Frutos Caminhos e Parcerias - Início Desperdício (São Paulo - SP)
primeira parte
Neide Duarte
 


No princípio era o alimento. Farta a mesa, os grãos, tudo o que brota.

A verdura não tem limites. A vida que passa em carrinhos, caixas, caminhões e escorrega, se perde antes de cumprir seu destino: a continuidade da vida.

Nós brasileiros perdemos mais de 12 bilhões de reais por ano com o desperdício de alimentos.

Desperdiçamos na hora do cultivo, na hora da colheita, no transporte, na comercialização. Os supermercados jogam fora 13 milhões de toneladas de alimentos por ano. Nas feiras livres de São Paulo mais de mil toneladas vão para o lixo todos os dias. Um quarto de toda produção nacional de frutas, verduras e legumes não são aproveitados.

Todo esse desperdício daria para alimentar mais de 30 milhões de pessoas durante um ano.

Quase o suficiente para acabar com a fome no Brasil: mais de 32 milhões de brasileiros vivem em situação de miséria, sem uma alimentação adequada.




Betinho pensava nisso, lutava por isso: que o desperdício encontrasse a fome que nos cerca.

E ele retratado em grãos foi o alimento, a inspiração.



"A idéia surgiu com o Betinho, o saudoso Betinho em 92, 93. Quando ele começou a lançar para o país a preocupação com a fome e o desperdício. Aos poucos nós fomos aprendendo as dificuldades de um programa como este, buscando as soluções numa cidade complexa como a nossa. Hoje nós temos 89 empresas com 156 instituições participando com quase 26 mil pessoas atendidas nessas instituições."
- Efre Antonio Rizzo - Gerente do SESC Carmo

Na madrugada azul vai começar a colheita.

O alimento não está nos campos, longe de toda a cidade, esta é uma colheita urbana, diretamente dos comerciantes para as mesas de São Paulo.

 

O projeto criado pelo SESC há 3 anos faz uma ponte entre a fome e o desperdício. O Mesa SP recolhe alimentos que antes eram jogados fora e os distribui em instituições que abrigam pessoas carentes.



São muitas gemas para tantos quindins.

Claras demais que não cabem num doce tão amarelo.

 

"A gente tem aqui, numa produção diária, um desperdício de mais ou menos 30 quilos de clara por dia."

— Vocês jogavam fora?
"A gente jogava fora, e aí eu soube do Mesa SP. A gente começou imediatamente a entrar em contato com eles, que foram super rápidos também, eficientes e a gente tá desde maio entregando mais ou menos 30 quilos de clara por dia, todos os dias." - Cristina Leite - proprietária Casa do Pão de Queijo


Newton de Jesus e Rodrigo Toldo todos os dias rodam mais de 100 km levando 2 toneladas de alimentos. Recolhem aqui, entregam ali.

A colheita do pão já foi feita. Hora da abobrinha.



Todos os dias eles recolhem nesta indústria 250 kg de miolos e pontas das abobrinhas.

— Antes disso o que acontecia com a abobrinha?

"Essa ponta da abobrinha, o miolo que é gerado do ítem que a gente tem no cardápio, ele era descartado, ia pro lixo. E eu acredito que em muitos lugares ainda aconteça esse tipo de coisa."
- Mauro Saraiva - diretor Habib’s

 

Saúde passa o dia enrolando as folhas de repolho. Todos têm de ter o mesmo tamanho, por isso são descartados 250 kg de repolho por dia.

Como ele já está cozido, seria necessário um consumo imediato. Quem faria essa distribuição? Por enquanto ninguém. Assim a cada mês 5 mil quilos de repolho vão para o lixo.

"Só o desperdício que é gerado no Ceagesp, o desperdício que é gerado em cozinhas industriais como essa e nas indústrias de alimento, eu creio que daria para acabar com a fome do país, com certeza. Precisa existir por trás uma estrutura que dê condições pra isso ser aproveitado, é só isso que está faltando. Por que comida tem, comida não falta." - Mauro Saraiva - diretor Habib’s

 

"Então nós vamos fazer o bolo de casca de banana. Para esse bolo nós vamos precisar: 2 xícaras de casca de banana picadinha, meia xícara de água(...)

Depois eu vou precisar de 100g de margarina, 4 gemas, 2 xícaras e meia de açúcar..."
- Ana Maria


Receita - Bolo de Casca de Banana

2 xícaras de casca de banana
1/2 xícara de água
100g de margarina
4 gemas
2 xícaras e meia de açúcar
3 xícaras de farinha de trigo
4 claras em neve
2 colheres de sopa de fermento em pó
1 colher de sopa de canela em pó


As bananas são para as tortas, as cascas são para os bolos.

Quanto vocês produzem de casca de banana por semana?
"São 4 toneladas, aproximadamente, por semana. (...) Nós doamos apenas cerca de 300 quilos para o Mesa SP."

— E o que vocês fazem com as 3 toneladas e meia que sobra?
"Infelizmente nós jogamos no lixo, não conseguimos nenhuma outra instituição pra poder fazer a doação." - Gabriela Peixoto da Silva - engenheira de alimentos



E no que o alimento tem de sagrado acontece a multiplicação.

"Eu ajudo uma parte, que são uma média de 200, 250 por mês, só que essas pessoas estão ajudando outras e essas outras, mais outras.

Então quer dizer, a gente está ajudando muita gente a não passar fome e a não jogar as coisas fora também."
- Ana Maria D’Angelo


O Turista Hotel já acendeu suas luzes. Noite de história em quadrinhos, de um natal antigo, de luzes desfocadas, meio sujas no seu brilho.

Tudo parece falso: meia realidade, meio nascimento. Um pouco da tua casa, um pouco do teu prato, uma saudade sem importância.

"Vai passar na TV? Então deixa eu falar assim: mãe, não se preocupe comigo, eu estou bem aqui dentro do albergue."

É Vida o nome do Albergue, nos baixos de um viaduto do Brás. Este é um dos lugares aonde vieram: as abobrinhas, as claras de ovos, as cascas de bananas.


Quem são as crianças que vêm pra cá?
"Elas são crianças e adolescentes de rua, em situação de rua, na faixa etária de 0 a 17 anos. Evadidos da casa, da escola, em fim fora do convívio da sociedade que nós chamamos de normal." - Geni Cordeiro dos Santos - Assistente social do Albergue Vida Centro Comunitário da criança e adolescente

Uma luz forte insiste e se derrama, um menino e sua sombra, e as janelas que não param, que não param, que não param.

Quantos anos você tem?
"Eu tenho 13."
—Por que você está aqui?
"Porque eu fugi de casa."

— Quantos anos você tem?
"Tenho 11."
— Por que você está na rua?
"Porque eu não queria ficar na minha casa, meu pai me batia."

O que você fica fazendo na rua o dia inteiro?
"Quer que eu fale mesmo? O que nós faz? Fuma maconha, fuma cigarro... "

"Eu não fumo cigarro!"
"Não, você não, você só fuma maconha. Cheiramos cola..."

"Basicamente o que nós recebemos hoje em sentido de legumes, verduras é advindo do Mesa SP. Então, creio muito na questão da solidariedade. Eu acredito que é a partir daí, da solidariedade que a gente vai conseguir resgatar de fato alguns valores que são essenciais no nosso mundo de hoje, sobretudo a dimensão da humanidade."


O que é o futuro?
"Eu não sei, né?"

O que você quer ser?
"Trabalhador. Ser um trabalhador de vídeo."



Quem vai para o trabalho segue seu caminho de dobrar esquinas. O ônibus marca nosso destino. Todas as paradas.

As sombras ocuparão as paredes, as janelas, nossas praças, o menino que dormiu na calçada.

Quando o dia começa a mostrar suas sombras os meninos do Albergue voltam pra rua. Pleno sol. Ocupam as calçadas, as escadarias, claramente, acreditando que é assim.



Veja a segunda parte do programa sobre Desperdício (São Paulo - SP)

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