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primeira parte
Neide Duarte
 


Chegamos em Belém numa manhã de inverno. Úmido calor.

Inverno quer dizer chuva, única diferença de estação. De resto é sempre o mesmo verão em qualquer inverno.

 

O mercado de carne de Belém veio da Escócia, o mercado de peixe veio da França. Mercados de ferro. Do tempo em que Belém parecia ter mais semelhanças com Paris do que com a capital da república, Rio de Janeiro.

Era a época bela em Belém. A borracha trazia a fortuna para os barões e espalhava miséria entre os nordestinos, que se embrenhavam na floresta para tirar o látex das seringueiras, um trabalho quase escravo. O tempo de ouro durou pouco, de 1870 a 1910. E Belém então voltou a ser cabocla, amazônica, do rio, da floresta. Onde sempre esteve a sua maior riqueza.


"É o cará. Aquele cará roxo que a gente come com café. Esse aqui é o cacauí. A gente quebra e come. Esse aqui é o xuru. Esse é uma fruta também que ela abre por ela mesma e a gente come o que tem dentro." - Carmelita Rocha - Feirante - Ver o Peso

Bacuri, bacabi, buriti, cajarana, cupuaçu, ingá, jutaí, xuru, sapucaia, tucumã, taperebá.

São 145 espécies de frutas na floresta do Baixo Amazonas, onde fica o Pará. Tudo a venda no grande mercado fluvial de "Ver O Peso", no porto da baía de Guajará. O mercado foi criado no século XVII. Era um posto de fiscalização onde se pagavam tributos a coroa portuguesa, conforme o peso. Por aqui está vivo o eco de línguas perdidas, de pensamentos, nações perdidas.


— Que peixe é esse?
"Pirarucu."

— Você já comeu pirarucu?
"Não, ainda não. Porque é muito caro, é muito caro ele."



— Quem é que come pirarucu?
"Os barão. Tem gente que come também sem ser barão, mas eles compra só um quilo. Barão não, compra de 3 kg, manda tirar o couro dele." - Reginaldo, 11 anos - Vendedor de Sacola

Foi nesse cenário brasileiro que nasceu o POEMA. Não palavras em versos. Mas um diverso significado.


"POEMA significa: pobreza e meio ambiente na Amazônia, POEMA é uma sigla." - Nazaré Imbiriba - Coordenadora Poema


Nazaré Imbiriba é uma das coordenadoras do Poema, morou em São Paulo, fez doutorado na USP, mas antes de tudo é filha desta terra. Tem no nome a devoção do Pará a Nossa Senhora de Nazaré. E sabe que de alguma forma também é parte da paisagem amazônica.

"Eu acho que quem está nessa região, tem uma obrigação com o que está em volta de si mesmo. Eu gosto da frase do Ortega y Gasset: "Eu sou eu e minhas circunstâncias". Se eu não salvo a elas como posso salvar a mim? Então, eu acho que no caso do Poema o conhecimento que nós queremos, a tecnologia que nós queremos e que nós desenvolvemos, é do interesse que ela possa ser aplicada, absorvida pelas populações pobres e que elas possam realmente viver melhor." - Nazaré Imbiriba


O POEMA foi criado em 1992 como um programa especial da Universidade Federal do Pará, nas margens do rio Guamá.

Profissionais de diversas áreas da universidade se reuniram, sempre com o objetivo de buscar o enriquecimento dos quintais e de ver a vida humana na sua totalidade. Assim começaram a trabalhar com o pequeno produtor do interior do Pará. Hoje atuam em mais de 100 comunidades.


"Nós temos parceiros internacionais, nós temos companheiros internacionais, nós temos consultores internacionais, mas o poema é 99,9% uma proposta da sociedade regional, uma proposta inclusive de valorização da sociedade regional mas é também uma proposta que sai de pessoas, de técnicos que vivem nessa região, conhecem essa região e têm propostas inovadoras." - Nazaré

 

 

Estamos a caminho de Abaetetuba, mais especificamente de uma estação de criação de peixes no baixo Tocantins. Silêncio de navegar. Caminho do açaí, das mais altas buritis, a rainha da mata. Na região amazônica, além da floresta, a água é a mãe de tudo. Na maior bacia hidrográfica do mundo muito pouca gente tem água potável. E neste pedaço do mundo das águas falta peixe. Culpa da pesca predatória e da usina de Tucuruí que barrou a passagem dos peixes rio abaixo.

Antonio sabe. Quando carrega um tambaqui nos braços leva a mais importante senhora.

— Tinha tambaqui por aqui?
"Não, bem pouco, alguns que escapulia, né? Por exemplo a nossa região aqui ela foi um pouco ou muito, prejudicada com o projeto da barragem de Tucuruí." - Antônio Negrão - Técnico POEMA


"Essa estação nasceu em função de uma própria necessidade das comunidades, nas ilhas de Abaetetuba se começou a criar peixe, mas o tambaqui, o curimatã, o aracu, eles não desovam em cativeiros. Então havia a necessidade de um laboratório que fizesse a desova pra produzir os filhinhos desse peixe, os alevinos, pra atender essas comunidades." - Raul Ferreira - Pesquisador POEMA

Na estação de piscicultura, entre os tambaquis, só existem duas fêmeas da natureza: Ossinho e Cesinha. Por isso tanto cuidado. Cada uma delas produz por ano mais de um milhão de ovas. O tambaqui vive nas florestas inundadas e só se alimenta na época das cheias quando come sementes que caem das árvores, depois, quando fica longe da floresta, limitado pelas margens dos rios, faz um longo jejum. Aqui tudo é diferente, para se alimentar recebe uma ração, para desovar, injeções de hormônios. Alterando o curso da natureza para que a vida continue.


"Foi uma idéia própria da comunidade, que procurou os órgãos e entidades atuantes no município pra construir esse laboratório, que foi construído uma parte com o esforço das comunidades, escavando manualmente os viveiros e a outra com a ajuda de diversas entidades, na compra de equipamentos e pagamento de técnicos. Como é o caso do Poema que hoje paga os técnicos que atuam aqui nesta estação." - Raul Ferreira


O laboratório produziu em um ano 280 mil alevinos de tambaqui, curimatã e aracu. Eles custam 40 reais o milheiro. Nas ilhas onde ficam as 62 comunidades de Abaetetuba já foram feitos 300 lagos artificiais para a criação de alevinos, alguns são comunitários e outros de um só proprietário. Todos foram feitos em mutirão pela comunidade com a ajuda da prefeitura de Abaetetuba.


"Isso aqui era um igarapé, nós represamos. Agora nós temos tilápia, temos curimatã e temos peixe da região também que se reproduz aqui sem que a gente coloque: aracu, vários tipos de acará. Tambaqui só se colocar, nós temos pouco aqui. Nós já tiramos agora, esse fim de ano, uns 100 quilos de peixe que foi vendido." - Marcos Agostinho - Produtor de Peixes


"Nós já passamos momentos de crise muito grande. Agora por exemplo, em uma comunidade onde tem 21 mil metros quadrados de lago, são 32 pessoas. Que trabalham com lago, a gente já vê que o pessoal já tem o peixe lá pra comer, tranqüilo. Hoje em dia eles estão mais tranqüilos já bebem a sua cerveja de cabeça fria." - Antônio


"Nós não podemos querer ser sempre a Amazônia do futuro, heróis que vão ser daqui pra frente, nós não queremos nem ser heróis, nós queremos o presente. Sensibilizar o governo brasileiro ou instituições internacionais que as vezes pensam a Amazônia como uma floresta, mas não é, a Amazônia tem gente, a Amazônia tem pessoas." - Nazaré





Veja a segunda parte do programa sobre Belém

 

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