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primeira parte
Neide Duarte
 



Este não é um caminho comum. Mesmo de perto não se enxerga a saída. O muro é um labirinto: cores, palavras, formações, ilhas. Pura geografia. Limites. Um negro caminho.


"As mulheres pretas são desprezadas, suas descendentes são ignoradas, muitas pessoas mal de nós vivem falando, porque o errado não aceitamos/ Hoje sou 3D, Débora, discipula de Dandara, ritmo, poesia/ Rap periferia, aonde nasceu, cresceu e se espalhou/ Consciência, auto estima, Zumbi ajudou/ Não me chamem de morena, não me chamem de mulata, marrom bombom, crioula." - Débora (cantando rap)



Aliança. Aliança negra se espalha pela Cidade Tiradentes. Zona leste de São Paulo.

A maior COHAB da cidade. Débora tem uma banda de rap, Guru também. Os dois são agentes culturais do Geledés.

 


Geledés é nome Iorubá - dos Iorubás da Nigéria - de onde veio boa parte dos escravos do Brasil. Geledés era o nome que se dava a sociedades secretas femininas de caráter religioso. Tradição que os escravos conseguiram manter no Brasil e, de alguma forma, vive até hoje nos Orixás do Candomblé.

Esse foi o nome escolhido, por onze mulheres negras, para criar uma entidade preocupada em defender os direitos humanos.

 

"Nós buscamos inicialmente combate ao racismo, combate ao sexismo, enfim, combate a todas as formas de discriminação racial."

- Sônia Nascimento - Advogada - Presidente Geledés

 

"Muita gente na periferia morre sem saber que é preto. Essa é a grande coisa. Morre sem saber quem é. Não se gosta, não tem auto estima e não se valoriza enquanto. Prá gente, a gente vai descobrindo isso com o tempo. Policial para: 'Ei, neguinho!', você entra em algum lugar: 'Ó, lá vem o macaco', isso é uma coisa que vai chocando a gente." - Carlos Alberto - Agente Cultural Geledés


Aliança Negra, Conceitos de Rua. Posses. Reuniões de bandas de rap da periferia de São Paulo. Na voz dos jovens, no ritmo, nas palavras das suas músicas, já estava traçado o caminho para levar para a periferia a consciência negra.

"O jovem negro encara a sua realidade, começa desde cedo, antes que seja tarde. É doloroso saber que poucos irão nos ouvir que entrará por um ouvido e por outro irá sair.

E escute, ouça o que temos a falar, ou nossa luta de nada valerá ..."



O Geledés junto com jovens das bandas de rap da periferia, desenvolveu o Projeto Rappers. Selecionou entre eles alguns agentes culturais que receberam uma formação em oficinas de sexualidade, formação política, auto estima. Esses jovens passaram a ser multiplicadores de um pensamento.


— Se vocês não fizessem música ficaria mais difícil de conversar com as pessoas sobre a questão racial?

"Ficaria impossível, porque as pessoas não têm muita paciência pra ouvir as coisas. Elas ouviram demais com o passar dos anos. Então, se você disser pra uma pessoa: 'Senta aqui que eu quero falar com você sobre Zumbi, sobre Malcom X, sobre a violência policial'. Ela vai dizer: 'Amigo, eu tenho mais o que fazer', e vai embora. As pessoas só se interessam porque elas ouvem o que você canta a respeito dessas coisas. Esse é o interessante pra elas, elas aprendem se divertindo." - Clodoaldo Arruda - Agente Cultural Geledés

 

O Projeto Rappers recebe 56 mil dólares por ano de uma agência de financiamento holandesa.


"Só foi possível realizar todo o trabalho que o Geledés vem realizando ao longo desse tempo por contar com parceiros fundamentais, como a Fundação Ford, ICCO, Ministério da Justiça, Comunidade Solidária, Fundação Palmares. (...) As organizações negras têm muita dificuldade de encontrar apoio financeiro para o trabalho que realizam dentro do Brasil, por vivermos num país que se governa por um mito, um mito da democracia racial." - Sueli Carneiro - Coordenadora Executiva Geledés


Duas mulheres caminham pela Liberdade em São Paulo.

Sônia e Maria Sílvia são advogadas, e estão sempre atrás de justiça.


"Ainda não conseguimos mobilizar o judiciário. A problemática do racismo ainda é tratada como uma questão de segunda categoria. O Geledés, ao criar o SOS Racismo, que é um atendimento as vítimas de discriminação racial, fez um levantamento da Lei Afonso Arinos, da promulgação da Lei em 1951 até 1991, quarenta anos de existência da Lei Afonso Arinos, nós não encontramos uma condenação da prática do racismo." - Sonia


"Eu já sofri muito preconceito. Por exemplo, eu já fui fazer audiência e quando eu entrei na sala de audiência o escrevente me mostrou a cadeira que seria para que o réu sentasse. Porque como minha cliente era uma pessoa branca ele entendeu que numa audiência criminal eu só poderia ser a ré." - Maria Sílvia Oliveira - Advogada Criminal

 

"Aqui mesmo no prédio do fórum, no banco estava escrito: 'Só para advogados', eu entrei na fila, quando chegou na minha vez a caixa falou: 'Mas você é advogada?' Eu voltei e falei, mas ali não diz que é só para advogado? Aí ela ficou toda constrangida, falou: 'Sabe o que acontece?'. Eu falei, eu sei, eu sei o que acontece, pode cobra. Eu sei exatamente o que acontece." - Sônia


As mulheres do Geledés sofrem o mesmo preconceito dos clientes que defendem no tribunal. Elas atendem de 3 a 4 pessoas por semana através do Programa SOS Racismo. Para esse projeto elas têm como parceiro uma fundação americana, a Fundação Ford, que contribui com 100 mil dólares anuais.

Pelo seu trabalho em defesa dos direitos humanos o Geledés ganhou em 98 uma menção especial do governo francês.

"Prá nós esse prêmio é uma coisa muito importante.(...) A história do movimento de direitos humanos no Brasil está intimamente ligada à época do regime militar, as violações que foram praticadas naquele período e a um conjunto de outras violações de direitos, como por exemplo a violação dos direitos das populações negras, o desrespeito, o racismo, a discriminação, a marginalização social a que os negros estão submetidos nunca foi considerado objeto de direitos humanos." - Sueli



"Esse problema nesse fim de século e começo do outro não pode ser tratado mais pelo governo, precisa ser estimulado pelo governo, mas precisa da participação do que a gente chama sociedade civil e na sociedade civil estão essas organizações não governamentais, especialmente as que congregam jovens. Elas têm um papel muito grande no sentido de conseguir chegar mais perto da alma das pessoas do que os governos." - José Gregori - Secretário de Direitos Humanos



A liberdade é só um desenho na parede. Nesta casa todos os dias alguma mulher procura ajuda para escapar de alguma violência familiar.

Os casos que precisam de ajuda jurídica são encaminhados ao Geledés que recebe do Ministério da Justiça 76 mil reais por ano para ajudar essas mulheres.


"A mulher negra a gente considera a que sofre maior violência. Ela sofre todas as exclusões da sociedade contemporânea, a violência de raça, violência de classe e a violência de gênero." - Maria Elisa Stampacchio - Assistente Social - Casa Eliane de Grammont

 

"Nós encaminhamos para o Geledés a maioria dos casos que precisam de atenção, atendimento com o jurídico, seja de acompanhamento ou seja de uma simples orientação, porque lá eles acolhem muito bem essa mulher, eles entendem o que essa mulher está passando." - Maria Elisa


"No Geledés você não se sente pressionada, você se sente amparada, a vontade e não tem vergonha de falar, elas sabem que isso aconteceu não porque a gente tem culpa.(...) As primeiras vezes que ele me bateu eu procurei o juizado de pequenas causas, lá eles são legais, tudo, mas o atendimento assim é muito frio, a gente se sente muito desconfortável. Fica aquela coisa estranha: 'Se você apanhou dele porque você está em casa ainda, porque não fez nada, não é a primeira vez, porque você não reage?'."


"A justiça trata assim, o olhar humano trata assim, o olhar das próprias mulheres a veêm dessa forma. quer dizer, ela pode estar agredida, mutilada. Se pairar qualquer dúvida moral sobre ela é como se ela tivesse merecido a agressão, é merecido o estupro, é merecido o grau de violência que ela teve." - Maria Eliza


 



Veja a segunda parte do programa sobre Geledés

 

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