o entendimento. Eles perceberam concretamente coisas que até então eram abstratas. Entenderam como funciona toda aquela interpretação fragmentada da gravação e que depois de um processo de edição passa a ter sentido e uma construção lógica.

Houve, então, aquilo que eu chamo de "aprender no intervalo", que é a reflexão e a projeção mental do que poderia e pode ser feito para corrigir e crescer.

Na gravação da série eles estavam soltos e com mais domínio da técnica. Acho que é visível o crescimento que eles tiveram.


Qual o diferencial da série Galera?
Não sei se é diferencial, mas uma coisa que o "Galera" tem de bom é a contemporaneidade.

Ele está "antenado" com o que se faz de mais moderno em linguagem visual.

Pela agilidade nos cortes, pela desconstrução da cronologia, por seu caráter quase documental em alguns momentos e pela mistura de linguagem e técnica a série se aproxima muito ao cinema.

Outro aspecto é o respeito a seu público alvo, que é o adolescente. A série é isenta de maniqueísmos e não pretende impor 'verdades". Ela levanta questões, mas deixa para o jovem tirar suas conclusões, porque ele é capaz disso.


Uma dica para quem quer se tornar ator/atriz. O primeiro passo.

Inicialmente devo alertar que a vida de um ator/atriz não é o mar de rosas e o glamour que a imprensa faz crer. A maior parte do tempo é trabalho árduo e só suporta quem tem muito gosto pelo que está fazendo. Também não é uma atividade tão bem remunerada. As exceções são poucas.

Dito isto, para quem realmente acredita que ser ator/atriz será a realização de sua vida, meu conselho é para que procure um bom curso de arte dramática - fique atento porque tem muito curso fajuto. Você aprenderá técnicas de interpretação e poderá desenvolver seu potencial. Porém, tenha sempre em mente duas coisas:

1 - Interpretar é sentir, não mostrar.
2 - A boa interpretação é aquela que o espectador não percebe.

Então procure ser sempre espontâneo, natural e simples. Vá em frente e boa sorte!