Belém - PAsegunda parte Neide Duarte |
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Carimbó,
lundu, siriá, as danças de origem africana e indígena
estão vivas pela ilha. Assim como estão vivos seus mitos.
No Marajó vivem a Matinta Pereira, o boto feito gente, a cobra
grande, a mãe da mata, a mãe da noite que faz o medo.
Até quando os técnicos do Poema apareceram por aqui com a idéia de transformar a casca do coco em fibra e com essa fibra fabricar encostos de cabeça para os caminhões da Mercedes Benz.
Essa engrenagem que faz a fibra do coco virar quase uma corda é na verdade um eixo de roda de carro. Idéia de caboclo.
Para trabalhar com a casca do coco foram criadas duas fábricas em Ponta de Pedras. A PRONAMAZON produz 5 mil encostos por mês. São 7 funcionários fixos que ganham um salário de 250 reais. Todo o lucro gerado pela venda dos encostos a Mercedes Benz vai para a comunidade da Praia Grande. É como se todos fossem sócios e empresários.
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Os moradores pescavam, mas não podiam plantar sossegados, sempre ameaçados pelos donos da terra.
"Se não tiver o açaí eu não como. Eu não como nadinha se não tiver o açaí, pra mim eu passo o dia inteiro sem comer." - D. Joana A terra na Ilha do Marajó é muito pobre. A agricultura tradicional era itinerante: planta, corta, queima. O tempo de espera para que a terra esteja outra vez pronta para o plantio é de 25 anos. Inspirados em sistemas agro-florestais dos índios caiapós, os técnicos do Poema desenvolveram o modo de agricultura em andares.
No quinto andar
as palmeiras finas: o açaí, a pupunha, o bacabi. No sexto
andar as palmeiras grossas: o coco, a buriti, o jenipapo, o cupuaçu.
No sétimo andar árvores grandes que dão sombra: a
mangueira, a castanheira. O que forma os andares são as diferentes
alturas das plantas. "O nosso
clima é muito seco, isso impossibilita a gente de tratar direitinho
dos nossos módulos, porque todo ano a gente planta, mas todo ano
morre as plantações por causa do verão que é
muito forte." - Natalícia
O carimbó é dança trazida da África pelos escravos. Dança negra, de roda. Carimbó é música do Marajó. Brasileiramente, Pará.
Fazem parte da maior bacia hidrográfica do mundo, da maior floresta do mundo. E moram numa praia grande.
E para a medicina ainda emprestam as suas sabedorias.
"Aí
era meia noite, ele saiu do caminho e entrou lá na nossa casa.
Aí, ele assobiou atrás dele, quando ele chegou lá
a porta estava aberta aí, ele caiu lá prá dentro
apavorado. (...) Minha mãe, ela sempre dizia: 'Tanto de tu andar
de noite, essas horas da noite assim, pensa que não tem a Mãe
da Noite?'." E Natalícia, a cabocla que nasceu e sempre viveu na frente da Baía de Marajó, vê crescer seu horizonte da largueza dessas águas. Ano passado esteve na Alemanha participando de um congresso sobre experiências de comunidades.
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