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Num
monumento à aspirina Claramente:
o mais prático dos sóis, |
João
Cabral de |
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O poeta João Cabral de Melo Neto, falecido em 1999, transcorreu parte de sua vida sob a tortura de uma terrível enxaqueca. Há mais de um depoimento sobre ele que comenta esse aspecto de sua biografia. Não foi para menos, portanto, que o pernambucano dedicou uma verdadeira ode àquilo a que ele sempre recorria para aliviar sua cefaléia e, com a cabeça mais leve, então arquitetar intrincados poemas. O poema "Num monumento à aspirina" produz, já pelo título, um certo estranhamento no leitor, dada a combinação, meio estrondosa, dos substantivos "monumento" e "aspirina". Pois, em geral, fazemos monumentos às coisas grandes, aos acontecimentos e personagens históricos de relevo. Mas a uma aspirina, a um prosaico comprimido antipirético... No dicionário Aurélio, entre os significados de monumento, estão os seguintes: "obra de arte levantada em honra de alguém, ou para comemorar algum acontecimento notável"; "construção ou obra de escultura digna de admiração pela sua antiguidade"; "mausoléu" etc. A graça do título é justamente a conjunção esquisita de um substantivo que evoca o descomunal e de uma palavra cujo sentido é tão mais rasteiro, ligada ao consumo imediato e ao comércio. E é em linguagem de comércio, aliás, que o comprimido de origem alemã começa a ser descrito no poema: "fácil, portátil e barato". Isso lembra slogan publicitário, não é mesmo? Essa trinca de adjetivos é ultracomum na apresentação de um produto, podendo ganhar variações conforme o caso: "bom, bonito e barato"; "rápido, bonito e moderno" Realmente o poema tem algo de propaganda, a começar pelo elogio da concisão. O poeta utiliza com ironia o jargão publicitário, espichado ao máximo, especialmente na primeira parte, que parece vender o comprimido ao leitor, que seria não só fácil, portátil e barato, como também "compacto de sol na lápide sucinta". Ou seja, ele comprime inúmeras virtudes numa fôrma, num molde sucinto, diminuto. Falando em lápide, parece que o eu lírico estabelece uma analogia entre um caixãozinho e a embalagem da aspirina, com a inscrição da fábrica e da composição química. Afinal, lápide é, no caso, a pedra tumular sobre a qual costuma haver alguma inscrição. Mas no pequeno túmulo da embalagem há um sol poderoso. Mais poderoso que o sol meteorológico. Ele concentra o máximo no mínimo. Aliás, olhem bem a disposição estrófica do texto: são como dois blocos compactos, de 12 versos cada um. São, portanto, perfeitamente simétricos, como as duas faces de um comprimido-ou as faces de um caixão. A primeira parte, o rosto, digamos, tem um pouco a função das embalagens, apresentando o produto e realçando-lhe as virtudes. A segunda parte, como veremos, é algo como a bula da aspirina, que explica como ela "age" sobre o organismo. É evidente que João Cabral faz isso com meios eminentemente poéticos. Por que o comprimido é "o mais prático dos sóis"? Bem, isso só quem tem enxaquecas pode saber... As enxaquecas podem causar distúrbios visuais de inúmeros tipos, os quais variam de pessoa para pessoa. Mas, em geral, pode-se dizer que aquele que está acometido por esse problema não suporta a luz, artificial ou natural. A visão fica completamente turvada, e há mesmo pessoas que não enxergam nada nos momentos de crise. Bem, esse comentário já está ficando médico demais. Daqui a pouco vou ter de passar receitas... Mas é que o poema de João Cabral vai um pouco por essa seara, não é mesmo? A aspirina assume, nesse contexto, o estatuto de sol não apenas por seu formato esférico e sua cor branca, mas porque leva luz aos olhos do doente. Ou seja, uma vez engolida, transforma-se numa espécie de lente de contato, pois de fato possibilita, como a lente (que também é redondinha), olhar o mundo em redor. Assim, observem que toda a segunda parte do texto se dedica, com grande engenho, em descrever a conversão do comprimido em lente, em descrever o modo de agir da aspirina. É, como dissemos, a bula do poema, sua "informação técnica", em contraposição ao primeiro bloco, que tem função mais publicitária. Embora o poema como um todo faça alarde do produto, trabalhando, com ironia e graça, o linguajar do comércio. No final das contas, conclui o eu lírico, o moderno comprimido não serve apenas para o olho:
(...) porque lente interna, Ela serve, portanto, para o corpo inteiro. E, não só, acrescentaríamos: para a mente também. Sem ela, o poeta talvez não tivesse cabeça para escrever poemas tão inteligentes. Em tempo, o Ministério da Saúde adverte: comprimidos com dipirona, como a aspirina, são prejudiciais à saúde.
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