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segunda parte
Neide Duarte
 



O vento nordeste, o vento da seca assombra a caatinga. Galhos secos dividem o céu, impõe seus limites.

A caatinga afoga, incomoda, confunde. Em tudo a morte. Cenário de guerra. Canudos que se acaba. Antonio Conselheiro que já não respira.

Canudos acabou três vezes, acabamento de morte, mas resiste até hoje.

Na primeira vez Canudos acabou pelo fogo. Guerra de Canudos. Depois de muita luta, o exército consegue destruir a vila, os casebres se derretem no fogo, muitos são degolados.

"Em 1897 haverá muitos chapéus e poucas cabeças ." - assim falava o Conselheiro.



"Aqui nós vamos descendo pra baixa da degola, era onde ficava a baixa da matadeira.

Aqui é o vale da degola. Foi onde o pessoal se escondia e o pessoal cercava para vir para a matadeira, todos pra morrer na degola." - Olímpio Santos - Guarda das ruínas de Canudos

 

Na segunda vez Canudos acabou pela água: Canudos já não era cidade, virou açude.

"Há de rebanhos mil correr da praia para o sertão, então o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão(...)" - assim falava o Conselheiro.


— Tudo isso era açude?
"Tudo era açude. A água ia até mais ou menos 20 metros."

— 20 metros?
"20 metros pra cima da onde a gente tá de água."

— E ficou seco desse jeito?
"Ficou seco, ninguém nunca esperou de ver a gente pisar aqui no chão." - Olímpio

Na terceira vez Canudos acabou pelo vento: tiraram o seu nome, e o deram para outra cidade.

"Adeus povo, adeus aves, adeus árvores, adeus campos. Aceitai a minha despedida que bem demonstra as gratas recordações que levo de vós, que jamais se apagarão da lembrança deste peregrino" - assim falava o Conselheiro.

Nada conseguiu fazer Canudos sumir do mapa, a outra cidade virou Canudos Novo e esta, a de sempre, Canudos Velho.
E o lugar de Antonio Conselheiro, depois da seca, do fim do açude, reapareceu vivente, em ruínas. Parecido com a morte, mas vivo como a caatinga, como o sertanejo, como o sertão.


"O povo diz que o Conselheiro morreu não foi? Mas ele não morreu não."

— O Conselheiro não morreu?
"Já vieram cavar por aí, caçando os ossos dele, é trabalho perdido, porque não acha."

— Quer dizer que o sr acha que o Conselheiro está vivo até hoje por esse sertão?
"Mais ou menos... só pode estar. Só pode estar. Olha, eu tô pensando: ele tá vivo e está invocando, ele anda aqui no meio de nós." - Henrique Galdino - 84 anos - Morador de Canudos Velho

Canudos não tem fim, resiste por todo lado: quixabeira, macambira, gravatá, canudo de pito, catingueira.

Nova Palmares. Fazenda dos sem terra. Retirolândia.

Aqui vivem 118 famílias, às custas do sisal.

 

— Tem muitas crianças que trabalham no sisal aqui com vocês?
"Aqui não tem muito por causa da bolsa escola. Mas ainda tem criança fora da bolsa escola, tem muitas crianças fora da bolsa escola."

— Eles trabalham?
"Não trabalham também porque a gente incentiva. Passa um pouco mais de dificuldade, mas também elas não desgastam o desenvolvimento delas. " - João Nilton Santana - Secretário do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e morador de Nova Palmares


O lugar onde os sem terra estão instalados era uma antiga fazenda de sisal. Esta era uma das casas dos colonos.

Neste galpão funcionava a batedeira, esse maquinário que prensa o sisal e faz os fardos. Hoje tudo é escola.


"A gente vê que não é só necessário matricular as crianças na escola e sim promover que as famílias tenham renda permanente, para que possam não só matricular as crianças na escola, como também, que elas possam se manter na escola, frequentando a escola e tendo um bom aproveitamento no ensino." - Orlando de Melo - Agrônomo MOC


"Quero que eles estudem para na frente ter um futuro melhor, porque hoje acho que o filho do pobre só pode ter um futuro melhor se ele estiver estudando. Para mais tarde ele ser uma pessoa melhor. Porque para os ganhos daqui mesmo, ninguém nunca tem nada."

— Você não quer que seus filhos trabalhem enquanto são crianças?

"Não. Espero que não trabalhem. Quero que Deus ajude que eles consigam o estudo deles. O que eu puder fazer pra eles estudarem eu faço." - Maria da Glória Evangelista

 



"Companheiros preste atenção no que agora vou falar, é sobre criação de cabras que eu quero comentar, é preciso muita escuta pra poder se comparar. A cabra é um animal abençoado por Jesus, aquele que cria cabra diminui a sua cruz." - Orlando

O agrônomo Orlando até literatura de cordel fez para entusiasmar os produtores na criação de cabras. O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Retirolândia com ajuda da Organização Internacional do Trabalho e do Movimento de Organização Comunitária criaram um projeto piloto chamado Bode escola.

A família recebia 3 cabras e 1 bode com a condição de mandar o filho para a escola. Para a fazenda dos sem terra o sindicato doou 160 cabras, hoje eles já têm 1.400.

"As cabras são uma coisa muito importante porque uma criança no motor do sisal ganha a média de 2,50... 3 reais por semana. Três cabras dão 2 litros de leite, 3 litros são seis reais por dia. Então o que 3 cabras dão por dia a criança não ganha numa semana." - Noé Carneiro - Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Retirolândia


"O que está ajudando é o que a gente cria. Porque a gente cria uma galinha, a galinha bota um ovo, a gente aproveita. A gente cria uma cabrazinha, de vez em quando vende um bodinho, faz um dinheirinho pra comprar uma roupa, um calçado, mas com o dinheiro do sisal só não dá pra fazer isso. - Francisco

E a bolsa escola também, que foi muito bom vir aqui pra região. Espero que vá prá frente mais e mais anos." - Maria da Glória

— E as cabras estão indo bem?
"Tá bem. Minhas cabras tá bem. As minhas cabras são mais ou menos umas 15 cabeças, umas 2 eu comprei com o dinheiro dos meninos, da bolsa escola." - Francisco


Os sem terra vivem com dificuldades, mas estão no caminho de realizar o sonho de no futuro, montar um laticínio para vender leite e queijo de cabra.

Nem todos tem a terra que queriam. Povoado de Gameleira. O céu é de nuvens macias e não está ao nosso alcance, a terra é de duras medidas e espera um tratamento.
Maria Ita sempre soube, viveria da pedra aquela que tem pedra no nome. O marido Elisvândio segue o seu destino de quebrar durezas e leva pelo mesmo caminho os filhos: Verônica e Eslai.

As pedras das crianças são pequenas, pequeno o barulho que se quebra, pequeno o silêncio que se parte.


— Que horas você acorda?
"Madrugada, tá escuro ainda."

— Que horas você vem prá cá quebrar brita?
"Uma hora." - Verônica

— Vocês vêm juntos?
"Vem."

— Uma hora da tarde?
"Sim, até 6 horas." - Eslai


— Por que o sr traz seus filhos pra lhe ajudar?
"Eu trago porque pelo menos o que eles ganham, compra roupas pra eles, já ajuda."

— Quanto é que o sr paga pra eles?
"Tem mês que eles ganham 5 reais."

— Os seus filhos?
"Sim. 5 reais pra cada um." - Elisvândio Santos

 

— Quando você fica quebrando a brita o que você fica pensando, o que você gostaria de estar fazendo?
"Brincar de jipinho. Só tenho um jipe só."

— Aonde você vai com seu jipinho?
"No terreno em volta, ele não vira curva não."

— E você, Verônica do que você gosta de brincar?
"De boneca."
"Mas ela não tem boneca. Só tem a boneca que Sidna ganhou na creche."

— Você não tem boneca?
"Não."

— Que brinquedo você tem?
"Nada. Não tenho nada."

— Deixa ver sua mãozinha. Não machuca a mão trabalhar com isso?
"Não, só faz calo. Aqui, aqui outro e aqui."


"Mas a minha vontade era pagar um estudo pra eles. A menina mesmo, é muito interessante, ela deseja ser uma cantora evangélica da igreja. O menino sempre atrasadozinho, mas fala sempre em coisas altas, que a gente não sonha. O desejo do pai era colocar os filhos numa boa estatura, mas eu não posso." - Elisvândio

Amanhã Verônica e Eslai acordarão cedo para ir pra escola. Durante a tarde dividirão a mesma secura, o que não se transforma, não cresce, só se quebra. Depois passarão na bicicleta do pai e chegarão contentes, como se voltassem de um passeio de domingo.

   



Ficha Técnica e Discografia



Veja a primeira parte do programa Trabalho Infantil

 

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