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São Paulo (SP)
- primeira parte
Neide Duarte
 

 

Muitos são os que passam, poucos os que observam.
Muitos os que não têm tempo, poucos os que estão parados, prestando atenção à nossa pressa.

Parto. Partir. Dar início a um corte, a uma despedida.
Ir para outro lugar. Onde o mundo se apresenta de pernas para o ar.

E foi nesse mundo de estranhas formas, onde nossos olhos não entendem direito o que enxergam.

Foi nesse moto perpétuo, nessa medida de tempo, nesses sinais da velocidade, entre os vestígios da passagem dos átomos, que o destino das meninas, um dia,...


— Com que idade você ficou grávida?
Quatorze. - Vanessa

 



— Aí você já ficou grávida?
Já.
— Você tinha quantos anos?
Quatorze. Maria Helena

 

— Você ficou grávida com que idade?
Quinze. - Daiane

— Com que idade você engravidou?
Com 14. - Érika

Eu saí da minha casa com 13 anos, fiquei grávida com 14.
Erika Dayse de Sousa, mãe de Larissa

Santinha!
Aqui, mãe!
Tava com saudade da mamãe?
Mamãe! Mamanhê!
Érika Dayse chega em casa e encontra Larissa

E assim sentir que a palavra, a palavra dita, repetida tantas vezes, já conforta, já aquece, já é quase o suficiente.


Eu achei que eu perdi a metade da minha vida, não tô dizendo que ela atrapalhou a minha vida, não, jamais. Mas, foi muito cedo para eu ficar grávida. Eu perdi o tempo de estudar, que eu deveria já ter terminado meus estudos... Então, em vez de estudar, eu vou ter de ficar com ela...Mas, graças a Deus, ela veio ao mundo para mudar, porque, se não fosse ela, eu estaria nas drogas, na prostituição.
Se não fosse ela eu estaria nesse mundo.
- Érika Dayse

É eu
—Mostra pra aquele tio, você...
Ó, tio, é eu.
Larissa mostra foto

Quando conhecemos Larissa e a mãe dela, Érika Dayse, elas moravam numa das casas-abrigo da Fundação Francisca Franco para mães adolescentes que não têm como cuidar dos seus filhos. Quando as meninas completam 18 anos, têm de sair do abrigo. Assim, um ano depois, vamos encontrar Érika e Larissa, agora morando num quarto e cozinha junto com a mãe de Érika.

 

UM ANO DEPOIS...


Eu trabalho em churrascaria, só que, à tarde, eu fico no departamento pessoal, que recebe os documentos, despacha os documentos e, à noite, eu fico na gerência, na recepção.
- Érika Dayse

 

Tia, ó, tem mais coisas aqui dentro...Aqui, ó, uma foto..
Tira uma foto!... Clique
Larissa mostra seus brinquedo

E vocês alugaram as duas juntas aqui?
Não, aqui foi só ela, porque eu tô sem trabalhar
— Tá sem trabalhar? É só a Érika que tá trabalhando?
Só ela que tá trabalhando.
Ivanísia de Sousa, mãe de Érika

Olha, ficou bonita a boneca , Larissa? Tá bonito agora o cabelo
. - Larissa

E você trabalha de que horas a que horas?
Eu entro às nove da manhã até as quatro, aí eu entro das nove ..., das oito até meia noite. Aí a minha mãe cuida dela.
— Você não vem todo dia pra dormir aqui?
Não, eu venho dois dias sim, dois dias não. Então, quando eu venho pra dormir,
eu durmo na casa da minha amiga...Mas aí eu venho

— E a Larissa não sente muito a sua falta
Ela sente, mas, quando ela tava no abrigo, ela ficava assim mais distante de mim... - Érika Days

Pode descer, tia, desce...Cuidado pra não cair...Olha pra mim, olha pra mim.
- Larissa anda de bicicleta

Mamãe!
Rômulo procura a mãe, Vanessa

Procurar por ela, procurar por ela, aprender que onde a mãe está, está também nossa proteção, nosso carinho, o fim do nosso choro.

— Desde que idade você ouvia sua mãe falar isso, que não queria ficar com você?
Dos quatro.
— Você lembra bem disso?
Lembro. Ela era muito agressiva comigo, me batia e mandava eu embora por causa de meu pai. Só que eu não ia.
— Como é que você sentia quando ela fazia isso com você?
Ah, sentia desprezo. Sei lá, me sentia a pior criança.
— E aí com 7 anos foi aonde
Fui morar na casa de uma vizinha.
— A vizinha que te acolheu?
É, por pouco tempo
— E o seu pai?
Meu pai, eu tinha medo dele. Ele me batia muito, eu tinha medo e eu não morava com ele.
— Ele batia em você?
Batia. Ele e a mulher dele, minha madrasta. Eu tinha mais medo dela. - Maria Helena da Silva, mãe de Emily


Maria Helena não teve oportunidade para sentir o que é ser filha. Queimou etapas e, aos 14 anos, teve de aprender o que é ser mãe.

Emily é a filha da Maria Helena. Em 2002, elas moravam nas casas-abrigo da Fundação Francisca Franco. Quando completou 18 anos, em julho de 2003, Maria Helena teve de sair do abrigo e procurar outra moradia para ela e sua filha.

Assim, um ano depois, nós vamos reencontrar Maria Helena e Emily.

— Aqui vai dar pra você ficar? Nessa casa
É, eu tô ficando aqui até conseguir uma coisa pra mim. - Maria Helena

Você tá aí atrás ou você saiu?
Saí.
— Saiu? Onde você foi? Alô! A Emily está aí?
Está.
— Dá pra chamar a Emily? - Emily

 

E você está estudando?
Tô.
— Você está em que série?
Eu tô terminando a sexta
— Você está terminando a sexta série
Tô, este ano.
— E você não sente saudade lá do abrigo, daquelas pessoas?
Sinto, mas eu tenho que viver outra vida.
— Foi bom ter morado lá
Foi.
— Por quê
Ah, porque lá foi o lugar onde me ajudou, porque eu não tinha onde morar.
Quando eu estava grávida, eu vivia na casa de um, na casa de outro.
- Maria Helena

Agora ela tá dormindo?
Não.
— Não
Cadê o nenê? Como é seu nome? - Emily brinca de entrevistar sua boneca

— E parente seu, algum parente
Não apareceu nenhum. Também não faço questão.
— Ninguém?
Não.
— Mas você tem parentes em São Paulo?
Tenho.
— Você tem o quê? Tios, tias
Eu tenho um tio e primos. Não, eu tenho dois tios. Um mora lá no São Miguel Paulista.
— Você não sabe deles?
É, até o ano passado eu ia visitá-los, aí eu parei porque não estavam nem aí pra mim...Aí eu parei de ir. - Maria Helena

Eu vou cobrir ele assim porque o bicho-papão vai pegar ele
— Bicho-papão vai pegar
Vai
— E cobertinho assim, o bicho papão não vê, né?
É. - Emily


Eu vim pra São Paulo com nove. Aí, com 12 eu voltei para o norte de novo.
— Mas aí, quando você voltou para o norte, você foi na casa da sua mãe?
Pra casa da minha mãe.
— E ela?
Ah, foi uma surpresa pra ela, porque falaram pra ela que eu tinha morrido.
Porque, na casa do meu tio, eu tive um acidente quando tava aqui em São Paulo.
Aí a notícia chegou que eu tinha morrido. Ela ficou assustada quando me viu.
Mesmo assim, ela não se abalou muito.
- Maria Helena

Isso é o quê?
Au, au, au...É o cachorrinho. Au, au, au...
— Que cachorro brabo!..
Au, au...Agora você... - Emily brinca de cachorro

Aí, a ultima vez que eu a vi eu tinha 12 anos
— Você pensa em voltar e encontrar sua mãe?
Ah, eu penso assim de um dia voltar, levar a minha filha pra ela conhecer,
porque eu não guardo rancor dela, na verdade. Eu não tenho nenhuma mágoa dela
e, se eu fiz alguma coisa de errado, eu quero que ela me perdoe.
- Maria Helena



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