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Neste planalto onde a cidade se estende, protegida pelas montanhas da
Serra do Mar. Grandes muralhas que nos separam de toda areia, de todo
oceano.
É difícil, quase impossível, o acesso para quem quer
chegar.
1554, assim São Paulo começa.

"A montanha não vem até mim,
caminho até a montanha,
faço a pedra se mover,
pois a fé me acompanha."
Voz da Periferia
Onde
São Paulo termina, aqui, deste lado sul, onde a cidade é
mais comprida, São Paulo acaba em pequenas depressões, colinas,
em árvores, em água.
"Quando chegar
em minha aldeia
leia a placa em minha cabana:
por favor, não pise na grama."
Voz da Periferia
Onde
São Paulo acaba,a água da represa de Guarapiranga não
tem mais, virou terra, virou planta. As colinas estão cheias de
casas, as pequenas planícies também.
Onde São Paulo acaba, não tem grandes supermercados, não
tem pizzarias charmosas, não tem livraria, não tem cinema,
não tem shopping center.
Onde São Paulo acaba, a cidade não é o lugar do consumo.
"Hoje
em dia, se alguém tiver dez contos no bolso e eu não tiver
nada, ele já é melhor do que eu. Nós da periferia,
a gente já nasceu com isso na cabeça, já nasceu em
desvantagem. A gente já nasceu pra ir à luta, já
nasceu pra sofrer mesmo. Essa é uma grande diferença: o
dinheiro. Nós não temos, os caras tem. Só que é
o seguinte: os caras tem o dinheiro, só que nós tem as idéia."
- Jefferson (MJ) - Voz da Periferia
São
Paulo sabe ser muito diferente para quem mora em bairros diferentes.
No ano de 2000, no bairro de Moema, um jovem foi assassinado. Um número
muito alto, inadmissível para uma cidade em tempos de paz. Nesse
mesmo ano, no Jardim Ângela, 109 jovens foram assassinados.
Tem
uma ameaça no muro. Ameaça de que a morte vive por aqui.
A morte incomoda os vizinhos. Longe daqui os cadáveres, por favor.
Só não quero ver, nem saber. Obrigado.
Estrada da Baroneza.
Jardim Angela, zona sul de SP. Conforme o mito nos ensina, o endereço
da morte certa. Mas este não é só o lugar dos encolhidos,
dos que têm medo, dos que não conseguem se mexer.
Estrada
da Baroneza. Nove horas da noite.
O Bal Rock Bar já abriu suas portas. Já acendeu suas luzes,
já acionou o gelo seco.
Esta é a noite do Morte Subta, do Madalena Crucified.
Uma noite metal.
Mas
a noite é mesmo de Aderbal Cruz, o Bal, que mantém esse
bar de rock há quase 15 anos.
"Isso aqui
vai ser sempre assim, até quando todos vocês estiverem do
mesmo jeito, na paz, e paz e paz..." - Aderbal Cruz ("Bal")
- dono do Bar Rock Bar
"E sentirá a sensação de ter escapado vivo.
Calma aí , calma aí!"
Voz da Periferia
O Jardim Ângela
e o vizinho Capão Redondo têm uma rara concentração
de jovens interessados em comunicação.

Eles estão envolvidos em projetos de criação de rádios,
de revistas, de jornais. Enfim, esses jovens trazem novas palavras, para
que a grande imprensa perceba que, no Jardim Ângela, existem outras
palavras, além de medo e violência. Lado Periférico,
Becos e Vielas, Rádio Biboca,
Informação na Quebrada,
A Voz da Periferia.

"Essa mensagem se autodestruirá em 10 segundos, 6,5,4,3. O
sol não vai nascer, não haverá próxima vez,
2, 1, cabum, cabum, zero. Fita dominada, doidão."
Voz da Periferia
Jeff, Borracha, Vilma, Bola, Negão.
Eles
são a Voz da Periferia, um grupo de rap do Jardim Ângela
que se prepara para lançar o seu primeiro CD.
"A gente tem
pouca oportunidade, a gente valoriza bastante essas coisas alternativas
que a gente tem aqui. Como a garagem do Bola. Vários grupos ensaiam
aqui...questão de oportunidade de mostrar talento..."
- Jefferson (Borracha) - Voz da Periferia
Roberto está no ar. Paciência de esperar pelas palavras que
se preparam para ocupar o espaço do papel e da língua.
"A
educação é o alicerce de toda uma história
de vitória, de cultivar, de levar a cultura para todo lugar. É
o que fortalece o seu estado, é o que constrói o seu país,
é a estrutura da família para obter um futuro feliz. Esse
é um dos textos em que a gente tenta desabafar a nossa mágoa
no mundo da exclusão..." - texto de José Roberto
Pires - criador do Movimento Lado Periférico
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