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A escola é
um retrato do sertão. Não tem luz, não tem água,
mas é antes de tudo um Forte, um lugar de resistência. A
escola aqui é libertação.
Sua filha está na escola?
"Depois da bolsa escola que chegou, ela foi pra escola. Antes não
ia. Ela ia para o motor. Ela chorava para ir pra escola, mas não
tinha como dar, tinha muita dificuldade. Aí, depois que chegou
a bolsa escola eu botei ela na escola." - Maria Josélia
dos Santos
Quando voce ficava lá com a sua mãe no sisal, você
queria ir pra escola?
"Queria. Eu dizia que eu queria ir pra escola."
E o
que ela te respondia?
"Ela dizia que não, que eu ia olhar uma menina."
E o que você sonhava que era a escola?
"Muitas coisas boas." - Tainara
E o seu menino?
Ele trabalha na roça?
"Trabalha na roça."
Desde que idade?
"Desde 3 anos, ele trabalha na roça mesmo."
E ele vai à escola?
"Tem vezes que ele vai."
Você
não faz força para ele ir pra escola?
"Tem hora que eu mando ele ir pra escola, mas tem hora que ele ajuda
o pai a dar uma trabalhadinha aqui na roça. Adianta mais o trabalho..."
- Maria Josélia dos Santos
"A família
não levaria a criança para o trabalho se não houvesse
essa necessidade, evidentemente. Mas há também uma justificativa
de que a criança trabalhe
por parte da maior parte das famílias, como fator cultural. Essa
parcela da sociedade de certa maneira legitima o trabalho infantil, enxerga
o trabalho infantil não como um problema e sim como uma solução."
- Frederico de Souza
Você trabalhou no sisal?
"Trabalhei
desde os 8 anos."
E você não ia na escola?
"Não. Só trabalhava, das 5 da manhã até
5 da tarde."
E você não sabia escrever nessa época?
"Não."
Com que idade voce foi aprender a escrever?
"Com 11 anos, depois também que veio a bolsa escola. Porque
a gente passou de ano na escola agora." - Josiane - 14 anos
Por que é que tem tanta mosca aqui seu Hermes?
"Ave Maria, aqui não tem não, mosca tem aí dentro
de casa. Aqui no sertão da gente é assim. Só dá
é mosca." - Hermes Cerqueira
Seu Hermes é
pai de Josiane e de mais 6 filhos, é um pequeno produtor de sisal.
De toda essa plantação, quanto o senhor tira por
ano em quilos?
"Tira 2 mil, 3 mil..."
E quanto é que o sr ganha com isso?
"Dá, se tiver como está agora, dá pra gente
fazer uns 280 reais por ano." - Hermes
Só tem isso de água na cisterna?
"Só tem isso aí."
Essa água é de onde?
"Foi da chuva. Quando não é água de chuva
a gente paga e o carro bota."
E o sr paga quanto?
"30 reais."
E como
é que o sr consegue esse dinheiro?
"Tem aí a bolsa escola, às vezes quando a mulher
recebe, pega que tira aqueles 30 reais e compra. Paga o carro de água."
- Hermes
A vida no sertão é feita de muitas reservas e muitos anuviamentos.
O sr sabe escrever?
"Não, senhora."
E a sua mulher, sabe?
"Não."
Mas o sr gostaria de aprender?
"Quem é que não gosta de aprender? Ave Maria, uma
pessoa que não sabe ler é uma pessoa quase apagada no mundo."
- Hermes
"Eu
sou uma pessoa muito feliz neste mundo e eu queria ser mais ainda. Eu
sou uma pessoa muito boa e eu gosto de ajudar as pessoas. A gente para
ser alguma coisa neste mundo, precisamos estudar muito."
Você que escreveu?
"Foi eu que escrevi." - Josiane
Na escritura está a salvação. Na leitura também.
Os meninos do sertão sabem disso e se apertam pra caber onde não
cabem.
É longe o colégio?
"É em Coeté."
E vocês vão sempre nesse carro?
"Sempre, cabe 18 , 15... são 17 pessoas aí dentro.
Tem 17."
O décimo
oitavo se atrasou um pouco. Nada que o querer não alcance. E no
carro movido a gás lá foram os 18 a caminho da escola, num
espaço feito pra cinco.

Adilma também
se esforça para estudar, para enxergar o que está escrito
na lousa, na penumbra da sala de aula.
E o nome de Flávia
sai desenhado, vaidosas sílabas, numa manhã de unhas pintadas.
Depois
do almoço Adilma e Flávia não serão mais as
alunas, as meninas da escola que escrevem e apagam o que não querem
que exista.
Durante a tarde elas
serão as que dividem o mesmo corte. As que trabalham e modificam
a terra.
No começo
da noite suas mães passarão
cantando aquelas canções.
E elas irão na frente, como se voltassem de um passeio de domingo.

Veja
a segunda parte do programa Trabalho Infantil
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