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primeira parte
Neide Duarte
 




No princípio era a água. Água de toda criação. Líquido transformado: coagulação.

Conhecer, nascer com, nascer junto.

Aqui começar, sempre mais uma vez. O ponto de partida no porto. O cais do parto.


"Aqui está batendo o coração, o cordão... a água da praia que é a água da bolsa." - Zezé Galdino - parteira do agreste


"Se eu for contar por aí os meninos que eu peguei... um caminhão não dava pra levar tudo."
- Zulmira



"Eu aprendi com as graças de Deus, porque o primeiro menino que eu peguei foi numa estrada."
- Maria da Paz

"Minha mãe, minha avó, minha bisavó, todas eram parteiras." - Valeriana

"Eu comecei quando tinha 13 anos, ajudando minha mãe." - Regiane


Parteiras são moças, parteiras são senhoras, parteiras são meninas.

São elas quem pegam os meninos de Pernambuco. Aqueles que nascem no agreste, nos engenhos de açúcar, nos fins do sertão.

 

E não tem quem mais faça por eles.

É pra elas que eles olham quando nascem.

O primeiro rosto, a primeira vista dos meninos de Pernambuco.


"Todo esse saber, toda essa experiência ficou sendo repassada oralmente, por isso elas são chamadas de parteiras tradicionais.

Elas são mulheres sábias, porém elas não tiveram oportunidade de aprender a ler e escrever. Nesse universo de 60 mil parteiras que existe no Brasil, em torno de 80% são analfabetas."
- Sueli Carvalho - fundadora e coordenadora do Cais do Parto


"Eu não sei ler nem escrever. Sei meu nome muito mal. Somente ciência de Deus, dos astros, na ciência, pronto, faço tudo."
- Maria Valeriana do Nascimento - parteira da Zona da Mata


"A gente quer rediscutir o parto no Brasil e foi com essa proposta que fundamos o Cais do Parto em 1991."

— Que parcerias o Cais do Parto mantém?
"O Cais do Parto mantém algumas parcerias a nível internacional. São as agências de cooperação que ajudam os países em desenvolvimento. Também temos convênios pontuais com secretarias estaduais de saúde, secretarias municipais de saúde, com Ministério da Saúde, Ministério da Justiça." - Deyse Reis - coordenadora geral - Cais do Parto



Olinda, Pernambuco, é aqui que foi criada a ong Cais do Parto, que procura chamar a atenção para o número exagerado de cesarianas realizadas no Brasil.

Nos hospitais particulares são mais de 90%, nos hospitais públicos quase 30%. No Canadá, um dos países mais ricos do mundo o número de cesarianas não passa de 4%.



"Eu não tinha confiança no sistema de saúde daqui, de saúde pública. Como o índice de parto cesariana era muito alto, eu tinha medo de que me mandassem para cesariana sem precisar. A minha alternativa era voltar para a Suécia para fazer o parto lá, que é grátis, que é um serviço para todo mundo." - Lena Zetterstrom


Lena é sueca, casou com Douglas e há muitos anos vive em Olinda, o pai dela é médico e mesmo assim ela preferiu fazer o parto em casa, com a ajuda de uma parteira e do próprio marido.

"Embora tenha sido o primeiro parto, nunca me senti tão segura na minha vida. É como se o corpo soubesse exatamente o que fazer." - Lena

"Foi simbolicamente uma visão muito bonita, no momento em que ela estava de pé, a criança começou a vir e ela veio se abaixando e ficou de joelhos. Aí, Pedro saiu com a cabeça assim, bem vermelho, que ele era muito vermelho, vermelho que parecia um pimentão. Aí, eu digo pra ela, Lena, acho que ele está sem ar e ela disse, Não! Espera que ainda vem uma contração, aí eu já segurava a cabeça dele aqui, veio a segunda contração ele caiu nas minhas mãos." - Douglas Feitosa - músico

"O parto passa a ser neste último século uma questão de doença e não de saúde. Parto é um processo natural na vida das mulheres. É nesse momento em que a gente resgata o saber das parteiras. Elas têm o conhecimento empírico, nós queremos trazer e debater com elas o conhecimento científico." - Deyse

"Mas, antigamente cortava com essas tesouras brutas mesmo, com aqueles cordões que amarravam pão, não tinha esse luxo não.(...) Nós pegávamos de qualquer jeito os meninos. Só tinha que lavar bem as mãos, lavar as mãos com sabão. Lá não existia luva nem nada. Hoje tem que ser tudo com luva." - Severina Biró - parteira do agreste


Edite é uma parteira de engenho.

Nasceu e se criou nessas terras da Zona da Mata onde o engenho de açúcar sempre foi a referência de tudo.

A casa grande, a chaminé a marcar o caminho e a paisagem.

"Cada parto em que eu estou ali, eu lembro logo de mim na gestação da minha mãe, né? E estou ajudando a vida a nascer e promover o nosso país e o nosso Brasil.

Porque tenho amor e carinho pela minha comunidade e pela humanidade inteira." - Edite da Silva - parteira de engenho


"Tanta vontade que eu estava de pegar a comadre aqui. O compadre e como é que ela está?"
"Está bem pesadona." -
Edite e o compadre

 


Segundo o Ministério da Saúde mais de 400 mil partos são feitos fora dos hospitais no Brasil.

E na zona rural a parteira é a grande referência de saúde.

 

— Quantos filhos você tem?
"Tenho 6 e vai nascer outro."

— Quando chega a hora você vai correndo chamar a Edite?
"Vou chamar ela, vou chamar ela, né comadre?"

— Você chega lá dizendo o quê?
"Comadre a mulher tá sofrendo para ter nenê, aí ela, Espera aí compadre que eu vou agora. Ela se apronta e a gente desce."
- João Ambrósio



— Na hora que você chega o que fala?
"Ô, estão de festa? Aqui tem festa hoje, né? Aqui tá alegre, é festa hoje? É festa." - Edite

 


"Elas não têm medo porque elas acreditam que a natureza fez tudo perfeito. Acreditar na natureza é acreditar em Deus. A criança no contexto familiar, ela é Jesus Cristo nascendo, tem essa mesma beleza, essa mesma celebração. não importa se está nascendo no interior do sertão, no interior da floresta."
- Sueli Carvalho

"O parto humanizado... é que nós parteiras tenhamos todo carinho e amor com aquela parturiente e que não deixe ela sozinha. Sempre ajude, tenha calma, tenha capacidade, sempre esteja a seu lado, sempre acarinhando ela, alisando ela, ensinando como é que ela deve fazer." - Edite



— Você vem sempre aqui?
"Quase todos os dias."
— Para quê?
"Para me sentir mais a vontade perto dela."
— Você sente confiança nela?
"Claro. Acho que é a primeira mãe, não é a segunda não. Porque está sempre do lado, se você se sente bem está do lado, se você se sente mal, ela também está do lado." - Zezé e Edjanice Tavares



Na vizinhança da casa do falecido mestre Vitalino, o artista que retratou a vida do povo nordestino, na região do agreste, na periferia de Caruaru, Zezé é mãe de todos.


— O que o senhor estava sentindo?
"Era tontice. Porque eu sofro de labirintite, sabe? De vez em quando ela me ataca um pouco."
— E aí o senhor sente tontura e já corre aqui?
"Corro para aqui. Todo mundo na região aqui, no setor, todo mundo... corre para Zezé." - Manoel Simplício



"O sistema de saúde desses lugares é extremamente precário e as parteiras têm um papel fundamental. De uma certa forma elas cobrem o que o sistema de saúde deveria fazer."
- Deyse



"Aqui funciona como um hospital de emergência. São 24 horas, eu sempre estou aqui."

— Você estudou até que série?
"Fiz até a 4a série, não estudei mais porque meus pais eram pobres." - Zezé



O posto de atendimento funciona na sua própria casa, através de doações ela foi conseguindo aos poucos os materiais que necessitava.

E é aqui que ela faz pequenas cirurgias, e uma média de 40 partos por ano. Sem nunca cobrar nada de ninguém.



— Se você não fosse ter seu filho com ela, onde você teria?
"Olha, é bem difícil de dizer, por que na FUSAM a gente tem muito medo."

— Medo de quê?
"Porque lá, as vezes, não somos bem tratadas como aqui. Aqui pode chegar, ficar à vontade. Lá não, lá se você falar mais alto elas já gritam, falam que na hora de fazer ninguém gritou." - Edjanice


"Chegou pra ganhar, aí ela anda, ela assiste televisão, ela anda no quintal, todo canto, onde ela quiser andar. Quando está na hora eu examino, Está na hora do teu nenê nascer, você escolhe onde quer ficar. (...)

A gente dá massagem nas costas, elas ficam em cima da cama.(...) Eu boto o marido delas pra dar massagem,
Dá a massagem aqui compadre, que eu tô com a mão cansada, aí eles dão massagem e assim a gente passa a noite aqui dentro, como se fosse um filme."
- Zezé




Veja a segunda parte do programa Cais do Parto

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