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primeira parte
Neide Duarte
 


"Passa bonde, passa boiada, passa trator, avião, ruas e reis. Guajajaras, tamoios, tapuias, tupinambás, aimorés. Todos no chão."
("Ruas da cidade" Lô Borges e Márcio Borges)



Nesta terra de nomes tupis, que tanto se estende a cidade e a serra, se anuncia o mais duro caminho: o caminho do ferro, o mais fundo das minas. Anunciação das Dores sabe, quando caminha pelas ruas de Belo Horizonte anuncia a sua vida de duras retinas. E a cidade vai passando como num dia de domingo: a frente da Academia Mineira de Letras, a biblioteca desenhada por Niemeyer, a Praça da Liberdade, o Palácio das Mangabeiras. Anunciação é catadora dos papéis de Belo Horizonte.


"Esse carrinho aqui, vazio pesa 76 quilos.

E o outro carrinho, que é mais fácil porque ele é de grade, ele pesa 137 kg vazio. Só vazio, sem nada.

Aí põe mais..., até 300 quilos." - Anunciação das Dores


A catadora de papel não é uma anônima como nós, que caminhamos pela calçada. Na rua ela é um veículo, a ligação entre o que a cidade despreza e a sua transformação. Ela olha para Belo Horizonte e sabe ver no que ninguém quer a sua salvação.

 

 

No princípio os catadores eram sozinhos. Viviam debaixo de uma ponte, na beira do ribeirão Arruda, onde hoje vivem novos caminhantes.


Depois os catadores se uniram com a Pastoral de Rua, mais tarde tiveram ajuda da prefeitura e há 12 anos criaram a Associação dos Catadores de Papel.

"Em geral eles viviam numa condição de muita miséria, viviam numa situação de risco o tempo inteiro. Porque eles estavam na verdade mexendo com o lixo da cidade. E a sociedade não reconhecia as pessoas que tinham por trás desse lixo. A administração sempre percebia também, achava que tinha que se fazer operações limpeza. Tinha que se limpar a cidade. Limpar a cidade não era dizer: vamos limpar o lixo que tem ali, era limpar as pessoas, também." - Maria Cristina Bove - Coordenação Pastoral de Rua


Cristina trabalha com a população de rua há 33 anos e nesta rua ela organizou muitos encontros, muitas reuniões.

"Aqui era o ponto em que uma das mulheres catadoras de papel trabalhou a vida inteira. Ela trabalhava aqui há 25 anos. É a Geralda, hoje ela é a coordenadora da associação." - Cristina

— Quanto tempo você catou papel?
"Trinta e três anos."

— E como era a sua vida?
"Olha, uma vida muito sofrida porque eu tinha que dormir na rua para vigiar o papel. Eu e minhas meninas, para separar e vigiar o papel."

— Você e os 9 filhos na rua?
"Criei os nove catando papel e dei estudo. A minha alegria é que eu pude dar estudo pra todos.(...) A minha vida mudou muito porque eu recobrei a minha cidadania. Eu nem sabia o que era ser cidadã. Ser cidadã é ter os seus direitos, igual qualquer um tem. Direito de trabalhar, direito de ter um banheiro para você tomar banho todo dia." - Geralda

"Hoje os catadores de papel são respeitados pela sociedade, vivem dignamente e a prefeitura, através do órgão de limpeza urbana, ela entra com os equipamentos, com 3 galpões de triagem, com os conteiners espalhados na cidade. E esse material todo que é coletado nesses conteiners é doado para a Associação dos Catadores de Papel." -Luís Henrique Hargreaves - Superintendência de Limpeza Urbana - BH

"Nós repassamos 427 mil reais/ano para que eles possam se manter, fazendo pagamento de pessoal..., uma série de atividades que eles têm que desenvolver e ainda não são auto-sustentáveis o suficiente para darem conta sozinhos. Na medida em que isso for acontecendo a prefeitura ou a secretaria vai se retirando." - Vera Victer - Secretaria do Des. Social

 



Eles coletam 1% do lixo produzido em Belo Horizonte. É pouco, mas o suficiente para que 210 famílias vivam disso. Eles trabalham 10, 12 horas por dia. Catam o lixo a noite e separam durante o dia. Cada um tem seu espaço de trabalho.

 

Mas você acha importante deixar tudo assim, bem arrumadinho?

"Eu gosto, porque não é só em casa que a gente recebe visita, no local que a gente trabalha a gente recebe visita também, né?" - Maria da Paixão

 

Baiana é o apelido de Maria da Paixão. Ela nos espera com um chapéu de penas. Mora numa casa feita de retalhos de madeira. No alto de um morro, onde os fios elétricos são como ouro nas minas.

 

— Como é que você agüenta, depois de um dia de trabalho puxando aquele carrinho pesado, subir essa ladeira?

"Eu já acostumei, já treinei, não tenho medo. As vezes eu venho muito cansada, eu sento no caminho, não tem ninguém acordado, começo a cantar: Eu estou chegando do meu serviço Senhor. Abra o meu caminho, que eu quero passar. Eu tenho fé em Deus e Nossa Senhora venha me salvar..." - Maria da Paixão

Aqui dormir, aqui sonhar, Maria da Paixão tem sua casa.

Como ela, todos os catadores da associação, mas a rua ainda é quarto, guarda roupa, fogão, intimidade. A rua ainda é endereço de tantos outros.


"Aqui é a nossa sala, né? Ali é o nosso quarto, nosso guarda roupa, nosso guarda roupa que a gente guarda nossas coisas e ali é a nossa cozinha." - Warley de Menezes - Morador de Rua



Divinópolis esquina com Paraisópolis, a vida ainda era um sonho nos anos 60 . E desta esquina , Milton Nascimento e seus amigos mandavam recados para Lennon e Mccartney. Warley vive com sua turma a algumas quadras daqui. Neste bairro de Santa Teresa. Como nos anos 60 eles formam uma comunidade.

 

"Então, a gente estamos gostando do trabalho, nós que estamos aqui, estamos interessados no trabalho, tem uns colegas que não estão porque, devido a bebida, eles não estão dando valor ao trabalho, eles estão achando que a gente está trabalhando de graça para o pessoal. Mas não, a gente estamos tentando reconquistar nosso trabalho." - Warley

"Nós temos uma equipe de abordagem que trabalha em conjunto com a Pastoral, onde são desenvolvidas várias atividades para que essas pessoas tenham a chance de irem se redescobrindo enquanto cidadãos. Enquanto pessoas que tem sonhos, vocações." - Vera Victer - Secretária de Desenvolvimento Social


"Esse quadro redondo aqui é o seguinte: isso aqui é uma tampa de tambor que eu achei no lixo e fiz esse trabalho, esse desenho lindo aqui que vocês estão vendo. Esse aqui é um pedaço de folha de coqueiro que a gente achamos na praça e fizemos esse desenho igual uma cobra." - Warley

"Nós temos as oficinas, as atividades para que eles possam perceber claramente que o problema que eles vivem está relacionado não com a incompetência deles, mas com a realidade que nós vivemos, que é uma questão social. A gente conversa muito sobre isso e diz que quanto mais eles perceberem essa relação, eles vão se auto conhecendo, também." - Vera Victer



Chão de pedras, pé de moleque, montanhas de Belo Horizonte, Anunciação passa. Vereda sem fim. Hoje Bar do Lulu, antigamente Grande Sertão: aqui viveu Guimarães Rosa.

"O triste do homem, lá, decretado, embargando-se de poder falar algumas suas palavras. Ao sofrer o assim das coisas, ele, no oco sem beiras, debaixo do peso, sem queixa, exemploso. E lhe falaram: "- O mundo está dessa forma...".
Guimarães Rosa - Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha

 



Veja a segunda parte do programa sobre Belo Horizonte

 

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