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primeira parte
Neide Duarte
 


O sisal está secando nos campos.
Os bois estão secando nos campos.
As aguadas estão secando nos campos.
Um urubu rei espera.

 

Sertão da Bahia. Retirolândia, Rodovia do Sisal. Remendos de asfalto brilham no sol.

As flechas atravessam o céu, flor do sisal, quando ela nasce anuncia a morte da planta. Esta é a sua última beleza.

 


— O que você faz aqui?
"Corto palha."

— É perigoso esse trabalho que você faz?
"É. Pode furar o olho."

— E quanto é que você ganha pra fazer isso?
"Um real por semana."

— Você ganha um real por semana? E você trabalha aqui a tarde toda?
"É." - Patrícia - 7 anos


A Bahia é o maior produtor de sisal do Brasil.

Para dar conta de atender os pedidos da Europa, que compra nossos tapetes de sisal, mais de 30 mil crianças de 7 a 14 anos trabalham na colheita da planta.



— Adilma, o que é que você faz aqui?
"Trabalho no motor."

— Você gosta de carregar palha?
"Gosto."

— Você vem aqui ajudar sua mãe e vai na escola?
"Vou." - Adilma - 8 anos

 

"Mas é muito perigoso esse trabalho. A gente bota os meninos pra trabalhar porque a gente tem que colocar, porque a gente sozinha trabalhando não pode. Precisa de um chinelo não tem. Essa daqui precisa de um chinelo... Não comprei hoje porque o dinheiro não dava. Mas espero Deus que sábado, se eu ganhar dois reais eu compro o chinelo dela." - Tonhiza Bispo - mãe de Adilma

 

Quem corta a palha são as mulheres com a ajuda dos filhos.

Em um dia inteiro de trabalho uma mulher consegue cortar todas essas folhas.

E ganha com isso exatamente um real.




Normalmente uma mãe com 2 filhos consegue cortar quase 1000kg de folhas por semana e assim, todos juntos ganham 10, 12 reais por semana.


— Luzia, por que seus filhos trabalham aqui com você?
"Pra me ajudar a comprar o que eles querem, porque eu sozinha não dá. Eles ajudam a trabalhar, sempre que eles vêem os outros amiguinhos com brinquedinho, eles falam: 'Mãinha, eu quero esse brinquedo. Mãinha, compra um brinquedinho pra mim.' Eu não tenho como comprar, porque o que a gente ganha só dá pra comprar comida." - Luzia de Jesus - mãe de Flávia


— Onde você gosta mais de ir, na escola ou aqui?
"Na escola. Porque na escola aprende ler e escrever."

— E aqui?
"Aqui só faz se furar e cortar palha pra ganhar dinheiro."

— E o que você faz com esse dinheiro?
"Compro coisa pra botar dentro de casa, comida , brinquedo..."

— Dá pra comprar brinquedo? Que brinquedo que voce comprou?
"Boneca, urso e casinha." - Flávia - 8 anos


A vida de Flávia dificilmente vai mudar. Existem alguns projetos na região para diminuir o número de crianças que trabalham.

O principal deles é a Bolsa Escola, um programa do Ministério da Previdência e Assistência Social, com apoio técnico e financeiro dos governos estaduais e da UNICEF.

 

Cada criança recebe 25 reais por mês com a condição de frequentar a escola em tempo integral.

Esse programa atende 150 mil crianças em todo Brasil. Na Bahia, na região do sisal, onde trabalhavam 60 mil crianças a bolsa atingiu a metade: 30 mil.


"Ela tem uma limitação. Essa limitação é dada pelo volume de recursos que cabe a cada estado. Então no caso da Bahia por exemplo, nós temos hoje na região do sisal, agora nesse momento, 30 mil crianças atendidas. Ele não pode ir além dessas 30 mil porque há um limite de recurso." - Frederico de Souza - Pres. da Comissão de Erradicação do Trabalho Infantil - Bahia


— Você já trabalhou em quê?

"Motor. Agora não trabalho mais, porque eu tenho vale e eu posso receber o dinheiro do vale, não quero mais trabalhar. Só estudar, brincar de bola, fazer um bocado de coisa no vale." - Djalma, 12 anos



"Como aqui não tem água, a gente pega água.

Tem que pegar água para ajudar a zeladora, ou seja a cozinheira pega água lá, trazer pra cá, pra ela fazer o almoço."

 

 

 

A escola é um retrato do sertão. Não tem luz, não tem água, mas é antes de tudo um Forte, um lugar de resistência. A escola aqui é libertação.


— Sua filha está na escola?

"Depois da bolsa escola que chegou, ela foi pra escola. Antes não ia. Ela ia para o motor. Ela chorava para ir pra escola, mas não tinha como dar, tinha muita dificuldade. Aí, depois que chegou a bolsa escola eu botei ela na escola." - Maria Josélia dos Santos


— Quando voce ficava lá com a sua mãe no sisal, você queria ir pra escola?
"Queria. Eu dizia que eu queria ir pra escola."

E o que ela te respondia?
"Ela dizia que não, que eu ia olhar uma menina."

— E o que você sonhava que era a escola?
"Muitas coisas boas." - Tainara

 

— E o seu menino? Ele trabalha na roça?
"Trabalha na roça."

— Desde que idade?
"Desde 3 anos, ele trabalha na roça mesmo."

— E ele vai à escola?
"Tem vezes que ele vai."

— Você não faz força para ele ir pra escola?

"Tem hora que eu mando ele ir pra escola, mas tem hora que ele ajuda o pai a dar uma trabalhadinha aqui na roça. Adianta mais o trabalho..." - Maria Josélia dos Santos

 

"A família não levaria a criança para o trabalho se não houvesse essa necessidade, evidentemente. Mas há também uma justificativa de que a criança trabalhe
por parte da maior parte das famílias, como fator cultural. Essa parcela da sociedade de certa maneira legitima o trabalho infantil, enxerga o trabalho infantil não como um problema e sim como uma solução." - Frederico de Souza


— Você trabalhou no sisal?
"Trabalhei desde os 8 anos."

— E você não ia na escola?
"Não. Só trabalhava, das 5 da manhã até 5 da tarde."

— E você não sabia escrever nessa época?
"Não."

— Com que idade voce foi aprender a escrever?
"Com 11 anos, depois também que veio a bolsa escola. Porque a gente passou de ano na escola agora." - Josiane - 14 anos


— Por que é que tem tanta mosca aqui seu Hermes?

"Ave Maria, aqui não tem não, mosca tem aí dentro de casa. Aqui no sertão da gente é assim. Só dá é mosca." - Hermes Cerqueira

 

Seu Hermes é pai de Josiane e de mais 6 filhos, é um pequeno produtor de sisal.


— De toda essa plantação, quanto o senhor tira por ano em quilos?
"Tira 2 mil, 3 mil..."

— E quanto é que o sr ganha com isso?
"Dá, se tiver como está agora, dá pra gente fazer uns 280 reais por ano." - Hermes


— Só tem isso de água na cisterna?
"Só tem isso aí."

— Essa água é de onde?
"Foi da chuva. Quando não é água de chuva a gente paga e o carro bota."

— E o sr paga quanto?
"30 reais."

— E como é que o sr consegue esse dinheiro?
"Tem aí a bolsa escola, às vezes quando a mulher recebe, pega que tira aqueles 30 reais e compra. Paga o carro de água." - Hermes


A vida no sertão é feita de muitas reservas e muitos anuviamentos.


— O sr sabe escrever?
"Não, senhora."

— E a sua mulher, sabe?
"Não."

— Mas o sr gostaria de aprender?
"Quem é que não gosta de aprender? Ave Maria, uma pessoa que não sabe ler é uma pessoa quase apagada no mundo." - Hermes


"Eu sou uma pessoa muito feliz neste mundo e eu queria ser mais ainda. Eu sou uma pessoa muito boa e eu gosto de ajudar as pessoas. A gente para ser alguma coisa neste mundo, precisamos estudar muito."

— Você que escreveu?
"Foi eu que escrevi." - Josiane


Na escritura está a salvação. Na leitura também. Os meninos do sertão sabem disso e se apertam pra caber onde não cabem.


— É longe o colégio?
"É em Coeté."

— E vocês vão sempre nesse carro?
"Sempre, cabe 18 , 15... são 17 pessoas aí dentro. Tem 17."

O décimo oitavo se atrasou um pouco. Nada que o querer não alcance. E no carro movido a gás lá foram os 18 a caminho da escola, num espaço feito pra cinco.

  

Adilma também se esforça para estudar, para enxergar o que está escrito na lousa, na penumbra da sala de aula.

E o nome de Flávia sai desenhado, vaidosas sílabas, numa manhã de unhas pintadas.

Depois do almoço Adilma e Flávia não serão mais as alunas, as meninas da escola que escrevem e apagam o que não querem que exista.

Durante a tarde elas serão as que dividem o mesmo corte. As que trabalham e modificam a terra.

No começo da noite suas mães passarão cantando aquelas canções.
E elas irão na frente, como se voltassem de um passeio de domingo.


 



Veja a segunda parte do programa Trabalho Infantil

 

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