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Belém (PA)
- primeira parte
Neide Duarte
 

 

Por mais alto que se consiga subir, não podemos enxergar por inteiro.

O nosso olhar não alcança tanta grandeza, não fomos feitos para essa medida amazônica, pra esses rios que trabalham na recriação do mundo.

Da janela do avião, Belém é a Amazônia: a floresta, os grandes rios. Da janela do hotel, Belém são as mangueiras do bairro de Nazaré. Da janela do hotel, Belém é o canto de uma procissão que vem de longe, inalcançável para quem olha de cima.


É aqui, na respiração do rio, no som das águas da Baía de Guajará, neste espaço de ar, água e alimento, de todo peixe, de toda farinha d'água, de todo açaí, é aqui que brota a festa que se anuncia: o Círio de Nazaré.

 



"Catatau treme a cabeça na hora que arriá a saca, já o seu parceiro se esforça para colocar a outra saca na balança." - Marcelino Ferreira, estivador

 

No Mercado de Ver o Peso, Marcelino tem função de estivador, carrega sacas de 60kg de peixe na cabeça, mas seu pensamento busca palavras. Palavras para serem escritas, assim, nos pedaços de papelão, que durante o dia, anunciam o preço dos produtos no mercado.

"Aqui os porcos gritam sem parar, já alguns homens carregam sacos de peixes na cabeça por não ter outra opção pra trabalhar."
Aonde vão os porcos?
"Para feira.."
Para que é?
"É para cortar, para vender.."
Por que tem tanto porco nessa época?
"O Círio, né?"



O porco chora, esperneia, mas o seu destino é se dividir em pernas, joelhos, pés, cabeça, orelhas. O seu destino é fazer parte da maniçoba.

 

— O que a senhora vai fazer de comida?
"Vou fazer um vatapá, um pato no tucupi e uma maniçoba." - Maria das Mercês, dona de casa

"Eu vou fazer o pato no tucupi também e uma maniçoba." - Isabel Araújo, feirante

"Eu vou fazer a maniçoba, pato no tucupi."



Para fazer a maniçoba não é coisa de ligeireza, de quem tem pressa para ir para o escritório. A maniçoba é comida de grande vagar, de lento cozinhar, as folhas da macaxeira, a maniva, até que ela perca o amargor, a braveza da mandioca.

"Porque a maniçoba crua a gente põe ela no fogo com 8 dias. Ela tá pronta com 8 dias, pra ela ficar bem gostosa, ficar bem pretinha. Aí com 8 dias a maniçoba está uma delícia." - Isabel Araújo, feirante

— Há quanto tempo que a maniçoba está no fogo?
"Tá desde segunda feira."
— Desde segunda feira? E hoje é sexta, são 5 dias?
"Vai ficar pronta só no domingo." - Anacleta Nascimento, dona de casa

Chove em Belém. Ainda não é inverno, não está chovendo todo dia como é costume, mas nestes tempos de cozinhar a maniçoba é bom se precaver.

— Desde quando ele está no fogo?
"Desde segunda feira."
Mas aí vocês desligam na hora de dormir?
"Não, é dia e noite."
- Por isso que vocês fizeram essa cobertinha?
"Foi por causa da chuva."
- Essa cobertinha é só por causa da...
"Só por causa de enquanto ela estiver cozinhando."
- Quer dizer vocês só usam isso na época do Círio?
"É, só."
- E aqui o que é que vai, Maria?
"Vai bacon, chouriço, costela de porco, orelha de porco, pé de porco, toicinho, bucho, tudo isso." - Maria de Melo, dona de casa

— Quantos litros cabe aqui?
"Aqui eu coloquei 12 quilos da folha da maniva, vai equivaler a 40 litros da maniçoba pronta."
- Então dá pra quantas pessoas? "Praticamente, nós somos de 30 a 40 pessoas no domingo do círio." - Guilherme de Melo, comerciante

— O que é que vocês são dela?
"Vizinhas."
Todas são vizinhas?
"Sim."
E o que vocês vieram xeretar aqui se não é a casa de vocês? (risos) Vocês vem aqui também comer maniçoba?
"Se convidarem a gente, né?"

 

"A gente dá prato para as pessoas mais perto, é porque nem tudo faz. A maniçoba é caro para fazer. É um gosto a gente fazer uma maniçoba. O menino me diz: mamãe não faz, porque é calor, a senhora vai fazer mal... E eu digo, não meu filho, eu quero fazer, é a tradição do Círio, né?"

"Tucupi é 2 reais a garrafa, hein? 50 é o maço do jambu."

"Eu quero 5 maços."

— O que acontece quando come o jambú?
"Dá um ardumezinho gostoso na boca, dá uma sensação bem gostosa."
"É o que realmente tempera a nossa comida."
- Tem que ter?
"Tem que ter, é essencial, se não não é Círio e nem tem gosto de Pará, né?"

"O Círio, né? É nossa padroeira né? Que é nossa... é uma alegria para os paraenses, né? É uma coisa maravilhosa, não tem... a mim me emociona muito, relembra muito meu pai, a minha família, todos se reúnem, como paraense eu me orgulho de ser paraense, todos os que vem de fora eu desejo também uma sorte para todos e um feliz Círio." - Eunice Pinheiro, dona de casa



Eles estão chegando pelas águas, dos lados do Marajó, de outras ilhas do Pará, para passar o Círio em Belém. Este é o reino do rio. Seja feita a sua vontade.

 

"Nós temos 24 horas viajando."
Por que, está vindo de onde?
"Santa Cruz do Arari."
É longe?
"Não, não é tão longe, por causa que nós ficamos no seco, encalhado, perdemos a maré." - dona Regina, dona de casa

Os viajantes trazem embrulhos, sacolas, sacos. Alguns, se mexem sozinhos.

— O que você trouxe?
"O pato, o porco."
- E agora aonde vocês ficam, vão ser quantas pessoas onde vocês vão ficar?
"Mais ou menos umas 20."
- Vai caber?
"Cabe sim."

"É mãe, é protetora, é amiga, é um amor, é uma benção, é uma paz, é uma realização das nossas vidas, ai de nós se não fosse ela em nossas vidas." - Joana D'Arc Campos, professora

E em Belém inteira não cabe tudo o que se escreve, tudo o que se anuncia em nome da mãe, do poder divino do feminino: Nossa Senhora de Nazaré.

Pelos postos de gasolina, pelos jornais, pelos painéis de propaganda. Pelas toalhas de renda das janelas, pela saudade portuguesa, pelos azuis azulejos.


"Antigamente eu ia com minha avó, com minha mãe, íamos para a Praça da Sé receber a Santa, como diziamos." - Rosi Mendes, pedagoga


"O Círio para nós paraenses é uma festa de sentimento é uma festa de união é uma festa de grande amor, nós sentimos assim... um símbolo da festa pra nós é tão grande o significado que nos parece que vivemos o próprio Natal."

"É o retrato das bençãos, das graças que se recebe no decorrer dos 365 dias para mim, esse de um ano pra outro são de pedidos e hoje é o dia do agradecimento."



Este é um tempo de dar graças, e exibir a representação da benção alcançada. Em madeira, em cera, por partes.

 

"Tem fígado, tem rim, tem pulmão, tem coração, tem as partes da mulher, tem as partes do homem. Este ano que eu não trabalho de manhã, só de tarde, saiu muita cabeça e muito útero."

— Foi o que mais saiu?
"O que mais saiu." - Dóris Santos, vendedora de ex-votos

Ao olhar os promesseiros que passam, o que se vê, é que maior que a doença, o grande problema do brasileiro é a moradia, de longe a campeã das promessas. Que para o ano a casa exista grande e abrigue nossa esperança.

A representação do corpo, a representação da casa, a representação da vida. Pelas ruas do centro antigo de Belém, desse lado mais português e triste, um Auto se anuncia, o Auto do Círio.

Um teatro, uma representação da vida, da vida mesma, sem ficção.

Em Belém, o Círio de Nazaré está apenas a começar.

Virgem Santa, rogai por nós. Olhai por nós, ó Virgem Santa, pois precisamos de paz. Ó Virgem."



Veja a segunda parte do programa Em Nome da Mãe

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