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Você passava com seu irmãozinho na carroça.
E estranhou, estranhou de fato.
Que olhar era aquele que te olhava?
Você espiava entre as tábuas, teu irmãozinho também.
Depois os carros começaram a passar com seus vidros e quase te
encobriram.
Foi
ficando cada vez mais difícil te ver, te distinguir entre as frestas.
Pra você também foi ficando mais complicado e desconfortável
me olhar.
Um homem passou de bicicleta, uma mulher passou bem rente, uma camisa
azul tomou conta de tudo.
Pela fresta só pude ver as patas do teu cavalo.

Você continuava a sua busca de procurar um vão, um espacinho
qualquer, um lugarzinho de nada...
Até que a tua imagem digitalizada foi se confundindo entre carros
e homens.
E num lugar sem foco te perdi.
Ela tinha uns
3 anos a menininha...
Se lembrar o nome da mãe dela fica mais fácil,
né?
Pois
é, eu não sei o nome da mãe.
Eu queria encontrar a Paulinha.
Aquela gordona?
A menininha de 3 anos...Ela
tava...Ela e a mãe...fazia pouco tempo que elas tinham mudado pra
lá...
Onde?
Você não lembra dela?
Ah, eu sei quem é. A Paula.
A menininha hoje ela deve ter 5 anos.
Ariadne,
Ariadne.
Não, Ariadne é uma, essa era a Paulinha, falante.
A Paulinha...Eu
sei quem é... Conceição dos Santos
Falante, 3 anos, pequenininha,
uma graça. Onde ela está?
TRÊS ANOS
ATRÁS...
Como é
seu nome?
Paulinha.
Paulinha? Quantos anos você tem, Paulinha?
Três. (mostrando dois dedinhos)
Não tem cachorro aqui, né?
Ele não morde não.
Não morde?
Não.
Tem muito cachorro aqui, Paulinha?
Não.
Quem mora aí?
É um homem. É um homem.
Que homem?
Ele canta, o homem que canta. - Paulinha, 3 anos
Tem gente que mora ali. Aquela casa tá quebrada. Tá quebrado.
Me leva lá então... Onde você tá me
levando?
Pra
cá.
Você vai mostrar a sua casa?
Vou.
Então,
vamos.
Aí é
sua casa?
É. Ô, tia, você mora onde?
Eu moro longe daqui.
Você
mora longe daqui?
Moro.
TRÊS ANOS
DEPOIS...
Procurar Paulinha
pela cidade. Saber da sua vida de criança que crescia num cortiço.
Seguimos todas as pistas.
Quem
tomou conta das crianças foi o pessoal da igreja São Rafael.
Ele trabalhou uns dias aí depois que ela se recuperou, aí
num lava rápido, e sumiu. Parece que as crianças ainda passaram
pelo SOS. Eu ouvi falar que eles estão pro lado de São Mateus,
numa favela que tem, invadiram e fizeram um barraquinho lá.
Conceição dos Santos
Nos disseram que as crianças estavam num abrigo, só que
não sabiam dizer qual abrigo que estava a Paulinha, né?
E
recolheram por quê?
Por maus
tratos da mãe.
Nailton Rodrigues - coord. Movimento de Moradia da Moóca
Paulinha
não encontramos mais. O cortiço onde a conhecemos,
na rua da Moóca, o antigo cine Imperial, foi derrubado e todas
as pessoas que viviam ali se espalharam por outras casas, por outros cômodos
da Moóca.
Novos cortiços estão se formando.
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