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branco e preto

Baixo sul da Bahia - primeira parte
 

Neide Duarte


Quando os portugueses cá chegaram, nesta Bahia de grãos, de árvores de pau vermelho, nesta cidade que ainda não era cidade, que ainda não era tão branca. Que ainda não era de Oxalá, nem de contas de vidro, nem de conchas.


Ainda não era esta Bahia de todos os santos, mas aqui já reinava a mandioca, a rainha do Brasil, o pão da terra. E o que era costume dos índios acabou por dominar o paladar português.


"O que nós podemos dizer é que a mandioca sustenta a pobreza. Ela mantém o homem do campo no meio rural, podemos dizer até que evita o êxodo. Em qualquer lugar que você vá, que existam condições mínimas de sobrevivência, lá você encontra uma comunidade cultivando mandioca"
. - Adonias de Castro - Diretor Ides



Valença, Ituberá, Camamu, estas cidades do Baixo sul da Bahia, foram as maiores exportadoras de mandioca do Brasil no século XVIII. E até hoje todo o povo que vive da terra tem seu roçado de mandioca, tem sua porção de miséria.




35% da população não tem carteira de identidade.
40% não sabe ler nem escrever.
21% vive em casas de taipa.




Há um ano quatro entidades: o Instituto Ayrton Senna, a Fundação Odebrecht, o BNDES e a Fundação Kellog se uniram e criaram uma Aliança para tentar melhorar esse estar, esse ser.

E para ter garantida a mudança e a novidade colocaram o foco da atenção nos adolescentes.


CIDADE: ITUBERÁ
RUAS DA CIDADE, DIA


"Meu nome é Andréa, tenho 14 anos".
"Meu nome é Cíntia, tenho 17 anos".
"Antes eu não gostava de fazer nada".
"Estamos aprendendo a nos projetar na sociedade".
"Eu não tinha essa visão crítica, eu não tinha esse pensamento que tenho hoje".



"No momento em que ele está se desenvolvendo é inerente o desejo de transformar o mundo, é inerente o desejo do adolescente, o desejo de fazer algo por ele mesmo, pelo outro, pelo seu par mais próximo e pela comunidade como um todo".
- Joana Almeida - Pedagoga / Líder do projeto adolescentes voluntários



"O nosso projeto é sobre o lixo... Ah, mas todo mundo fala: jogue lixo no lixo, só que nós não encontrávamos nem lixeira pra jogar".
- Thayro da Paixão - voluntário




"A gente procura trabalhar a conscientização..."
- Carlos Conceição
"E quando ele vem da rua, vem com os bolsos cheios de lixo." - D. Jovem - mãe de Carlos
"Pra não jogar na rua!" - Carlos
"Quando eu vou aos bolsos eu digo: Carlos, mas o que é isso?" - D. Jovem
"Ah mãinha, eu não vou jogar à toa. Então traz tudo pra dentro de casa." - Carlos

"Carlos vai passar a ser meu apoio direto, exatamente para ele ter a pedagogia da presença, a capacitação em serviço e poder delinear o seu projeto de vida. Hoje ele é instrutor do Boca de Lata e a gente busca dar pra ele, dentro do programa de voluntários, as ferramentas do protagonismo juvenil, que é a capacidade dele de ser autônomo, competente e solidário". - Joana Almeida - Pedagoga / Líder do projeto adolescentes voluntários


A Aliança com o Adolescente apóia e supervisiona oito projetos com adolescentes do Baixo sul da Bahia. Para coordenar esses trabalhos fez uma parceria com uma Ong da região, Ides, responsável pelo desenvolvimento dos projetos.

"Nós estamos trabalhando em 9 municípios. No início os adultos resistiam muito: não, isso é maluquice, os meninos daqui não querem nada, os meninos daqui são incompetentes. Aos poucos a gente foi quebrando tabu dos educadores, o tabu dos próprios adolescentes, das famílias, das escolas e estamos conseguindo aos poucos fazer um círculo, né? Botar todo mundo na roda". - Joana Almeida

 

CIDADE: TANCREDO NEVES
CASA DE FARINHA, DIA


"Prá tudo tem o dom, né? O dom de cantar ou o dom de chorar, mas a gente tem o dom de cantar. Então a gente fazia isso pros dias passarem assim, mais rápido".
- Valdomiro da Silva - fazedor de versos




Amassar, desfazer os nós, transformar o estado da mandioca.
O começo da farinha que se anuncia.
Sua dança, seus usos, sua casa entre as nossas casas.

Torcer pelo Bahia e espiar a mãe como nos ensina: amassar a massa, de todo dia. A mandioca na nossa vida. A nossa vida numa casa de farinha.

Quantos anos você tem?
"Nove".
— E o que você faz aqui?
"Raspo a mandioca".
— Você vem sempre aqui?
"Venho".
— Todo dia?
"Sim".


"Aí, quando eu comecei a engatinhar pronto, desde um ano de idade a gente já estava habituado ao plantio de mandioca. Como diz o burro, eu nasci os dentes na casa de farinha, trabalhando".


"A oportunidade de emprego aqui é pouquíssima, como a gente aprendeu na oficina do Jovem Empresário, que emprego não existe, a gente tem que fazer". - Cláudio Menezes


"A preocupação é organizar a cadeia produtiva da mandioca, que é uma cadeia na qual todos vinham perdendo. Então, com o trabalho da Aliança e dos parceiros, nós estamos começando pela organização social. A partir dessa organização foi criada a cooperativa".
- Adonias de Castro


CIDADE: TANCREDO NEVES
ROÇA DE MANDIOCA, DIA

"É que pobre não pode armazenar nada, né? Porque o que fez já é pouco e não pode armazenar, se armazenar a gente vai ter falta mesmo".

"Vamos ter fé que a cooperativa vai incentivar muita gente, eu ainda acredito que a cooperativa ainda vai dar um ponto final em tudo isso".

"Eu pensei, Valdomiro, se a cooperativa pra levantar tanta mandioca que a gente tem ia perder tudo".

"Vamos arrancar mandioca então, vamos lá".

A cooperativa fez um contrato com esta indústria farinheira, que estava ociosa. Aqui se faz cinco toneladas de farinha de mandioca por dia. Produção de 150 lavradores associados, que assim evitam o atravessador. O trabalho de transformar a mandioca em farinha é feito por 24 funcionários da cooperativa. Eliane, essa garota de 21 anos é a presidente.


"O meu sonho hoje é ver a população tancredense com uma vida melhor, todo mundo ter seu direito reconhecido. Eu pretendo me formar e voltar a morar aqui. Futuramente quem sabe ter um cargo político na cidade". - Eliane de Oliveira - Presidente da Cooperativa

"Os adolescentes com os quais nós estamos trabalhando se eles quiserem sair dessa microrregião, que eles saiam por opção e não por obrigação. Hoje esses jovens estão sendo praticamente obrigados a procurar outras cidades para continuar seus estudos. O que a gente espera é que esses jovens possam ficar nesses municípios, nessas microrregiões, participar do desenvolvimento delas e encontrar aí um futuro". - Márcia Campos - gerente de projetos Odebrecht

Sábado, dia de feira em Tancredo Neves. Por enquanto Eliane, a presidente da Cooperativa, que sonha ter um cargo político na cidade onde nasceu, ajuda a tia na barraca de roupas. Ela vai se formar professora dentro de um ano. Enquanto isso vai levando a sua vida. Atravessa um longo caminho de terra todos os dias até a estrada, depois espera a lotação debaixo da jaqueira assombrosa.

Aqui tombou um pau de arara e morreram sete pessoas. Desde então o lugar ficou conhecido como a jaqueira do assombroso.

— Você vai ser professora, então?
"É, no momento, mas eu pretendo fazer faculdade futuramente".

— Tem muitos jovens na sua cidade que fazem faculdade ou que fizeram faculdade?
"Não, hoje nós temos um jovem que conseguiu passar no vestibular, que faz pedagogia em Valença".

— Um só?
"Um só, a população tem 20 mil habitantes na cidade, só um jovem passou no vestibular".

— E tem muitos jovens que saem da cidade e vão para uma cidade maior?
"Sim, no ano passado entre 1999 e 2000, saíram 63 jovens para São Paulo". - Eliane de Oliveira - Presidente da Cooperativa


"Eles acham que aqui a gente está no interior, a gente não é valorizado, né? Eles ainda não têm essa consciência, eles acham que na cidade grande eles vão ser valorizados, mas na verdade depois que eu vivi isso eu descobri que eu posso ser uma pessoa de valor aqui".
- Eliane de Oliveira - Presidente da Cooperativa




Eu fui ajudante na tenda de Vulcano, eu viajei por detrás do oceano e tudo isso eu faço sem trabalho. Pois como é que agora me atrapalho com este pobre cantador pernambucano.

— Isso é seu?
"É, isso é da gente".

— O senhor escreve essas trovas?
"Não, eu gravo na cabeça. Fica comigo mesmo na cabeça". - Valdomiro da Silva - fazedor de versos


"Eu fui ajudante na tenda de Vulcano, eu viajei por detrás do oceano e tudo isso eu faço sem trabalho. Pois como é que eu agora me atrapalho com este pobre cantador pernambucano".
- Valdomiro da Silva - fazedor de versos

 

 




Veja a segunda parte do programa Uma cor no retrato branco e preto

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