Frutos Caminhos e Parcerias - Início Nossas Línguas Brasileiras
Ayoyê - primeira parte
Neide Duarte
 


Tudo o que o rio Xingu traz, para os índios se apresenta. Do alto a vista nos alcança, muito antes de ser vista.


Passamos sem perceber que já somos visão e história. Xingu. Terra de navegantes, de muito antes.



Estamos em terras juruna, a tribo que vivia errante nos anos 40. No século dezenove eles moravam a mais de 500 km daqui, quando tiveram de fugir por causa dos seringueiros. Durante muitos anos viveram caminhando por estas terras, levando seu mundo de um lugar para o outro.



"Porque eu tava tocando? Só pra fazer alegria." - Pinikawã Juruna

"Não pode esquecer o futuro e o passado, porque a gente tem muito visto também, no vídeo cassete, né? Os outros, os índios sofrendo já esqueceram o seu idioma, já não é, já se mestiçou tudo, misturou tudo... " - Tamarikô Juruna - agente de saúde

Preservar esse universo de nações, povos e línguas que é o Parque Indígena do Xingu é parte do projeto que o Instituto Sócio Ambiental, uma organização não governamental, desenvolve há 6 anos.


Para isso criou o curso de formação de professores do Parque Indígena do Xingu.

Quem mantém esse projeto é a Rainforest, uma ong da Noruega, que destina ao ISA 120 mil reais por ano.

O curso foi aprovado pelo Ministério da Educação que publicou 6 dos 9 livros editados. O objetivo é alfabetizar as crianças indígenas em português e na sua língua natal.


"A escola tem o poder de formar novas gerações, de ensinar os jovens, né? E também ao mesmo tempo, de ter um registro da própria língua, de poder registrar as histórias." -
Maria Cristina Troncarelli


O curso de formação de professores indígenas significou a transformação da linguagem oral em linguagem escrita. Isso traz muitas mudanças e diferenças na cultura dos índios.

Antes de mais nada se cria a categoria dos analfabetos. Depois as histórias, os mitos correm o risco de se cristalizar no papel e perder o significado vivo que têm hoje.


"Nós começamos a pensar que a fala começou a mudar. Como os antigos falavam e os novos falam diferente e ficamos preocupados de que a gente continuasse falando como os velhos falam, por isso nos preocupamos em fazer a língua escrita. Já que falamos esta língua, somos donos desta língua e por este motivo precisamos ter ela escrita." - Korotowi Ikpeng




Os índios parecem estar no meio do caminho, desse encontro irreversível com o mundo dos brancos, mas sem deixar que a vida na comunidade perca o seu encanto.




"Está fazendo uns 6 anos que eu estou fazendo o curso. Quero estudar mais, quero aprender muita coisa... a língua estrangeira que eu não conheço, pode ser inglês. (...) Assim, agora depois do curso eu tô querendo fazer faculdade." -
Prof. Juruna Karin Yudjá

E o professor Karin, que com o tempo se prepara para a faculdade, se prepara também para estas tardes de festa.

Todos acrescentaram alguma coisa a sua aparência: uma paisagem, céu e nuvens na cabeça, desenhos que o vento cria.

A transformação possível levam na testa, a marca do fogo num pouco de algodão.

O professor, o agente de saúde, o quase pajé passam compassados. Areia e traços. Marcas do fim da tarde dos seus pés.

Esta não é uma festa de verdade, é só uma apresentação para nós, o pessoal da televisão.

Mas tudo é feito como se fosse de verdade. As mulheres entram na dança trazendo na cuia, o caxiri, bebida típica dos juruna, feita à base de mandioca fermentada.




"Trouxe o caxiri, por que tem sede, mas ele esquenta, aí quando começa esquentar toca bem flauta. Quando você fica sem álcool fica meio envergonhado também, né? (...)Tudo que a gente toca aqui é do espírito."



Duas meninas de penas, duas meninas pequenas, meninas... A lua no céu é quem governa, de noite e de dia, águas do nosso corpo. Assim quando a lua nova trouxe a primeira menstruação, Areakí e Miúta se recolheram para dentro de casa.

 



Dentro da maloca, em cima de um jirau, como se fosse o segundo andar da casa, sem por o pés no chão. Longe da terra, longe do Sol. Tempo de ficar mais perto do céu. Até que quatro luas se passassem.




"Foi duro esperar passar. Ela ficou bonita, sua pele ficou branca porque não saía no Sol, só ficava no jirau." -
pai de Areakí Juruna



Para os juruna, a lua, que na língua deles é masculino, é o esposo de todas as mulheres.

Para comemorar a saída da reclusão das meninas, os juruna dançaram o dia todo. Areakí e Miúta já passam ao lado dos homens. Agora elas são mulheres.

 


Navegamos de dia, navegamos de noite.

Cada chegada um país diferente, outra língua, outras vozes. Passaremos. Vivendo estes tempos de levar nossa casa, nosso mundo, de uma aldeia pra outra.



"Nossa filha não sabe outra língua muito bem, não."
— Quem é a sua filha, essa aqui?
"Aruatã. É."
— Vem você e ela na escola?
"Eu e minha filha."
— E por enquanto ela só fala tupi?
"É. Mas um dia ela vai aprender um pouco da língua de caraíba." - Arauataba Kaiabi - aluna



Aldeia Tuiararé. Terra dos kaiabi, descendentes da tribo tupi.


"Da tribo pujante, que agora anda errante, por fado inconstante, guerreiros, nasci. Sou bravo, sou forte, sou filho do norte, meu canto de morte, guerreiros, ouvi."

(poema I-Juca-Pirama de Gonçalves Dias)



"Hoje os brancos melhorou um pouco."

— O que eles fizeram com vocês?
"Pegava nossas mulher, pegava as filhas e mandava os homens trabalhar como escravo." - Massiá Kaiabi - Aturi Kaiabi traduz

 

Aturi Kaiabi, o intérprete de Massiá é também o professor da aldeia Tuiararé. É ele quem ensina as crianças a falar o português e a ler e escrever em kaiabi.
Aturi, como Massiá, não tem boas lembranças dos homens brancos.

Aturi não esquece: era pequeno e uma epidemia de sarampo atingiu a sua aldeia. O sarampo acabou com 4 aldeias. Morreram 130 pessoas. Aturi perdeu a mãe e um irmão.

Depois do sarampo eles vieram morar no Xingu. Aí começaram a viver de novo. Aturi não esquece.


Na transformação do seu mundo, Aturi vai ajudando a transformar a linguagem oral em linguagem escrita. As palavras ainda saem espremidas. Nesse espaço pequeno para caber toda uma língua e o que ela significa.




"Pra mim eu acho bom os meus filhos aprender a língua nossa, tupi. Só um pouco do caraíba, pra não perder cultura nossa."
— E por que precisa aprender a língua do branco?
"Não sei, pra ver como branco faz com índio." - Arauatã Kaiabi - aluna

 



Massiá cor de urucum no corpo vermelho. Velho Massiá de cajado na mão na tarde da aldeia. Ainda é tempo, ainda é tempo para o urucum com que agora...

 




Veja a segunda parte do programa Nossas Línguas Brasileiras - Ayoyê

Tópicos Relacionados:
 

Saiba mais
sobre a região.

Conheça a atuação da entidade Confira a manifestação cultural.


Envie seus comentários e sugestões para o programa: caminhos@tvcultura.com.br

| Caminhos e Parcerias | Frutos |