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Porto Alegre (RS) - primeira parte
Neide Duarte
 



O ar é leve nos Moinhos de Vento, na neblina que guarda a cidade, na chaminé da usina do Gasômetro, no estádio Beira Rio, nas tardes onde o sol procura o rio Guaíba.

Beleza americana na paisagem de Porto Alegre.


O ar é passado na Restinga. Atravessa a cidade inteira até chegar neste canto. Depois do Moinhos de Vento, depois do Cristal, depois da Tristeza, depois de Ipanema, depois de Juca Batista, ali onde Porto Alegre acaba fica a Restinga.

 

 

— Que palavra usaria para definir a Restinga?

"Violência."
"Violência."
"Morte."
"Morte."

 


Porto Alegre é a capital com melhor qualidade de vida do Brasil. Índice de alfabetização: 97%. Expectativa média de vida: 73 anos. Uma cidade verde: 546 praças, sete parques. Um milhão e trezentos mil habitantes para um milhão de árvores.

 

A cidade se desdobra: reflete uma cidade, que olha para uma outra cidade.

Abaixo do Equador, paralelo 30. Paralelas cidades.

No lugar da melhor qualidade de vida, quase 20% da população vive em estado de pobreza absoluta.

 

Paralelas cidades. Mas esta Porto Alegre aprendeu a se olhar no espelho e no meio do caos reconhecer o que enxerga de si mesma.

Janete já foi caixa de supermercado, já trabalhou com reciclagem de lixo hoje é uma conselheira do orçamento da prefeitura de Porto Alegre.

Ela é uma das pessoas que tem poder de voto, para decidir aonde será empregado o dinheiro público.

 

— E como é que você se sente participando dessa decisão sobre o destino do dinheiro da prefeitura?

"Eu me sinto útil. Eu me sinto recompensada porque a gente sabe que tá junto, tá vendo as necessidades da população em si. E podendo de uma forma ou de outra ainda conseguindo dirigir esse dinheiro, então isso é muito importante para as necessidades do pessoal." - Janete


Desde 1989 a população participa das decisões de escolher qual será o destino do dinheiro público: é o Orçamento Participativo. A cidade é dividida em 16 regiões. Em cada uma delas a população se reúne, vota e elege 4 conselheiros e 30 delegados, que terão poder de decisão na distribuição do orçamento da cidade.

 

Com essa política inovadora, Porto Alegre, por dois anos seguidos, em 1999 e 2000 ganhou o prêmio da Fundação Abrinq - Prefeito Criança.

A cidade foi escolhida entre 206 cidades brasileiras, que se destacaram nas suas políticas para a infância e adolescência.

"Olha o Prêmio Prefeito Criança, para nós, vem mostrar o quanto é importante esse trabalho em parceria. A gente não considera um prêmio ganho do governo, ele é um prêmio que foi ganho, conquistado pela cidade de forma coletiva através de um trabalho de parceria com a sociedade civil, através das empresas, ongs, igrejas que nos apoiam em todos os programas e movimentos que a gente faz nessa cidade." - Elaine Paz - secretária do governo municipal


"Bom dia, Sinal Vermelho para Esmola, esta é uma campanha para tirar crianças da sinaleira. O ato de dar esmola mantém elas na sinaleira, então a jogada é não dar nenhuma contribuição nem prá elas, nem prá nós, tá bem? Um bom dia."
- Caporal

 


No fundo você pode ajudar uma criança. É assim o Movimento Sinal Vermelho para a Esmola. O objetivo é estimular as doações para os Fundos Municipal e Estadual da criança e do adolescente.

 

O projeto reúne 16 parceiros: instituições, órgãos governamentais, fundações e ongs que realizam eventos para conscientizar a população. O Movimento não tem dono é uma iniciativa de cidadãos.

"Está sendo forjada, este novo paradigma da sociedade civil, a sociedade como um todo indo ao encontro da sua tarefa, da sua responsabilidade. Isso muitas vezes é encarado com um certo medo, um certo desafio, mas nós não podemos recuar. Porque não temos outra escapatória se queremos um país, uma sociedade mais tranqüila para todos temos que, cada um fazer o seu papel e não podemos fugir dele." - Caporal

 

 

Além de conselheira do Orçamento Participativo, Janete é agente de saúde e faz visitas pelo bairro pobre da Restinga, onde mora.


"Tem que dar banho enquanto está calor, porque depois você já viu, né?"

— E como é que eles estão de bronquite?
"Agora tão bem mas os 3 tiveram pneumonia. A Joele quase morreu. Deu pneumonia dupla." - Janete Acunha

 


"... diz que encontraram ele morto ali atrás, diz que ele ficou uma semana sem aparecer, sumiu de casa, daí claro, a família começou a procurar, procurar. Parece que foi a polícia que descobriu ele ali. E a mãe dele vai muito na Universal. Ele é aqui da Rocinha." -
Rosana

 

Assim são os dias na Restinga, assim são as histórias da Restinga, esse bairro a 25 km do centro de Porto Alegre.

Reunião no Centro de Assistência Social da Restinga. Mulheres que participam do programa de renda familiar.

 



Quando Guacira chega, uma delegada do orçamento participativo, dona Noêmia começa a chorar e sai da sala.

 

 

O que aconteceu hoje lá naquela sala? Você foi entrar e aquela senhora saiu chorando?

"É... aquilo lá... foi que ela perdeu um filho e no dia em que o filho dela morreu, meu marido discutiu com ele, com o filho dela. Então, ela acusa meu marido de matar o filho dela." - Guacira



Histórias de assassinatos onde nunca se encontram os culpados, marcam os dias do bairro. A Restinga vive uma guerra de gangs há muito tempo, os Miltons de um lado os Primos de outro. Disputas por pontos de droga. Mortes e acerto de contas na paisagem.

 

"Restinga tem que mudar um pouco."
— O que tem que mudar?
"Essas gangs, tem que tirar essas gangs."
— Por quê?
"Porque está matando um monte de gente."
— É perigoso?
"É."
Você tem medo?
"Tenho."
"Porto Alegre é aqui."


— Quem pôs essa lâmpada nesse poste aqui na esquina?
"Foi a Associação dos Moradores com a ajuda dos fiscais. Aí, colocamos para iluminar que fica muito melhor prá nós, por que se não tiver iluminação fica muito ruim. Fica perigoso."

— Tem gangs aqui?
"Aqui não mas em outros lugares sempre tem, em todos os lugares tem, né?" - Janete Acunha

Esta outra Janete é delegada do orçamento, também tem poder de voto nas reuniões orçamentárias.

"Todo mundo tem sua hora de falar, né? E isso eu acho muito importante."
— E como é que você se sente sendo assim a representante de todas essas pessoas, de todos esses moradores?
"Olha, eu vou te dizer uma coisa bem sincera, eu acho que eu ainda não estou fazendo aquilo que eu queria fazer. Mas com a luta a gente vai conseguir tudo aquilo que a gente quer, que é botar endereço, tudo direitinho." - Janete Acunha

 

Rua B, beco 10, casa 20. Por enquanto esse é o endereço de Janete, lugar onde não chega carteiro, difícil de explicar para os outros, quase não é um endereço.

"Uma pessoa quer entrar em contato contigo, tu diz assim, é lá no beco 10 na vila Pedroso. Aí pra te acharem o que eles vão fazer? Vão lá na Vila Castelo prá perguntar por ti. Não ter endereço é não ter de alguma forma... referência, é não ter referência."

— É como se estivesse solto no mundo?
"Exatamente..." - Janete Acunha

 




Veja a segunda parte do programa Paralelas Cidades

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