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Dois Anos Depois
primeira parte Neide Duarte
 


A lua é de quarto. Cresce em cima do rio São Francisco. É pleno verão. Nuvens de novembro no céu do sertão das Alagoas.

Estamos voltando. A mesma estrada, o mesmo calor, a mesma poeira, a mesma secura da terra, os mesmos ossos no campo, o mesmo sertão.


Quando estivemos aqui, dois anos atrás, a lua estava completa. Lua de março. Era começo de inverno no sertão. Procissão pra São José. Os sertanejos passavam pedindo chuva em abundância. Era tempo da lua grande no céu.





O mar da tranqüilidade, o brilho dos planaltos, a secura das crateras, seus mares vazios.

A lua espelha o sertão. Na noite da estrada de terra uma ambulância vai. Cosme e Damião estão voltando pra casa.


— Como é que eles estão?
"Tá jóia."
— Estão dormindo? Esse é quem?
"É Cosme". - Lourdes da Conceição – mãe de Cosme e Damião


Maria de Lourdes passou o dia no hospital da cidade de Pão de Açúcar com Cosme e Damião. Febre, diarréia, desnutrição aguda.

"Eles completaram um mês domingo."
— Quanto eles estão pesando?
"Um pesa 3 kg outro pesa 2 kg."
— Com um mês? Quantos filhos a senhora teve?
"21, com esses dois."
— E quanto morreram?
"Já perdi a conta, mulher."
— Quantos a senhora tem que estão vivos?
"Tem oito." - Lourdes da Conceição
— Morreram treze.


Cosme e Damião não chegaram a completar três meses. Morreram logo depois que estivemos aqui. Nesses dois anos, Maria de Lourdes mudou de casa e já ficou grávida duas vezes. Na primeira, abortou.

 

— Então você está grávida de novo?
"Estou..."
— Quantos meses?
"Oito."
— Quando é que vai nascer?
"O mês que entra."
— E você não fez exame pra saber como está o estado dele?
"Fiz não."
— Não sabe nem se é menino ou menina?
"Eu quero que seja uma mulherzinha."
— Quantos filhos você teve mesmo?
"24, com esse." - Lourdes da Conceição

Na cidade de Rui Palmeira, Maria de Lourdes espera a chegada da nova criança, junto com quatro de seus filhos, um neto e o marido.

Ninguém na casa trabalha. Vivem com o que as duas filhas mais velhas pedem pelas ruas.



— O senhor tem 24 filhos?
"24 meu, meu sim. Meu quantos é, mulher? 21, né? É, 21 dele. Eu tive 3 do primeiro marido. Eu não sou casada com ele."
— Ah, ele é seu segundo marido?
"É."
— Então com o primeiro foram três. E com o senhor?
"Meu é 21."
— Por que o senhor tem tanto filho?
"Porque é assim mesmo, a pessoa não tem condições, mas acha bom, né?" - Lourdes Conceição e Benedito dos Santos

Nesses povoados do sertão de Alagoas a vida tem poucas oportunidades. Os rios são temporários, as sombras são temporárias, a comida é temporária. Só o deserto parece ser pra sempre.

A esperança de vida para esses sertanejos é de pouco mais de 50 anos.

A grande maioria desses homens, dessas mulheres não reconhece as palavras escritas, nem seus significados.

Dois anos atrás, morriam neste sertão quase tantas crianças quantas morrem em qualquer país miserável, em meio a uma guerra civil.

 



Várzea de Dona Joana. No armazém do povoado um retrato de que a morte também é mercadoria. O caixão pequeno e branco é artigo de necessidade neste sertão das Alagoas.




"Antes, tinha dia da gente dar cinco, seis caixões e hoje você dá um no mês, dois às vezes. Tem mês que você não dá nenhum."
- Edneuza Ricardo – prefeita de São José da Tapera



Três anos atrás, o índice de mortalidade infantil nesta região de São José da Tapera era de 147 crianças mortas para mil nascidas vivas.

Hoje este número baixou para 65. A redução foi grande, mas ainda é quase o dobro da média do Brasil: 34.

Um número alto demais para a Organização Mundial de Saúde: esse índice não poderia ser maior do que dez.

Foi esse retrato da morte que atraiu a ong Visão Mundial para o sertão de Alagoas.


"A Visão começou aqui com um programa que se chamava SOS Seca. Era um programa de emergência que só veio para socorrer as famílias no momento da seca maior."
- Maria da Paz Pimentel – gerente Visão Mundial – São José da Tapera




"Não acredito. 9 quilos e 900."
— Quantos anos ela tem?
"Ela tem 4 anos e 2 meses."
— Ela deveria pesar quanto?
"Ela deveria pesar 14 a 15 kg."
— É um caso de desnutrição de que grau?
"Terceiro."
— É o grau mais grave?
"É o grau mais grave de desnutrição."

— Ela toma a multimistura?
"Ela toma a multimistura há 8 meses e ela começou o programa com 8,4 kg, não é, Francisca? Então eu não sei por que ela não consegue se desenvolver. "
— Ela come a multimistura?
"Ela come bem."
— Deixa eu ver uma coisa? A barriga dela? Ela tem vermes?
"Eu acho que tem. Ela comia terra..." - Maria da Paz Pimentel - pesagem



Foi Janeide quem fez assim, as palavras se juntarem dessa maneira: quase o peso de um passarinho era ela, aquela menina de olhos grandes, poucas palavras e muito encolhimento, como todo menino dos sítios do sertão.


Estamos chegando na casa dela. Caminho limpo de plantação. Só a caatinga seca e cinza e a estrada branca de tanta areia.

Aqui onde o vento é forte e o silêncio é grande fica a casa de Janeide.

A chuva se derrama longe deste céu.
As janelas são paisagens na parede. Retratos de tanta lonjura.

Aqui vive Janeide com os pais e sete irmãos.
Aqui onde o vento é forte e o silêncio é grande.



— E quando você viu a Janeide assim, você foi vendo o desenvolvimento dela... o que você achou?

"Esse patrocinador, desde que acabou o projeto SOS Seca, ele ficou sempre mandando recurso. E esse recurso a gente sempre empregava em alimentação para a família. A gente comprou cama, colchão, brinquedos. Ela não tinha nenhum brinquedo, ela não tinha uma boneca, ela não tinha nada, ela nem sorria. Hoje a gente vê Janeide sorrindo. Ela é muito mais feliz. Tem onde dormir, diz pra todo mundo que a cama é dela, que o colchão é dela, que foi o padrinho dela que deu." - Maria da Paz Pimentel – gerente Visão Mundial


— Como é que ela se desenvolveu assim tão bem?
"Não sei se foi mó de a massa, acho que foi mó de a massa."
— A multimistura?
"Sim, senhora." - Benedita dos Santos – mãe de Janeide

"A Janeide conseguiu um patrocinador de muito bom coração e assim sempre ele está mandando essas doações e a Visão Mundial está tentando desenvolver economicamente o futuro dela. Então, a gente comprou animais, são duas cabeças, e daí mais pra frente, com certeza, Deus vai ajudar ela a ter muitas cabeças pra ter um futuro bem mais brilhante." - Maria da Paz Pimentel



Segunda parte do programa Quase o Peso de um Passarinho - Dois Anos Depois

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