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Mas vocês acham normal as pessoas trabalharem e não receberem?
"Não, não. Eu acho que quando você trabalha
você tem que receber. Todo nosso processo de reabilitação
profissional ele tem um caráter educacional para o trabalho, então
nós não temos essa questão do vínculo empregatício.
A gente procura ter o ambiente de trabalho mais real possível pra
que quando as pessoas saiam daqui elas não sofram um impacto na
sociedade." - Marcelo Vitoriano - Chefe da oficina-escola Avape
A
Avape mantém convênios com grandes empresas como a Volkswagen
e a Mercedes Benz. Numa estão empregados 26 deficientes e na outra
27.
Na Mercedes eles
trabalham na limpeza da cozinha e na Volkswagen no departamento de computação.
A maioria está empregada há muitos anos.
"Eu conheci a Avape quando eu estava procurando emprego, há
5 anos atrás, por um jornal. Eu vi um anúncio lá:
'vagas para deficientes físicos, a gente coloca em grandes empresas.
É só mandar o currículo'." - Nely Alves
Maria Aparecida é a supervisora da seção, administradora
de empresas, foi vítima de um erro médico, quando estava
na faculdade. Desde então não pode mais andar.
Vocês dão preferência para um deficiente físico
trabalhar?
"Com certeza, se tiver um portador e um não portador habilitado
para a mesma função a oportunidade é para quem tem
deficiência física ou auditiva. Nós não encontramos
com muita facilidade deficientes físicos para trabalhar. Dependendo
da quantidade de portadores que nós necessitamos, por causa do
grau escolar da pessoa e também das dificuldades que ela também
encontra para ter a escolaridade adequada." - Maria Aparecida
Videira - Coordenadora Avape - Volkswagem
E como é que você conseguiu terminar o colegial?

"Como eu consegui estudar até o colegial?
Não tem professores especiais, eu fiz amizade com outras alunas
da classe.
As pessoas ajudam... eu fico perdida. É bom colocar professor especializado
na faculdade é importante para mim, para todos." - Gina
Behn - Digitadora Avape
"Já
tenho o segundo grau completo. agora falta fazer uma faculdade, mas é
essa a minha dificuldade. Porque eu sei que lá não vou conseguir
entender o que o professor vai falar. Porque muitos professores de faculdade
falam muito rápido e as vezes ele está explicando uma matéria,
aí de repente ele vira, fica de costas, aí não dá
para eu entender. Tem que ser de frente mesmo." - Inês -
Digitadora Avape
Inês, como qualquer deficiente auditivo não consegue assistir
televisão e entender tudo o que é dito.
Por que você perde a notícia na televisão?
"Porque não
mostra o repórter falando. Por exemplo, plantão nunca mostra
o repórter falando, só aquele plantão na televisão
e o homem vai falando e eu não estou entendendo. E eu não
vejo a hora de terminar para eu perguntar para alguém." -
Inês
Inês trabalha na digitação da Volkswagen há
cinco anos, contratada pela Avape, este foi o seu primeiro emprego.
"É importante pra mim o trabalho porque me ajuda muito. Pelo
menos eu me sinto alguém.
Eu me sentia só. Além da mamãe e do meu pai me darem
essa força para continuar lutando, eu me sentia muito triste, só.
Eu falava assim, será que a minha vida vai ser sempre assim? Acordar,
comer, dormir, assim? Eu quero fazer alguma coisa, eu quero sair de casa
, ficar um certo tempo no serviço, voltar pra casa feliz por ter
feito alguma coisa. Era isso que eu precisava e é hoje o que eu
sinto." - Inês
Há quanto tempo você trabalha aqui?
"9 anos. Todas as empresas lá fora não pegam mais
pessoas, porque têm preconceito."
Quem que tem preconceito?
"As empresas tem preconceito sim, eu já sofri no primeiro
trabalho. Eu trabalhava, já sofri preconceito. Quando eu falava
alguma coisa todo mundo se afasta." - Gina
Gina
não escuta nada, não usa aparelho porque não aguenta
o barulho do mundo. Mas ouve música da maneira mais natural, sentindo
os instrumentos, descobrindo o desenho das notas.
"Não
é falado, parece só instrumento...parece piano. Curvado,
parece curvado." - Gina
Gina vive em São Paulo, mas é como se vivesse numa outra
cidade. Os ônibus que passam pelas avenidas, as sirenes, nada disso
faz parte da sua vida. Mas ela sabe o que são os bons e os maus
sons.
Motor de carro é um bom som?
"Não, é feio."
Tem algum barulho que você tem medo?
"Trovão. Muito barulho, alto."
Como é que você sente o trovão?
"Sinto no corpo todo."
Dentro de você é só silêncio?
"Não, não é isso. Eu sinto o coração
bater." - Gina
Foi muito difícil pra ela aprender a falar?
"Foi, foi difícil, leva bastante tempo. É um processo
lento, por que é letra por letra, palavra por palavra. E além
de aprender a palavra tem que associar ao objeto." 
Qual foi a primeira palavra que ela falou?
"Batata! Foi mesmo, me emociono até hoje. Faz mais de 20
anos. Foi nesta cozinha. Ela era pequena, tinha 4 anos, parou, me chamou,
chamou minha mãe e ela soltou, orgulhosa, porque ela venceu: batata,
certinho. Não vou esquecer nunca." - Edna Giusti - mãe
da Gina

Veja
a segunda parte do programa sobre Deficientes
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