Frutos Caminhos e Parcerias - Início Quase o Peso de um Pasarinho
segunda parte
Neide Duarte
 



O mar da tranquilidade, o brilho dos planaltos, a secura das crateras, seus mares vazios.

A lua espelha o sertão.

 

Na noite da estrada de terra uma ambulância vai.

Cosme e Damião estão voltando pra casa.

— Como é que eles estão?
"Estão jóia, tão dormindo."
— Não tem luz elétrica na sua casa?
"Não tem não, tem candeeiro."



— Quando você chegou lá, como ele estava?

"Ele estava bem ruinzinho, não tinha nenhum pingo de sangue, estava com feiçãozinha já de morto." - Maria de Lurdes da Conceição - mãe de Cosme e Damião





Maria de Lourdes passou o dia no hospital da cidade de Pão de Açúcar, com Cosme e Damião.

Febre, diarréia, desnutrição aguda.



"Eles completaram 1 mês domingo. Um pesa 3 kg, o outro pesa 2 kg."
— 2kg, com um mês? (...) Quantos filhos a senhora teve?
"Tive 21 filhos com esses dois."
— E quantos morreram?
"Já perdi a conta mulher, tem vivo oito."

— Morreram 13 então.

"É. (...) Morreu um menino com 2 anos, se a senhora visse... era o mesmo que um menino de 1 mês. (...) Eu sei que morreu o José, morreu o João, morreu o Manoel.
O José morreu na minha mão, eu botei a vela na mão dele, pra ele não morrer no escuro."
- Maria de Lurdes da Conceição - mãe de Cosme e Damião



É o mesmo sertão pelos telhados, pelos campos da caatinga, pelas praias do rio São Francisco.

O sertão não muda.

Parece cena de filme antigo, com pouco movimento.


Moisés quer que as coisas mudem de cor.

Céu e rio, areia e barco, homem e menino.

Quando a cor volta ao normal ele não é mais um pintor de paisagens. É apenas um menino do povoado de Maria Pereira, que vai prá balança conferir seu peso.



"Deu 9kg e 800, o mês passado ele tinha pesado 10 kg e 100, ela disse que ele adoeceu."


— Ele tem quantos anos?
"Três anos, deveria ter 12 kg e meio." - Maria da Paz



"Há casos em que a situação é muito crônica. Isso requer programas de pelo menos 2 anos.

Há casos em que a gente atenua o problema, mas não vai resolver definitivamente, porque já provocou sequelas na vida da criança." -
Serguem de Jesus - diretor da Visão Mundial


Passamos no posto de saúde e Rogério estava lá: febre, diarréia, um jeito exausto de estar na vida.

A mãe falava e ele olhava para mim, como quem espera uma boa resposta, que alguém lhe explique, que alguém lhe explique.

"Ó, o bichinho tem hora em casa que ele fala, Mãe me de bolacha. Ele já quer, né? Mãe me de bolacha... Agora eu fico perturbada, tem não, meu filho, que bolacha, tem não meu filho." - Maria Aparecida Nascimento - mãe de Rogério

Pensava em água: água que caía no chão, água que escorria em mim, água que vinha do céu.

E toda a água do mundo nunca chegava pro gosto que eu tinha.


O pessoal da Visão Mundial pesa todas as crianças que tomam a multimistura, uma vez por mês.

A agente de saúde do povoado ajuda no trabalho de conversar e convencer as mães da necessidade da multimistura, para diminuir a desnutrição das crianças.


"Ela toma a multimistura há 8 meses, começou o programa com 8kg e 400, não era Francisca? Então, quer dizer ela já teve um aumento significativo, mas eu não sei por que ela não consegue se desenvolver."
— Ela come a multimistura?
"Ela come bem..."
— A barriga dela? Ela tem vermes?
"Eu acho que tem ela comia terra..." - Maria da Paz
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— Quantos filhos a senhora teve?
"Tive 11."
— E morreu algum?
"Morreram dois."
— Morreram de quê?
"De precisão, de fraqueza, não tinha condições de criar, né? Tinha 1 ano, faz 6 meses."
— Ele pesava quanto?
"2 kg. Nasceu com 2 kg e não passou de 2 kg, não senhora, nunca aumentou." - Josefa


"Aqui, Dona menina morre criança, gente mesmo, mas é de fome." - Josefa


Várzea de Dona Joana. No armazém do povoado um retrato de que a morte também é mercadoria.

O caixão pequeno e branco é artigo de necessidade neste sertão das Alagoas.

 


As vezes o mundo parece estar de ponta cabeça. O céu embaixo, em cima a terra.

Na casa de Diana tudo agora começa a parecer normal.

Denilson já caminha pela sala, tem vontades e alegrias.



Alguns meses atrás, com 1 ano de idade ele pesava 5kg, agora com 1 ano e 5 meses pesa 9 kg e meio.

O único milagre foi comer com regularidade a multimistura, essa farinha rica em proteínas e vitaminas.


"A minha valência foi elas que trouxeram essa massa e eu dei pra ele. Mas se não fosse isso, acho que ele tinha morrido." - Diana Gomes - mãe de Denilson

Eu tentava sentir a febre de Rogério.

Ele foi pra balança fria e chorou, um choro de criança sem proteção.

Tudo era grave. Depois foi para o consultório da médica. Na maca, sozinho, esperneou, depois ficou quieto quando ela apalpava sua barriga.

Eu também tinha minhas vergonha. Ser sempre o da precisão. Sempre no seco das coisas. Sem alívio que chegasse.

E tanta gente passava, vinha dizer, Ah... voz doce de minha mãe. Tudo pra me salvar da fome que eu tinha. Eu sabia.


"Ele está com desnutrição de terceiro grau. Ele pode se complicar ainda mais, porque tem muita massa. Pode acometer o rim, já está com infecção. As infecções no desnutrido grave, por baixa de defesa, podem virar uma septcemia. O que é uma coisa tola, entre aspas, numa criança bem nutrida, nele pode ser fatal." - Alexandra Ludujero - médica



Naquele dia no Posto de Saúde, enquanto Rogério esperava ser atendido, no meio daquela multidão de outras crianças também desnutridas, nós demos uma água de coco para ele.

E esse sertanejo, nordestino, na terra cheia de coqueiros, bebeu água de coco pela primeira vez.

"A criança desnutrida tem um comportamento irritadiço, ele não se sente bem, ele não é alimentado.(...) Um dos parâmetros de recuperação do desnutrido é justamente o sorriso, quando ele sorri, ele está salvo." - Carla - médica

Rogério sorriu muitas vezes.

Nós ficamos cheios de esperança.

Não podíamos esquecer as palavras da médica: quando ele sorri está salvo.



Nesse dia de sol pleno fomos embora do sertão, de São José da Tapera, e essa foi a última vez que eu vi Rogério.

Ouça este trecho


Me criei naquela terra de pouco valor, perto da casa de barro onde eu nasci, e morava tudo nós, meus 8 irmão, mais eu.
Tive brinquedo feito de lata e de sandália de borracha, como todo menino do sertão.
Me criei fraco na leitura.
Me criei calado por jeito de ser.

Ouça este trecho

Esta história está longe do seu fim mas a continuação dela é assim:

Depois de 1 mês Maria José engordou meio quilo e aos 3 anos e meio já consegue ficar em pé sozinha.

Moisés também ganhou meio quilo e ainda gosta de brincar de ver o mundo de outra cor.

Erinaldo ganhou apenas 100 gramas.

Janeide engordou só trezentos gramas, quase o peso de um passarinho.

Damião não passa bem, está com feridas na boca, não consegue comer.

Cosme, seu irmão gêmeo, morreu. A mãe já esperava por isso. Ele foi batizado.

 

Rogério, que aos 8 meses era assim, quase esquelético, vai se recuperando numa brava resistência.

Ganhou mais meio quilo.

Ainda não anda, praticamente não fala, mas continua a saber o quanto vale um copo de água.


Este programa é dedicado a todas as crianças que resistem
e sobrevivem no sertão do Brasil.

 




Ficha Técnica e Discografia



Veja a primeira parte do programa Quase o Peso de um Passarinho

 

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