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Porto Alegre (RS) - segunda parte
Neide Duarte
 



A Restinga está em obras. Vai tentando reconstruir sua história à sombra da sua vida de violência.

Não é possível mudar a vida de uma criança sem mudar a vida da sua família.

Foi acreditando nisso que a prefeitura de Porto Alegre desenvolveu o Núcleo de Apoio Sócio-familiar.

 

"Eu estou no programa por que eu sou... eu brigava muito, meu marido batia muito em mim. Bate ainda. Ele me espancava muito, batia muito nos meus filhos." - Elaine

   

"Eu entrei no projeto por causa que tinha espancamento. Comigo e com meus filhos. E meu guri era drogado." - Rosângela

"Eu entrei nesse projeto por que eu estava com os meus filhos, 4 criança, eu sozinha e o meu marido preso. Ele foi muito tempo viciado em droga e por isso que ele tem HIV, tem HIV o meu marido." - Bernardete

— E você não tem?
"Eu não sei se eu tenho, né? Meu maior conflito é que eu choro sempre, né? Não é por mim, é pelas crianças." - Bernardete

 


"A Restinga é cidade sem lei. Não existe lei na Restinga, a lei somos nós, mães que temos que proteger nossos filhos da maneira que nós podemos. Eu tenho um de 9 anos que já foi inclusive usado. Usado prá... droga?"
- Sandra

 

 

A prefeitura de Porto Alegre mantém 27 Núcleos de Apoio Sócio-Familiar em toda a cidade. Cada núcleo atende 40 famílias. Cada família recebe uma bolsa de 150 reais por mês.

É feito um contrato com cada família.

 

Que contrato você fez com o pessoal lá do núcleo que te dá a bolsa de 150 reais?
"Do meu guri sair da rua, do caminho da rua, de parar de cheirar cola e de ir para o estudo, para o colégio, né? E de eu conseguir parar de espancar ele e parar de ter espancamento em casa." - Rosângela



Rosângela deixou de cumprir alguns dos ítens do contrato, por isso por 2 meses deixou de receber os 150 reais, agora procura ser mais rígida com seus compromissos.

 

"...Amanhã tenho audiência, não posso."
"Eu vou junto com a senhora."
"Como é que vai comigo se tem aula? Não, não vai faltar na aula."
"Ah, mãe..."
"Não! Depois vão cobrar de mim, não mesmo. Tu sabes que não pode faltar aula."
- Rosângela com o filho Maicon

 

Rosângela tem um outro filho internado numa instituição.

"Eu fiquei 2 anos e meio sem ver ele, porque quando eu ia antes ver ele, ele pegava e vivia fugindo, eu peguei e fiquei brava e disse, vou dar um tempo de ver ele, daí fiquei 2 anos e meio." - Rosângela


Rosângela também costumava usar droga. Mesmo depois de casada, com seus filhos, ainda cheirou cola muitas vezes.

— Mas ele via ele chegou a ver você cheirando cola?
"Não, não, nenhum deles."
Eles não sabiam que você cheirava cola?
"Não, nunca fiz assim na frente deles." - Rosângela

 


Os meninos da Restinga constróem o bairro onde moram. No papelão a Restinga é uma cidade. Prédios azuis, vermelhos, o espaço do hip hop, janelas abertas para a praça principal. Na sua história caberá toda a geografia: ali também é o lugar de alguns vulcões.

 

Como é que eles veêm a Restinga?
"Eles vêem como um lugar de crescimento, onde eles crescem, onde eles conhecem os outros. É um lugar afastado do centro, é a vida, é a casa. Qualquer coisa que aconteça fora da Restinga é um sonho." - Janice - professora de educação artística

 


Centro de Assistência Social da Restinga, lugar onde crianças e adolescentes se dedicam à dança, à pintura, ao esporte, à música. Projeto mantido pela Prefeitura para tirar as crianças e os jovens da rua.

 

Quando Janice, a professora de artes plásticas, ouviu Danilo cantando, percebeu que ele poderia encontrar um novo caminho na música.

Hoje ele faz parte do Coral da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre.

 

Danilo tenta se adaptar ao novo ambiente. Cristina, a soprano da orquestra, faz um contato com ele, mas Danilo ainda não se sente completamente à vontade.

Danilo começou a cantar na cozinha da sua casa, ouvindo o rádio, junto com a mãe.

 

"Ele tá realizando um sonho que eu não realizei."

— Por quê?
"Porque eu também gostava muito de cantar. Cantava no coral nos pequenos cantores da Febem. Daí eu me criei na Febem. (...) Eu queria estar sempre perto da minha mãe, mas a minha mãe não podia ficar conosco então, por isso que eu fui prá lá, eu e meus irmãos." - Adelaide




Você sempre achou a voz da sua mãe bonita?
"Bá! Tri-bonita. Prá caramba mesmo. Eu acho, né? Não sei se os outros acham também, mas eu acho." - Danilo

 

 

Adelaide quando era criança não morava com a mãe.

"O filho ele quer tá sempre junto da mãe." - Adelaide

Fabiele, a sua filha, não mora com ela, mas com a avó.

"Ela queria ficar aqui comigo, daí eu disse assim prá ela, mas minha filha, não dá prá ti ficar aqui, meu amor, a mãe está desempregada, daí tu vai passar trabalho aqui com a mãe. Daí ela diz assim prá mim, não, mãe, mas eu não vou comer." - Adelaide

'Queria ficar com ela."
— Mesmo que não tenha muita comida?
"Sim."
— Você não se importa?
"Não."
— Por quê? É melhor ficar com a mãe?
"É."
— Por quê?
"Porque eu gosto mais dela. Eu gosto de ficar com ela." - Fabiele

 


Adelaide tenta há muito tempo receber a bolsa de 150 reais, mas ela, apesar de muitas vezes não ter comida em casa, não pode participar do projeto do núcleo familiar. Para isso seria preciso que algum dos seus filhos pedisse esmolas, ou usasse drogas, ou se houvesse violência dentro de casa.





"Por que nós temos que priorizar, a prioridade é a situação de risco, nós temos assim, várias famílias que poderão entrar em situação de risco, mas temos milhares que já estão em situação de risco."
- Shirlei

 

— Vocês discutem isso? Essa situação que a família precisa chegar num ponto extremo para ser ajudada, vocês discutem isso?
"Sim, isso é muito discutido, mas nós nesse momento temos que atender por situação de emergência. São as famílias que estão em situação de risco." - Shirlei

Pelo menos 30 mil famílias em Porto Alegre precisariam desse tipo de ajuda, por enquanto o projeto de núcleo familiar atende apenas 1060.

Noventa por cento delas são mantidas somente pela prefeitura.

Dez por cento das famílias são mantidas com a ajuda de alguns parceiros: empresas públicas, supermercado, emissora de TV, ongs.

A Fundação Telefônica mantém um núcleo de 40 famílias. E o Instituto C&A desde 1997, quando o projeto começou, garante a bolsa de outras 40 famílias.

"A C&A entende que uma empresa transcende o papel meramente comercial numa sociedade. Ela é uma empresa que é uma central de recursos, onde ela tem cidadãos funcionários. Depois por entender que nós fazemos parte de uma sociedade que já não dá mais prá dizer que toda responsabilidade é do governo, é uma responsabilidade social. E todos nós fazemos parte dessa responsabilidade." - Rejane Paz - Instituto C&A

 

Na dança da fita o peão se enrosca com sua prenda. Caranguejo não é peixe. Suellen veio de azul, vestido de rendas. Rodrigo de bombacha e lenço no pescoço.

As famílias dos dois recebem a bolsa de 150 reais. Cada um por um motivo.

 

"Por que minha mãe estava solteira e precisando de dinheiro."
Ela estava solteira e tinha quantos filhos?
"Sete, agora está com 8. Não era sempre que tinha dinheiro prá comprar as coisas e ela precisava."
— Faltava muita coisa na sua casa? Faltava o quê?
"Tudo, né. De tudo um pouco... faltava o que comer." - Suellen

Você mora com quem?
"Com minha avó."
— E seus pais?
"São separados."
Por que você não mora com sua mãe?
"Isso daí ela não falou, mas ela não quis ficar comigo de certo."
O que sua avó falou?
"Ela falou que ela foi embora e iria morar em outro lugar e eu teria que morar com ela."
— E o que você sentiu?
"Angústia." - Rodrigo

"A mãe deixou eles e foi embora, ela andava na rua. Então, eles foram abandonados na rua pelo pai."
— Na rua?
"Botou eles prá fora de noite, e eles ficaram sentados na rua, na beirada da faixa quando a polícia passou."

— E ele tinha quantos anos?
"Ele era menor ainda, não tinha 8 anos. O Conselho Tutelar e a polícia que pegou eles e levou pra Febem, tiveram quase dois anos na Febem. (...) As vezes eu brigo com ele porque eu convido ele pra ir na mãe dele e ele não quer ir. Ela não vem ver eles, só quando eu levo eles lá." - Iracema - avó de Rodrigo


O que você gostaria de falar prá ela e que você não fala?
"O que eu não falo... a pergunta que eu queria fazer prá ela é por que ela me largou prá viver com outro?"
— O que você pensa ser quando for grande?
"Não sei."
— Que sonho que você tem?
"Meu sonho? Ter uma casa nova para com a minha avó e os meus irmãos morar junto."
— Todos os seus irmãos?
"E a minha mãe."
— Vai chamar sua mãe para morar junto?
"Vou." - Rodrigo

 





Ficha Técnica e Discografia



Veja a primeira parte do programa Paralelas Cidades

 

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