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segunda parte
Neide Duarte
 


Em terras um dia assim descobertas, uma sombra no horizonte nos lembra caravelas ao mar, a chegar. A descoberta já está terminada: 4% do petróleo que abastece o Brasil sai dessas plataformas no mar de Sergipe. E o passado mais remoto do planeta ainda participa dos nossos dias. Sai do mais escuro da Terra e nos devolve riqueza, uma clara energia.

 

A luz do cinema ainda balança, está longe da tela. Calma simetria. O que foi um dia projeção no cinema de Riachuelo, hoje são meninos assombrados com os morcegos de agora.


O passado está em toda parte. A história do Brasil mora nestas paisagens. Nestas cidades do interior do Sergipe onde o caminhão Leia Brasil deixa seus livros.


"Entremos, viemos como nosso bendito /
Entremos, viemos como nosso bendito /

viemos adorar o meu São Benedito /
viemos adorar o meu São Benedito."
- D. Lourdes


O chapéu, as fitas, o querequexé.

Na cidade de Laranjeiras Dona Lourdes é a chefe da Taieira, a festa para Nossa Senhora do Rosário e pra São Benedito, herança dos negros escravos que trabalhavam nos engenhos de açúcar. Existem registros dessa festa desde o século XVII: um cantar português, num ritmo africano.


Rio Cotinguiba, Laranjeiras, por aqui os holandeses, no século 17, entraram para dominar toda a região dos engenhos de açúcar.

Este convento em São Cristóvão serviu de quartel para um batalhão que atacou Antonio Conselheiro, em Canudos.

Aqui estão dois santos do pau oco, do século 17 - eram ocos por dentro para que o ouro das Minas Gerais pudesse passar pelos fiscais portugueses sem pagar imposto.


Esta é a igreja de Comandaroba, propriedade dos antigos senhores de engenho. Século 18. Tempos perigosos aqueles. Para escapar das perseguições do Marquês de Pombal, os jesuítas que moravam nessa igreja, cavaram um buraco atrás da sacristia. Uma passagem que agora começa a ser descoberta.


Piabas secando na calçada. Pescadores se enredam nas suas redes. E o sol é pura geometria. Crasto, uma vila de pescadores: 1.400 habitantes. Lugar privilegiado. Foi escolhido para receber o caminhão do Leia Brasil. Nesta região são 54 povoados, mas apenas vinte e duas escolas. E no caminhão só serão atendidas as escolas cadastradas: neste caso somente seis.


"É muito grande a carência e a gente precisaria pelo menos de início, um caminhão em cada município, né? Isso seria uns 70 municípios só em Sergipe, imagine se fossemos contabilizar isso para o país inteiro?" - Luis Carlos - Petrobrás


 

Entrar no caminhão e escolher um livro é um privilégio. Sivaldo sabe disso.

— Esse é o primeiro livro que você pega diferente da escola?
"É."

— O que você faz, só estuda?
"Trabalho também. Trabalho na roça, limpando, plantando." - Sivaldo

 

Esta é a terra de Sivaldo. Até onde a vista alcança tudo é Mocambo. Era uma fazenda ociosa, hoje é terra e casa de 40 famílias. Um assentamento dos sem terra.

Eles vivem aqui há três anos. Cada família tem sua lavoura e sua casa, construída com ajuda do Incra.


É de manhã. Sivaldo vai com sua carroça, roçar a terra de seu pai.

 

 


— Você gosta de morar aqui?
"Gosto, porque tem terra para eu trabalhar, terra de meu pai."

— Como é que voces viviam antes?
"Meu pai trabalhava aos outros e aí ganhava o dinheiro, aí fazia a feira."

— O que é que voce mais queria?
"Que meu pai tivesse dinheiro para fazer a feira toda semana e também que eu tivesse mãe. Minha mãe foi embora quando eu tinha 7 anos."

"Queria mãe pra ela fazer as coisas, lavar a minha roupa, cuidar da casa e conversar comigo."
— O que você queria conversar com a sua mãe?
"Muitas coisas... contar história mais ela... dar benção a ela todos os dias." - Sivaldo


Durante toda a manhã Sivaldo roça a terra, planta milho, feijão, tira os matos que crescem em volta. Trabalho duro. Trabalho de enxada. Volta pra casa ao meio dia. As aulas na escola começam a uma da tarde.

Nada é simples na vida de Sivaldo. A hora do banho também pede muito esforço. O poço onde ele pega água fica um pouco longe da sua casa.

"Agora vou esperar dar a hora para eu ir para escola."

— Você não vai almoçar?"
Não, eu já fiz uma merenda, não tô com fome, não vou deixar pra comer quando eu chegar."

— Mas o que que tem hoje? Mostra pra gente.
"Feijão e farinha. Só feijão e farinha."

— Tem merenda na escola?
"Não."

"O que mais tem é farinha e feijão. Mas isso porque a condição não dá. Porque quando a gente tem dinheiro faz a feira. Quando não tem, não faz, né?"

— Mas o sr precisa colher pra vender?

"A colheita aqui é fraca, ninguém arruma nem pra comer, quanto mais pra vender." - José Faustino Ferreira - pai de Sivaldo


O livro que Sivaldo pegou no caminhão Leia Brasil, junto com todo o material escolar está guardado como o bem mais precioso.

— Aonde você guarda o seu livro?
"Debaixo do colchão. É pra não se sujar de poeira." - Sivaldo

 

O pessoal da escola do assentamento Mocambo pegou sete livros emprestados do Leia Brasil. Vão devolver daqui um mês.

Genildes é a única professora e esta a única sala de aula. Aqui se misturam alunos de todas as séries. No fundo os pequenos da pré escola, e em cada fila de carteiras uma série diferente. Genildes tem que dar aula para todos ao mesmo tempo.

Hora do recreio. Ninguém espera mais pela merenda, que há muito tempo não vem.
Também ninguém traz lanche de casa.


Ser menino no Mocambo. Aprender novas palavras. E tornar outras mais belas.

Ser menino e caminhar no Mocambo, naquela luz azulada de cinema americano.




Veja a primeira parte do programa sobre Leia Brasil

 

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