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Dois Anos Depois
segunda parte Neide Duarte
 


O céu é de chumbo e prata.

Neste sertão onde o céu é mais largo. O céu espalha beleza e pesa. As nuvens se formam, anunciam uma água que não vem.



Chuva só daqui a quatro meses, quando a caatinga estiver seca e cinza. Quando as flores do mulungu não existirem mais, quando só sobreviverem a caatingueira, o ouricuri, a algaroba.

Quando o gado já não suportar mais tanta beleza no céu.



Aquela lonjura, aquela largura, aquela secura das plantas, aquela secura da terra, aquela secura da garganta. Eu via os boi passando triste e os meus zóio pegava aquela tristeza também.

Estamos de volta a São José da Tapera para rever Rogério, aquele menino de olhos grandes e canelas finas. Aquele menino de pouco corpo, nascido na grandeza deste deserto nordestino.

Como estará Rogério? Como estará Erinaldo, aquele outro menino tão miúdo?




"Toda a gravidez dele era só passando fome. Eu não comia de jeito nenhum. Fiquei muito acabada, nem barriga eu fiz dele, minha barriga era bem miudinha, acabadinha mesmo."
- Rosevan de Lima – mãe de Erinaldo



Erinaldo tem 2 anos, pesa 5 quilos e meio.

É menino, mas tem olhar de homem feito. Pouco riso, nenhuma vontade. Olha para o sertão, mas é como se olhasse prá bem longe dali.

Erinaldo não mora mais com a mãe. Mudou com o irmão mais novo para a casa dos avós, no povoado do Espírito Santo.

Erinaldo está escondido atrás do avô. Assim que nos viu correu. O avô está paralizado, não pode andar.


Erinaldo não se mexe, apenas respira. O ar que lhe alimenta. Quer passar despercebido. Estar no mundo é tarefa para os que conseguiram crescer.

Esquecer a mãe que ele nunca mais viu, aceitar a nova moradia, aceitar algum carinho.

O corpo pouco mudou. Agora ele tem quase 4 anos e pesa 7 quilos, o peso de um bebê de 6 meses.


— Por que eles não estão com a mãe?
"Porque a mãe não queria. O pai, pra não ver judiar, trouxe esse daí, quando nasceu aquele mais pequeno." - Tereza Bezerra – avó de Erinaldo



Erinaldo está no terreiro brincando com a agente de saúde, quando ouve ao longe o barulho de um caminhão.


Diante de ameaça tão grande para a sua estatura, ele corre para onde sabe que terá proteção.

O medo caminha junto com Erinaldo. Ele pôs roupa nova e foi para o Centro de Saúde de Tapera. A prima mais ele.


"
Acho que a imunidade dele está comprometida. Devido a esse estado de fome crônica que ele passou, ele está bem equilibrado hoje. Não apresenta sinais de infecção, não tem nenhuma alteração aparente, mas a qualquer momento esse equilíbrio pode ser quebrado e ele ter um problema. Uma diarréia, uma infecção respiratória aguda e até de repente vir a falecer." - Geraldo Pinto - médico



É o mesmo sertão pelos telhados, pelos campos da caatinga, pelas praias do rio São Francisco. O sertão não muda. Parece cena de filme antigo com pouco movimento.

Naquele dia no posto de saúde, enquanto Rogério esperava ser atendido, no meio daquela multidão de outras crianças também desnutridas, nós demos uma água de coco pra ele. E esse sertanejo, nordestino, na terra cheia de coqueiros, bebeu água de coco pela primeira vez.


"A criança desnutrida sempre tem um comportamento irritadiço. Porque não está bem nutrido, ele não se sente bem. Um dos parâmetros de recuperação do desnutrido é justamente o sorriso. Quando sorri, ele está salvo."
- Carla Lima - pediatra


Rogério sorriu muitas vezes. Nós ficamos cheios de esperança. Não podíamos esquecer as palavras da médica: quando ele sorri, está salvo. Nesse dia de sol pleno fomos embora do sertão, de São José da Tapera e essa foi a última vez que eu vi Rogério.

 

 


Voltar dois anos depois. Encontrar outra vez aquele menino moreno. O mesmo caminho, o mesmo chão de terra, a mesma casa, a mesma cisterna.



Rogério já caminha entre as palmas. Corre no terreiro. E está sempre sorrindo. Engordou 5 quilos nesses últimos dois anos, mas ainda é um menino desnutrido. Precisaria incluir proteína na sua alimentação. Rogério é um menino pequeno e magro pra sua idade. Aos 4 anos ainda não fala, mas sabe dar e receber afeto.

"Não basta só salvar vida. Mas, além de salvar vidas, tem que essa vida seja vida em abundância." - Elísio Gomes – assessor técnico – Visão Mundial Alagoas

A Visão Mundial desenvolve agora nesta região de São José da Tapera um projeto para durar, no mínimo 10 anos.

"Pelo fato da própria região, das práticas políticas, dos programas políticos existentes aqui na região, as pessoas sentem-se como se fossem mendigas. Sentem- se muito deprimidas, como se fossem os últimos dos últimos. Nós esperamos que essas pessoas possam ser realmente, sintam-se realmente brasileiras, que possam ter sonhos e que possam ir atrás desses sonhos." - Elísio Gomes



A escola é uma casa maior na estrada do caminho. Ali onde se ensina a dizer palavras para entender este sertão.

É pra lá que vão os irmãos mais velhos de Rogério: Adeílson e Betânia.


O que o professor escreve na lousa é mais ou menos o que se desenha no caderno. Os meninos estão na escola, mas isso não significa que eles conheçam o mundo das letras.

O professor escreve no quadro negro: atividades. Adeílson copia um incompreensível desenho.


Me criei naquela terra de pouco valor, perto da casa de barro onde eu nasci e morava tudo nóis, meus 8 irmãos mais eu.

Tive brinquedo feito de lata e de sandália de borracha, como todo menino do sertão. Me criei fraco na leitura. Me criei calado, por jeito de ser.


Rogério está salvo para a vida. Agora precisa estar salvo, para viver neste mundo.

Apesar de tudo, na casa de Rogério, a vida parece melhor. Ele ganhou, através do programa de apadrinhamento da Visão Mundial, uma cabra e tres cabritos. É a cabra que garante o leite para os nove filhos de Cida. Eram oito. Nesse tempo nasceu mais um menino: Claudevan, agora com 4 meses de idade.

"A gente percebe o volume da cabeça muito acentuado em relação ao corpo. É uma criança com risco. De alimentar, de ter uma doença e, já está desnutrido, e vir a falecer. É risco de vida iminente. Aqui é o seguinte: é uma questão de trabalhar a mãe, melhorar a condição da mãe, dela se alimentar, porque ela tendo condições de se alimentar, ela estando em melhor condição, ela vai ter condição de sustentar a criança. Aqui a alimentação dela é peito." - Geraldo Pinto – médico



E talvez porque nunca lhe disseram, ou porque nunca pensaram pra ela tantos cuidados, essa mulher de 33 anos, analfabeta, mãe de 9 filhos chorou. Alcançada pelo olhar de um médico que olha pra ela.



"Então, se conseguir pra ela a multimistura, pra ela fazer uso normalmente de duas colheres de sopa por dia, misturado na alimentação dela, e realmente ter a feira básica...Se ela só come uma vez ao dia, mesmo com a multimistura, não vai suprir."
— E alguma vitamina pra ela adianta?
"Não adianta vitamina se não tem alimentos." - Geraldo Pinto – médico


No retrato da família, o eterno retorno.
A história de Rogério parece se repetir em Claudevan.
A história de Adeilson pode se repetir em Rogério.
Que a vida não seja tão seca para os meninos sertanejos.
Que a beleza do sertão não viva apenas neste céu.




Ficha Técnica e Discografia



Primeira parte do programa Quase o Peso de um Passarinho - Dois Anos Depois

 

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