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segunda parte
Neide Duarte
 



Fomos saindo da baía de Guajará até Belém ser apenas nosso norte no horizonte. Raimundo Malato é o nome do barco. Silas é o comandante. Nosso destino é Ponta de Pedras, um município da Ilha de Marajó. Viagem longa por muitos rios. Depois de 60 km entramos na baía de Marajó, onde se encontram o rio Pará e o braço sul do rio Amazonas. No barco descendentes de índios e um padre jesuíta. Uma cena brasileira. Estamos cansados, mas não para dizer que a paisagem é monótona. A floresta dança na água. O rio, o céu, a mata tem sempre uma nova luz. Como se o caminho fosse eternamente outro. E no encantado das visagens entramos na embocadura do rio Marajó-Açu. Ponta de Pedras chegou.

Carimbó, lundu, siriá, as danças de origem africana e indígena estão vivas pela ilha. Assim como estão vivos seus mitos. No Marajó vivem a Matinta Pereira, o boto feito gente, a cobra grande, a mãe da mata, a mãe da noite que faz o medo.


"O pé dele é virado, acho que para conhecer o boto tem que olhar os pés dele para ver. Acho que calcanhar é pra frente."

— Mas o boto pode tomar forma de qualquer pessoa?
"O boto pode. Até do meu marido." - Nazaré Gouveia - Moradora de Paia Grande


Nazaré é uma das moradoras da comunidade de Praia Grande em Ponta de Pedras, formada por apenas 22 casas. Até há pouco tempo não tinham água, nem luz, hoje Nazaré e toda a comunidade de Praia Grande tem negócios com a Mercedes Benz, a segunda maior indústria automobilística do mundo .


"Isso aqui foi uma parceria, uma idéia da universidade, o Poema e a comunidade de Praia Grande. Daí surgiu a idéia de montar essa fábrica. Para a gente é super importante, pra mim que antes era desempregado não tinha o que fazer. É trabalhar com uma coisa que antes não tinha utilidade, hoje é de super utilidade." - Nazareno Tavares - Funcionário e sócio da Pronamazom


Os coqueiros da Praia Grande não significavam muita coisa para os seus moradores.

Até quando os técnicos do Poema apareceram por aqui com a idéia de transformar a casca do coco em fibra e com essa fibra fabricar encostos de cabeça para os caminhões da Mercedes Benz.


"A Mercedes Benz simplesmente está no projeto como uma alavancadora, ela faz com que as coisas aconteçam, a minha estadia nesse projeto faz parte desse alavancar. A Mercedes Benz não tem interesse em montar a empresa, a empresa não é Mercedes Benz, a empresa é da comunidade." - Wilson Moura - Engenheiro - Planejamento de Projetos Mercedes Benz


A Mercedes Benz repassou ao Poema em 1992 um milhão de dólares. Com esse dinheiro o Poema criou um laboratório para estudar fibras, resinas, óleos e investiu em vários projetos em 3 regiões do Pará, uma delas Ponta de Pedras. Na pesquisa tecnológica feita com o coco a participação dos caboclos da Praia Grande foi fundamental. Eles modificaram muita coisa e adaptaram máquinas para agilizar a produção.

 

Essa engrenagem que faz a fibra do coco virar quase uma corda é na verdade um eixo de roda de carro. Idéia de caboclo.

 
 

Para trabalhar com a casca do coco foram criadas duas fábricas em Ponta de Pedras. A PRONAMAZON produz 5 mil encostos por mês. São 7 funcionários fixos que ganham um salário de 250 reais. Todo o lucro gerado pela venda dos encostos a Mercedes Benz vai para a comunidade da Praia Grande. É como se todos fossem sócios e empresários.

"Nós aqui somos todos da comunidade, não tem ninguém de fora da comunidade eu acho que nós viemos plantando isso desde o começo. Eu acho que a cada dia a gente está plantando mais ainda coisas do trabalho da gente. A gente vai, acho que, ganhando as coisas com o próprio esforço da gente." - Edvaldo Tavares - Funcionário e Sócio da Pronamazom


Natalícia é operária uma vez por semana. Ela e outras 30 pessoas se revezam no trabalho da outra fábrica: a de beneficiamento da fibra do coco. Cada um ganha cinco reais por dia. Para sobreviver nesta ilha, caboclo tem que ter muitas presenças. Tem as cheias e os vazios. E tudo é de mais valia. Natalícia tem uma pequena padaria no fundo da casa, tem salário do Ministério da Saúde, como agente de saúde e é líder da Pastoral da Criança.

"Nós esperamos que esta fábrica cresça, que ela não fique assim reduzida só a nossa comunidade, mas que outras comunidades possam participar também. Porque eu acho que não é justo a gente lutar só pelo nosso bem estar mas também, que ao nosso redor alguém não fique sofrendo, passando fome, assim como muitas vezes a gente até já passou, aqui mesmo." - Natalícia Gouveia - Agente de Saúde

 


No princípio era a água da Baía de Marajó, a areia imensa de pedras vermelhas. A praia grande.

Os moradores pescavam, mas não podiam plantar sossegados, sempre ameaçados pelos donos da terra.

 


"Para se montar um roçado precisava é fazer escondido porque o dono não deixava fazer, até a nossa casa a gente não podia fazer de telha porque o dono não deixava a gente fazer de telha, a gente tinha que fazer de palha." - Natalícia


A situação só melhorou quando a Cooperativa dos Agricultores, ligada à igreja católica, comprou e cedeu as terras as 22 famílias que viviam ali. Assim puderam plantar a mandioca para ter a farinha e o açaí para acompanhar a farinha.


"Se não tiver o açaí eu não como. Eu não como nadinha se não tiver o açaí, pra mim eu passo o dia inteiro sem comer." - D. Joana

A terra na Ilha do Marajó é muito pobre. A agricultura tradicional era itinerante: planta, corta, queima. O tempo de espera para que a terra esteja outra vez pronta para o plantio é de 25 anos. Inspirados em sistemas agro-florestais dos índios caiapós, os técnicos do Poema desenvolveram o modo de agricultura em andares.


"Nós fizemos um resgate em cima da agricultura indígena, fizemos uma pré adaptação puramente agronômica e quando saiu depois das discussões com as comunidades ele havia se modificado. As espécies que estavam em sua composição florística de espaçamento, a disposição delas no espaço, tudo isso foi mudado pelas comunidades." - Pedro Saviniano Miranda - Coordenador de Projetos - Poema


A agricultura em andares funciona assim: no primeiro andar ficam o milho, o arroz, o feijão. No segundo andar a mandioca, o quiabo, o tomate. No terceiro andar a banana, no quarto andar as árvores que precisam de sombra: o café, o caju, a murici.

No quinto andar as palmeiras finas: o açaí, a pupunha, o bacabi. No sexto andar as palmeiras grossas: o coco, a buriti, o jenipapo, o cupuaçu. No sétimo andar árvores grandes que dão sombra: a mangueira, a castanheira. O que forma os andares são as diferentes alturas das plantas.

"O nosso clima é muito seco, isso impossibilita a gente de tratar direitinho dos nossos módulos, porque todo ano a gente planta, mas todo ano morre as plantações por causa do verão que é muito forte." - Natalícia

"O solo do Marajó aqui é fraco, porque quando chove, chove muito, quando seca, seca tudo. Então, nós temos esse problema muito sério com a questão do clima. Então, introduzindo o plantio agroflorestal que trabalha com módulos, a gente tá conseguindo recuperar o solo e tendo uma alternativa de produção." - Francisco Gouveia - Presidente da Associação dos Moradores de Praia Grande

 

O carimbó é dança trazida da África pelos escravos. Dança negra, de roda. Carimbó é música do Marajó. Brasileiramente, Pará.

Os caboclos do Marajó tem a sua própria grandeza. Vivem na maior ilha fluvial do mundo.

Fazem parte da maior bacia hidrográfica do mundo, da maior floresta do mundo. E moram numa praia grande.

 

E para a medicina ainda emprestam as suas sabedorias.


"É o quinino, nos tempos dos meus pais, dos meus avós eles curavam para negócio de febre brava, negócio de febre impaludismo eles faziam a lavagem e aplicavam na gente e ficavam dando o chá." - D. Isaura


O quintal de Dona Isaura tem parte com o encantado. O doutor das gentes. O que conhece o que não se diz. Certos maravilhamentos não se dá de estudos, ao claro, o que é.

"Ainda não fervi chá dela, ainda não fiz nada, porque agora que eu tô criando ela. Não posso dar prova dela prá ninguém. Agora, depois que eu começar a usar eu digo: bom, essa planta é remédio." - D. Isaura

 


Ponta de Pedras não tem médico de diploma. Quando o caso é de acontecimento de doença os caboclos procuram Dona Isaura ou então a Natalícia, que guarda as receitas dos mais velhos.


"O remédio para derrame é feito de outro bicho que é o jacaré. É o pênis do jacaré seco, a gente torra ele e faz chá para a pessoa tomar, a pessoa que é acometida de derrame." - Natalícia

"Aí era meia noite, ele saiu do caminho e entrou lá na nossa casa. Aí, ele assobiou atrás dele, quando ele chegou lá a porta estava aberta aí, ele caiu lá prá dentro apavorado. (...) Minha mãe, ela sempre dizia: 'Tanto de tu andar de noite, essas horas da noite assim, pensa que não tem a Mãe da Noite?'."

— A Mãe da Noite faz o quê?
"Faz o medo." - Nazaré

E Natalícia, a cabocla que nasceu e sempre viveu na frente da Baía de Marajó, vê crescer seu horizonte da largueza dessas águas.

Ano passado esteve na Alemanha participando de um congresso sobre experiências de comunidades.


"É como era a nossa comunidade e como foi pra ela ter essa transformação, essa mudança, que foi através da organização comunitária da junção das pessoas na comunidade para lutar pelo objetivo que era estruturar a comunidade. Graças a Deus a gente já tem o início. Já temos alguns jovens da comunidade empregados, com carteira assinada, no nosso próprio projeto. Tem as famílias que não estão com a carteira assinada, mas estão trabalhando dentro da comunidade, quer dizer, eu acho que já começou alguma coisa..." - Natalícia




Veja a primeira parte do programa sobre Belém

 

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