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| Fora de si | ||
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Eu
fico louco Eu
fico um pouco Eu
fico oco |
Arnaldo
Antunes |
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De saída, quer dizer, já a partir do título, a letra é afrontosa. Eu
fico fora de mim Nós
nos enganamos No padrão culto da língua, devemos falar "eu fico fora de mim" e "nós nos enganamos". Mas ninguém vai negar que as construções "fora de si" e "nós se enganamos" são ultracomuns na língua popular. Por que será que o autor não respeitou a correspondência entre os pronomes (eu/me, mim)? Vejamos os primeiros versos da composição: "Eu
fico louco Vamos analisar cada um dos versos. Você encontrou algo estranho no primeiro verso? Nada estranho, não é mesmo? Não há nenhum problema com "eu fico louco", a concordância verbal está bonitinha e a nominal, ao que supomos, também. Quer dizer, pela flexão no masculino do adjetivo, imaginamos que o eu da canção é um homem. Até aí, tudo bem. E o segundo verso? Este retoma o título. Por que a frase saiu dos trilhos da norma culta? Se você ler direitinho o primeiro verso, vai começar a entender por quê: o sujeito está ficando louco, está ficando com parafusos a menos. Realmente, a julgar pelo rumo que vai tomando essa letra, ele se desmiola cada vez mais. Ora, esse desarranjo mental tem como conseqüência um desarranjo sintático. É como se os termos nas frases ficassem girando em falso, sem ligação entre si. Desreguladas, as frases ficam como que sem pé nem cabeça, ou com pé e cabeça trocados. Vejamos o terceiro e o quarto versos. O que aconteceu? O pronome eu pede obviamente o verbo flexionado na primeira pessoa do singular (fico). Mas o compositor não levou em conta essa concordância e colocou o verbo na terceira pessoa do singular:"eu fica assim". Parece até gringo falando a nossa língua, não é? Na linha seguinte, o fora de si é corrigido para fora de mim, mas o certo continua errado aqui. Assim, em "eu fica fora de mim" temos um movimento de afirmação e de transgressão da própria integridade (mental e sintática). No entanto mesmo a correção sintática pode indicar transgressão. Em "eu (...) fora de mim", a norma gramatical, respeitada, indica desvio psíquico, o que é confirmado pelo conjunto da frase: "eu fica fora de mim". A letra opera mínimas variações em torno dessa célula: "ficar fora de si". Arnaldo
Antunes pinçou
do dia-a-dia um desvio gramatical e o tomaram ao pé da letra
como se tivessem entrevisto nele potencialidade expressiva. E não
é que tinha mesmo? Quem vai negar que "eu fico fora si"
é forma perfeitamente casada ao conteúdo? Ou, repetindo
o que dissemos acima, que o desarranjo sintático aqui imita o
desarranjo mental? Quem vai negar isso, não é mesmo? Eu
é que não. Vamos ver agora o resto da música:
Eu fico oco "Eu
fico um pouco/depois eu saio daqui". Como assim? A que se
refere "daqui"? Então o letrista diz:"eu vai embora/
eu fico fora de si". Ora, "daqui" é o "eu",
para fora do qual ele sai e no qual ele fica só "um pouco".
O advérbio "fora" significa exteriormente, na
parte externa, ou lugar diferente do da residência habitual
("dormir fora"), entre outras acepções que matizam
o sentido original de lugar exterior. Bem, esse advérbio, aplicado
à pessoa, ao eu, transmite a este características de lugar.
É como se "fico fora de si" pudesse ser lido também
como "dormi fora", como se "fico um pouco (em mim)"
parodiasse "fico um pouco em casa".
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