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São Paulo (SP) - segunda parte
Neide Duarte
 



Todas as marcas, tudo o que a propaganda investiu, anunciou. Todo um passado de glória na televisão, nas revistas, nos jornais. O melhor sabor, o mais nutritivo, o mais branco, o melhor pra nossa pele, o melhor pro nosso colesterol, o melhor para o nosso chão.



As cascas que carregavam tantas qualidades se debatem agora numa agonia de morte. Uma morte que se anuncia para daqui 450 anos, quando o plástico enfim se render e se entregar a natureza deste mundo.

Tempo suficiente para que possamos gerar nosso neto, o neto de nosso neto, o neto de nosso tataraneto, o bisneto de nosso tataraneto, o tataraneto de nosso tataraneto e ainda assim só teriam se passado 200 anos. Todo esse plástico ainda estaria se debatendo nessas águas da represa Billings por outros 200 anos. Se ainda existirem as águas da represa Billings.

      

Neide Duarte na represa Billings:
Tá vendo aquela bandeira de S. Paulo, lá no fundo? As águas da Billings não só chegavam até lá como passavam dali. Chegavam na beira daquele morro, que hoje está cheio de casas.

"Não me importa se você vai contaminar os lençóis freáticos, se vai sujar o meio ambiente, se eu vou ficar sem água pra beber...Não me interessa, porque eu já tenho o meu emprego, eu já tenho o meu carrão, eu já tenho o meu apartamento, eu já tenho o meu salário, eu, eu, eu...O resto que se dane. Infelizmente a visão da sociedade hoje é essa." - Jocemar Silveira faz palestra na EMAE


O homem que nos ensina não é doutor em ecologia. Estudou até a oitava série. Mas é especialista no assunto. Catador de rua nos lixões de São Paulo, hoje é um multiplicador, um brasileiro que percebe a necessidade de transformar o nosso jeito de tratar o lixo.



"Estamos trabalhando com matéria prima garantida e é melhor que façamos um trabalho dessa natureza para que garantamos pelo menos um dos bens mais preciosos da face da terra que é a água. Ou fazemos algo dessa natureza ou vamos ser cobertos com tanto lixo."
- Jocemar Silveira - presidente Pedra sobre Pedra




— São tampinhas de quê?
"São tampinhas de água, refrigerante, acho que 90% dessas tampinhas são de refrigerante."
— Quantas tampinhas tem aí?
"Deve ter umas 1500 tampinhas." - Aleluia - cantor e compositor


Aleluia é cantor e compositor. Parceiro de Jocemar na Associação Pedra sobre Pedra. Na sala da sua casa montou um cenário de flores, feitas com garrafas pet. Nos shows usa esse colete de tampinhas.

"O homem não preserva o que é seu.
O nosso planeta adoeceu.
O homem não preserva o que é seu.
O fogo transforma em cinzas, animais..."
- Aleluia canta

"Eu penso que a responsabilidade das indústrias seria assumir os seus resíduos. Seria absorver, pegar de volta esse material, assumir suas embalagens. A população não está preparada para cuidar dos resíduos." - Aleluia

É impossível medir quantos desempregados existem no bairro da Pedreira, mas o que se sabe é que pelo menos 300 pessoas trabalham com carroça na rua, recolhendo material reciclável. As mulheres parecem estar atentas à reciclagem, à transformação. Em cada casa, em cada lar, cada mulher vai descobrindo um novo uso para os mesmos velhos objetos.

    

Dona Valdete também faz flores transparentes, são feitas com meias velhas. Eliane faz bonecas com corpo de garrafas pet. Dona Maria faz lustres com canudinhos de plástico.

Aninha é uma das coordenadoras da Associação da Pedra sobre Pedra e sonha reunir tantas mulheres criativas e formar uma cooperativa. As mulheres querem mostrar os seus trabalhos. Assim, quando viram nosso carro de reportagem passar, correram todas pra pastelaria da Zilda.

"Hoje, em 5 minutos, reuniu todo mundo. Agora eu vou marcar uma reunião." - Rosenir Souza ("Aninha")

 



Oito horas da manhã na Pedra sobre Pedra, na favela do Pantanal, na Pedreira. É domingo. Para alguns, hora da fila para o pão, para outros, hora de caminhar para uma das dezessete igrejas evangélicas do bairro. E pelas portas, pelas paredes, pelos varais, por toda a parte, o retrato de que aqui é terra de brasileiros.


— A sua casa é aí? E a bandeira está aonde?
"Tá lá na janela."
— Quem desenhou essa bandeira do Brasil, Cilene?
"O meu marido."
— E ele escreveu a frase inteira, "Ordem e Progresso"?
"Não, porque ele quis pegar como se a pessoa que tem que ter na alma, né? Porque ele escreveu na janela, "ordem" e do outro lado "gresso"."
— Pra você, o que é o Brasil?
"Ah, Brasil pra mim é a minha casa, o lugar que eu vivo bem." - Cilene Rocha - dona de casa



"Eles estão trazendo as coisas para o lixão aí embaixo e nós fomos pegar, porque não venceu ainda."

— Vocês pegaram do lixão essas coisas?
"Foi, vamos lavar e vamos comer."
— Você acha que não vai ter problema nenhum comer essas coisas?
"Não."
— Você acha que não contaminou nada?"
"Não."
— Vocês não tem medo de comer essas comidas assim que pegou do lixo?
"Não tem não." - Moradoras de Pedreira



— Como você se sentiu pegando lá no meio daquela sujeira?
"A gente não se sente bem, mas vai fazer o quê? Ninguém se sente bem."
— Você acha que não tem outro jeito? Você teria outra maneira de conseguir esses alimentos se não fosse assim?
"Não." - Moradora

— Você faria isso, Jocemar?
"Olha, eu não faria, não faria pelo fato de que eu estou vivo, bem vivo. Deus me colocou na face da terra com tanta boa perfeição, dois braços, duas pernas, duas visão, duas audição, não foi para vagar. Para alguma coisa Deus me colocou aqui, seja pra trabalhar dentro do que quer que apareça, seja pra lutar e não ter que cair, entre aspas, nessa decadência." - Jocemar

O que se tece num lugar de pedra nem sempre é a matéria que se queria. Mas, às vezes, no lixo, começa a transformação. Tecer ali o seu melhor caminho, o começo dos melhores dias da sua vida.

"Eu me sentia excluído pelo fato de estar sozinho, me sentia excluído pelo fato de estar nas ruas, pelo fato de estar no lixão."

— E como se sente uma pessoa que se sente excluída, o que é que sente?
"Ah, é uma dor no peito, de observar outras pessoas te olhando de uma maneira excludente, te juntando simplesmente com o lixo. Eu já disse pra mim mesmo: chega de exclusão, eu não vou permitir a exclusão comigo de forma nenhuma. Agora também acredito que só existe explorados, só existe excluídos, quando se permite ser excluído. Eu, em primeiro lugar, não me amava, não gostava de mim. Os outros me excluía, eu acabava me excluindo também, mas hoje eu não me sinto mais excluído, eu trabalho de forma conjunta e coletiva." - Jocemar

    

Quinze dias depois dessa reportagem, o barracão do Pedra sobre Pedra desapareceu, consumido pelo fogo. Provavelmente um incêndio crimonoso. O fogo destruiu todo o trabalho realizado por vinte pessoas durante um mês.

"Destruíram aí um monte de sonho nosso." - Jocemar



"Temos uma pessoa muito lutadora, que é o Jocemar. Portanto, nada vai derrubar ele, não é isso que vai derrubar ele não." - Cláudia Ferreira

"Eu não acho que estou para vagar. Eu estou para ser útil e tentar ser simpático e me preocupar com o bem estar social dos outros. Se preciso for ter que começar tudo de novo, a gente começa." - Jocemar



Ficha Técnica e Discografia


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