Frutos Caminhos e Parcerias - Início Mirandiba, PE
primeira parte
Neide Duarte


 


Para andar pelo sertão não é só seguir um mapa. Entre sertanejos o caminho de um é o caminho de todos. E o que orienta o forasteiro nessa paisagem embaraçada é a palavra. A boa palavra sertaneja.

Casal na Charrete
"Tá o posto, ali entra pra Mirandiba. Nunca andaram por aqui não? São novato. Nossa Senhora da Guia guie vocês na mão de Deus, faça boa viagem, tenho muito prazer. Amém nós todos, boa viagem." - Casal de Charrete

 

Entrada MirandibaMirandiba é essa cidade desse tamanho. as casas pequenas, o céu imenso. Espalhadas pela zona rural vivem 16 mil pessoas.

80% ganham menos de 2 reais por dia. 50% são analfabetos.

E o que faz falta, o que tira o sono, o que mata, o que avexa, o que aperreia é essa água que não vem.

"Sertanejo é essas plantas que não morre, folha quando chove e enverdece, é o xique xique , o mandacaru , é o alastrado, todas essas plantas são sertanejas, elas não morrem. O sertanejo não morre fácil, ele desfolha mas depois enverdece." - Brás Vasconcelos - Agricultor


Céu de santosProcissão pra São José, novena pro Divino, trezena pra Padre Cícero. No céu está a salvação do sertão nordestino.

O sertanejo espera em Deus, mas também procura ajudar o céu no seu socorro. Eles pensavam nisso todo dia: Dorivaldo, Pedro, Francisco, Avelino, Antonio.

 

O som é seco como a terra. Mas esse também é o som da água. Que virá. Que virá. Que virá.



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Dorivaldo Pereira de Sá e Neide"Nós tamos malhando esse terreno aqui pra que ele se torne impermeável. Quando chover, que a água descer, ela vai ser barrada aqui. E aqui vai ter uma manilha que vai ficar em forma de cacimba pra que o pessoal da comunidade tire água, pra plantio e também, pra nós beber." - Dorivaldo Pereira de Sá (Vavá) - Sindicalista


Eles estão construindo uma barragem subterrânea. Um projeto feito em parceria: a comunidade e uma organização não governamental - ASPTA.

 

"Aqui é um pequeno projeto que a gente conseguimos. É um trabalho que a gente já tem se integrado a uma entidade chamada ASPTA. Conseguimos 3.800 reais, com essa daqui já é a quinta barragem que a gente vem construindo, com nosso próprio recurso. - Vavá

Criança chorando "A gente está tentando tirar o foco da questão da água exclusivamente e começa a centrar o foco na questão do homem. Essa que é a nossa idéia. Então a gente começa a fazer discussão a partir da lógica do agricultor e da agricultura, quer dizer a lógica da família, a lógica da propriedade e prioriza esse público: agricultura familiar." - Luis Cláudio Mattos - ASPTA

 




 

O caminho é custoso pra se chegar nesses lugares onde o sertanejo busca uma saída que virá com o tempo, que virá com o vento.

Pedro Brabo espera.

Nas suas terras, a barragem construída pelo mesmo pessoal está pronta.

Pedro Brabo e Neide"Está pronta Desde o final do ano passado, de novembro pra dezembro que eu plantei. Choveu um pouquinho mas que não dá pra criar água, pra juntar água, pra plantar nada. Não choveu esse ano, aqui tem muita seca. (...) Plantei, só não fiz foi colher, perdi tudo, quem plantou aqui perdeu tudo. Plantei milho, feijão, o que mais a gente planta aqui, né? Perdi tudo, não deu nada, aí a barragem é aí, só tem mato." - Pedro Brabo - Agricultor


No lugar do milho e do feijão só cresceu a palma, esse cacto que alimenta o gado.


A tentação de abandonar o sertão vive por aqui.


"O sertão é ruim assim, seco, mas a gente gosta do sertão. Mas eu não queria nascer outra vez aqui não. Eu já sofri demais aqui. Eu queria nascer no sul do país...ver chuva e verdura, mesmo que não fosse minha, mas tava vendo, né?" - Pedro Brabo - Agricultor

 

No meio do sertão tem uma parede, ruínas. Sinais dos tempos de fartura do algodão. Nos anos 80 veio a praga do bicudo e sem recurso pra enfrentar a peste tudo se perdeu.

No meio da caatinga o cancão dá seu grito e denuncia a nossa passagem pela terra do mandacaru, do xique xique, da coroa de frade.

Brás de Vasconcelos e NeideEsse aqui é o mandacaru que serve de alimentação para o gado. Quando ele floresce é sinal de chuva. É que a chuva chega no sertão." - Brás de Vasconcelos

Os meninos andam pela caatinga. Levam arapucas pra pegar o cancão.


E o cancão de olhos vermelhos, valente sertanejo. Assim como Corisco, não se entrega nem na morte.

Fazemos negócio com os meninos que soltam o cancão por um real.

E agora?

"Sei não, eu quero 1 real. Quer me dar outro real pra eu soltar o outro?"

— Eu vou te dar, aonde está o outro?

"Lá na minha casa."

Meninos passarinheiros— E tu vai soltar mesmo?

"Eu vou."

— Negócio fechado. E você, tem passarinho pra soltar?

"Não, mas quando eu pegar eu solto."

 

 



Veja a segunda parte do programa sobre Mirandiba.

 

 

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