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A corrida espacial

(Continuação)


Bomba atômica: lado sinistro da corrida espacial

No fim da Segunda Guerra, o mundo estava dividido em dois blocos antagônicos e tomava contato com um novo e aterrorizante elemento, a bomba atômica. Em agosto de 45, ela foi mostrada à opinião pública da forma mais trágica possível: dizimando milhares de vidas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, no Japão.

As imagens da bomba acabaram se tornando um marco na história da humanidade. Mais do que nunca, para os líderes mundiais, a sobrevivência de uma nação, ou de um bloco econômico, parecia depender essencialmente do conhecimento científico e tecnológico.

Não por acaso, os melhores cientistas do Terceiro Reich foram cortejados por soviéticos e americanos, ávidos por seus conhecimentos. Werner von Braun, por exemplo, foi para os Estados Unidos. A valorização dos especialistas mostrava o apogeu do poder da ciência. Socialistas e capitalistas acusavam-se mutuamente, mas os líderes dos dois sistemas tinham em comum a visão de que o importante era investir em pesquisas. Mas esse interesse todo pela ciência não era uma novidade.


A ciência a serviço do desejo de voar

Desde que o matemático e filósofo francês René Descartes formulou seu famoso aforismo, "penso, logo existo", os teóricos da cultura ocidental passaram a duvidar de tudo o que não se pudesse comprovar cientificamente. A partir da visão racionalista do mundo, inaugurada no século XVII com o Iluminismo, o progresso humano passou a ser medido segundo os padrões dos cientistas, apesar de todos os dogmas da Igreja. Assim, nada mais natural do que o homem esperar da ciência a resposta ao seu anseio de voar.

"É claro que havia na corrida espacial um forte componente simbólico de prestígio e poder. O bloco que primeiro dominasse o espaço provaria sua superioridade científica. E como era a capacidade científica que media o progresso, quem dominasse primeiro o espaço provaria ao mundo que tinha o sistema mais perfeito, mais capaz de realizar os sonhos do homem.
O homem no espaço: superioridade
O progresso científico, por si só, parecia suficiente para justificar e legitimar um determinado sistema."

José Arbex Jr.
jornalista

Na verdade, quando falamos sobre os anos que vieram logo depois da Segunda Guerra, e sobre blocos econômicos, estamos tratando também do início do período da Guerra Fria. Nos Estados Unidos, a idéia da felicidade no dia-a-dia estava muito associada ao progresso técnico e científico. Os meios de comunicação difundiam a imagem de que só poderia ser feliz o americano que tivesse em casa todos os eletrodomésticos disponíveis no mercado, além de pelo menos um automóvel na garagem. Coisas de um consumismo assumido que não existia nos países socialistas.



Sputnik-1, Sputnik-2... O avanço soviético

Com esses valores materiais em alta, o Ocidente, e em particular os americanos, foram surpreendidos pelo anúncio do projeto espacial soviético "Sputnik". Acostumados a conviver com a tecnologia de ponta, tiveram de aceitar a vantagem da União Soviética na corrida ao espaço. A data: 4 de outubro de 1957.

Eisenhower: promessa não cumprida
Dois anos antes, em julho de 55, o presidente Dwight Eisenhower havia se comprometido publicamente a lançar, antes de qualquer outro país, um satélite para estudar os fenômenos atmosféricos. E, para a opinião pública, as promessas similares feitas pelo líder soviético, Nikita Khruschev, soavam como um mero jogo de propaganda. Por isso, o lançamento do Sputnik, uma pequena esfera de alumínio de 84 quilosequipada com um transmissor, calou os
americanos.E os soviéticos queriam mais. Um mês depois, em 3 de novembro de 57, subia aos céus o Sputnik-2. Dessa vez, uma cápsula de meia tonelada levava a bordo a célebre cachorrinha da raça Laika. Ela permaneceu dez dias no espaço, acoplada a instrumentos para medir a pressão arterial, os batimentos cardíacos e outras reações neurofisiológicas. A surpresa do Ocidente com o avanço tecnológico representado pelo Sputnik devia-se em boa parte ao perfil histórico da União Soviética. Até 1917, ano da revolução socialista, a Rússia era um país atrasado do ponto de vista econômico e científico. O regime absolutista dos czares mantinha a maioria da população em situação de miséria e ignorância. Depois da revolução de outubro de 17, o país viveria períodos de guerra civil e seria parcialmente destruído pelo exército de Hitler na Segunda Guerra Mundial. Calcula-se que, entre 1917 e 1945, tenham morrido pelo menos 50 milhões de pessoas na União Soviética.


Explorer, Nasa... A reação norte-americana

Diante de todos esses fatores, o salto dos soviéticos na corrida espacial parecia ainda mais grandioso. Para os Estados Unidos, era necessário reagir com urgência. Em 31 de janeiro de 1958, depois de uma tentativa fracassada, os americanos finalmente colocaram em órbita o seu primeiro satélite artificial, o Explorer. O pequeno aparelho, de 13,6 kg, levava instrumentos para medir raios cósmicos, temperaturas e colisões de meteoritos. O foguete de lançamento do Explorer, o Juno-1, era na verdade apenas um míssil modificado por Von Braun. Outra medida do presidente Eisenhower na contra-ofensiva americana foi a criação da Nasa, sigla em inglês de Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço, em outubro de 58. O objetivo era centralizar as pesquisas do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Em janeiro de 59, os soviéticos deram uma nova demonstração de seu avanço tecnológico com o lançamento do projeto Luna, ou Lunik, voltado a pesquisas sobre a Lua. Os primeiros resultados expressivos chegaram em outubro do mesmo ano de 59: o Luna-3 contornou a Lua a uma altura de 7.000 quilômetros e fotografou pela primeira vez o lado escuro do satélite natural.


Gagarin, o primeiro homem no espaço
Em abril de 1961, mais um salto tecnológico da União Soviética: subia aos céus a Vostok, primeira nave pilotada por um ser humano. O cosmonauta era Yuri Gagarin, um jovem piloto de 26 anos. Durante cerca de 90 minutos, ele viajou em órbita da Terra a uma altura média de 320 quilômetros. Com Gagarin, a humanidade teve acesso a novos conhecimentos e aprendeu que a Terra é uma imensa bola azul. Nas ruas de Moscou, a população foi ao delírio.
Vostok: mais um feito soviético
Em resposta, o presidente americano John Kennedy, em maio de 61, prometeu que em menos de uma década um astronauta dos Estados Unidos pisaria o solo da Lua. As palavras de Kennedy ditaram o ritmo e a estratégia do programa espacial americano. O que estava em jogo não era apenas uma questão de natureza científica. O problema era essencialmente político.


1962: a crise dos mísseis

Em 62, no mês de outubro, a Guerra Fria chegou a um nível preocupante com a crise dos mísseis em Cuba. Os Estados Unidos reagiram energicamente à iniciativa soviética de instalar uma plataforma nuclear em território cubano, a apenas 150 quilômetros da costa norte-americana. A União Soviética recuou, mas o mundo sentiu pela primeira vez o perigo real de um confronto nuclear entre as superpotências. Mais do que nunca, a conquista do espaço e das tecnologias dos foguetes tornava-se um objetivo prioritário para os governos de Washington e de Moscou. Enquanto os americanos investiam em vôos tripulados para a Lua, os soviéticos preferiam trabalhar com robôs nas missões lunares. Em 1966, o foguete Luna-9 pousava no satélite natural. Pouco depois, o Luna-10 tornava-se o primeiro aparelho a entrar em órbita da Lua. Em 1970, com os veículos automáticos Lunokhods, os soviéticos obtiveram várias amostras da superfície lunar. Do lado americano, o projeto Ranger deu novo impulso ao programa espacial, enviando da Lua, em 65, mais de 17 mil fotos de alta resolução, permitindo novas pesquisas. A "conquista da Lua" dividiu-se em 3 programas, o Mercúrio, o Gemini e o Apolo, cada um responsável pelo desenvolvimento de determinadas etapas de um vôo tripulado.


Acidentes nos EUA e na URSS

Mesmo com todas as precauções, uma tragédia abalou os Estados Unidos, em janeiro de 67. Durante uma decolagem simulada, um incêndio provocado por um curto-circuito destruiu a nave Apolo-1, matando os três astronautas a bordo. Em maio do mesmo ano, os soviéticos também passaram por momentos desoladores com a queda da nave Soyuz-1, durante a manobra de retorno à Terra. O acidente provocou a morte do cosmonauta Wladimir Komarov.

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