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primeira parte
Neide Duarte
 


Esta era a marca do ouro. A pedra grande mostrava o caminho. Era ela que os bandeirantes paulistas procuravam nas suas entradas pelo sertão de Minas.

Encontrar o Itacolomi era o sinal: o ouro preto estava por perto.

 

Escuras minas de escondido brilho.
A luz das pedras guia nossos passos.
Caminho da recuperação.

Nem tudo está perdido, o ouro de agora é só aparência, mas as pedras ainda brilham na areia.



Mariana, primeira capital das Minas Gerais tenta recuperar suas forças.

A casa do poeta Cláudio Manoel da Costa, um dos poetas inconfidentes, está caindo. Marimbondos fizeram sua casa no portal da Catedral.


A estalagem onde os inconfidentes se reuniam há mais de 200 anos sofre, se abala com o tempo que passa.



A igreja do Carmo de 214 anos, pegou fogo, perdeu os altares, a pintura do teto, o portal de entrada e agora espera salvação.


Pela rua Direita, pelas casas, pelas portas, pelas varandas de pedra sabão, tudo pede reparo, tudo pede cuidados.

Recuperar o ouro de Mariana.
Recuperar antes os meninos de Mariana.


"Eu sonho ser uma grande restauradora um dia. Ser uma pessoa muito falada, 'Conhece a Cléia? Ah! Ela é restauradora, ela restaurou isso, aquilo...' Pretendo ser uma pessoa bem falada, porque as pessoas falavam muito mal de mim.(...) Quando eu entrei no curso eles falavam pro Júlio: 'Não deixa essa menina entrar não, que essa menina rouba, já foi presa, usou droga, não deixa ela entrar'. Eu quero mostrar pra eles que eu tenho a possibilidade de ser uma pessoa, uma grande pessoa"
- Cléia de Souza - aluna do Oficina Escola

O tempo na janela. A praça principal foi cemitério no século 18. Os meninos de Mariana tomam conta dos carros como em qualquer praça do Brasil.

— Como você foi para no Oficina Escola?
"Por causa de uns colegas meus.(...) Eu ficava muito na rua. Aí me chamaram pra conversar com a irmã Cida, eu fui lá e comecei a trabalhar."
— Mas, o que você quer ser?
"Pedreiro." - Maico da Silva - aluno do Oficina Escola



Bater a pá com delicadeza.
Encaixar as pedras no lugar certo.
Maico aprende.


A face oculta de Cristo, atribuída a Aleijadinho, o portal de entrada da Catedral.

Reconhecer o ouro de Mariana.
Cléia aprende.


Assim é o Oficina Escola, um lugar de ofícios, herança do velho Liceu de Artes e Ofícios que existia em Vila Rica no século 18.

Formar restauradores, desenhistas, escultores, mestres de obra. Reviver o tempo em que Aleijadinho criava o barroco brasileiro e Vila Rica era o maior centro do Brasil em arte, literatura e política.



O projeto Oficina Escola é uma iniciativa da prefeitura de Ouro Preto em parceria com a igreja católica e o SESI, Serviço Social da Indústria, que dá certificados dos cursos.

 

"A gente começou com umas 20 pessoas, uns 20 meninos. Daí chegaram os meninos trazidos pelo padre Alec, que estavam à tutela do Conselho Tutelar, que eram viciados em droga. E aí ficou interessante, por que era esse o público que a gente queria trabalhar." - Júlio Barros - Coordenador do Oficina Escola

"Eu estava tendo muitos problemas, problemas em casa, as más companhias, drogas." - Rosângela Cristina

"Antes eu ficava cheirando cola pela cidade, fazia bagunça, de vez em quando roubava coisas que não eram minhas." - Geraldo Ferreira


"Eu fazia tráfico e também roubava. Um dia eu fui roubar na rua e os policiais me cataram e me levaram para o Conselho Tutelar. Fui parar até na cadeia."
- Paulo Cota

"Eu bebia muito. Eu comecei a beber com 10, 11 anos. Eu bebia de segunda a segunda. Todo dia eu bebia." - Viviam Montebeller


"Eu roubava para ter dinheiro."
— O que você fazia com o dinheiro?
"Comprava droga." - Paulo Cota

 


O tempo passa barroco.

Tudo é demais, tudo é excessivo, um sol tardio entre montanhas que conservam, seguram, contêm.

A paisagem não facilita a comunicação.
As montanhas limitam, impõe barreiras, isolam.


"Eu não falo com meu pai. Desde uma vez que ele me bateu a toa, me machucou muito... não conversei mais com ele."
— Faz quanto tempo que você não fala com seu pai?
"Uns dois anos." - Rosângela Cristina

"Eu morava em Ouro Preto sozinho. Eu e meu irmão gêmeo, com 14 anos."
— Por que vocês não moravam com a sua mãe?
"Porque ela veio pra cá,conheceu um cara e ficou com o cara." - Paulo Cota

"Aí, ficou eu e o meu pai bebendo.

Ele comprava pinga, porque ele é viciado em bebida alcoólica, então ele comprava litros. Deixava lá e eu bebia." - Viviam Montebeller


"Meu pai e minha mãe trabalhavam em carvoaria na roça, eles sempre brigavam. Um dia minha mãe resolveu sair de casa e colocou veneno para o meu pai. Eu e meu irmão sabíamos do veneno, então na hora que ele chegou do serviço nós avisamos. Ela ficou chateada por nós termos avisado, então ela pegou as irmãs mais velhas e saiu de casa com elas, deixando os mais novos. Eu devia ter no mínimo uns 6, 7 anos de idade." - Geraldo Ferreira

 

Rolar pedras entre montanhas. O ofício da cantaria.

Aprender restauro, um pouco marceneiro, um pouco pedreiro. Construir, conservar, recuperar.

Esses são os verbos no Oficina Escola.



"Eles estão num país que pode ficar sem memória. Um país que caminha largamente a perder a memória. Se tratam o jovem assim, imagine o nosso patrimônio cultural! E é um país que se deslumbrou com a tecnologia e esqueceu dos ofícios e precisamos desse trabalho feito com as mãos.(...)
Eles têm curiosidade, pela curiosidade você leva à história. A história é importante, porque eles começam a entender da política, da sociedade." - Júlio Barros - coordenador do Oficina Escola

A neblina é densa como uma coberta, as casa são pequenas para não chamar a atenção.

Lavras Novas.

Antigo quilombo de escravos fugitivos, lugar ideal para se esconder dos brancos ricos de Ouro Preto, distante 50Km do povoado.

— Você nasceu aqui?
"Nasci."
— E o seu pai?
"Também."
— E o seu avô?
"Também."
— E o seu bisavô?
"Nasceu aqui também." - Ednílson Lessa - Instrutor do Oficina Escola

Ednílson, junto com Adão e Cabeludo são os mestres da obra da igreja de Nossa Senhora dos Prazeres.Igreja dos negros.

No lugar do anjo barroco, a proteção de outro ser: um pouco sereia, um pouco Iemanjá.


"Tem um ano que eu faço curso na Oficina Escola, na parte de alvenaria. Essa é a primeira obra que eu estou pegando como instrutor.(...)

Aqui nós chegamos a fazer essa pintura e o passeio do lado.agora vamos pintar por dentro, mexer com parte de dentro."
- Adão de Oliveira - instrutor do Oficina Escola


Uma congada se ajeita e se levanta. Um conto de escravos. Um ponto tão negro. E a Minas Gerais africana sai e se conserva.

Virgem Santa do Rosário. Viva Maria no céu com seu terço na mão, contemplando o mistério.



"Aí, o Chico Rei fêi essa língua, ele falava tudu atrapaiado, purque os iscravo, num tem um qui ocê intendi a língua deles."


— Como é que o Sr. que é branco aprendeu a essa dança e essa língua dos negros?
"Eu não sou branco! Eu sou negro! Eu sou sangue de negro. Não adianta, eu sou amarelo assim, mas não sou branco, eu sou sangue de negro mesmo. Eu sou do sangue dos escravos."

— Quem era negro na sua família?
"Meu bisavô era negro escravo." - Antônio de Paiva Seo Carbonato - Chefe da Congada

Orgulho de tanta memória. Das senzalas e de cantos, de ferros e de vozes, de santos e de minas.

Do negro mais distante, do Brasil mais esquecido.

Orgulho de ser negro por herança.






"Caminhemos, caminhemos lá na pia de Belém. A visitar menino Deus e Santa Maria também."
- Maria do Carmo - lavadora





— O que mudou no comportamento deles, desde que vieram pra cá?
"Primeiro, eles te olham no olho e conversam com você, contam as coisas, conversam com dignidade. Eles não têm vergonha do que aconteceu com eles. A gente fala pra eles que a história da vida deles é a história da vida deles e é dura, então eles têm que ser fortes." - Júlio Barros - Coordenador do Oficina Escola

— Você nunca mais viu sua mãe?
"Eu vi, sempre vejo ela."
— Você nunca falou pra ela o que você sentiu quando ela foi embora?
"Não, nunca parei pra falar, falta coragem. A gente chegar perto de uma mãe e cobrar uma coisa dessa, tem que ter muita coragem." - Geraldo Ferreira

"Eu acho que foi uma perda de tempo, perdi bebendo, fazendo coisas que não têm significado para mim." - Viviam Montebeller

"É uma passagem, todo mundo tem uma passagem." - Rosângela Cristina

"É tipo um deserto. Você planta e aos 18 anos, vira um deserto. Aquilo que você plantou você colhe." - Paulo Cota



Veja a segunda parte do programa sobre Oficina Escola (Ouro Preto - MG)

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