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A corrida armamentista

(Continuação)


A bomba soviética e o armamentismo das superpotências

Nos dias atuais, com uma perspectiva histórica, podemos imaginar a repercussão política e psicológica provocada pelo surgimento da bomba atômica soviética, em 1949. Dali em diante, duas potências antagônicas dominavam a tecnologia de destruição em massa.

Com todo o clima de confronto, americanos e soviéticos lançaram-se à corrida tecnológica e ao aperfeiçoamento permanente dos armamentos nucleares, como se poucos deles já não pudessem pôr fim à vida humana na Terra. A corrida armamentista implicava também uma estratégia de dominação, em que as alianças regionais e a instalação de bases militares eram de extrema importância. Para fazer frente à OTAN, surgiu, em 1955, o Pacto de Varsóvia

Os países liderados por Moscou criaram o Pacto em 14 de maio de 55, uma semana depois da adesão da Alemanha Ocidental à OTAN. No início, integravam o pacto a União Soviética, a Albânia, a Alemanha Oriental, a Bulgária, a Tchecoslováquia, a Romênia, a Polônia e a Hungria. A Albânia, tradicional aliada da China, sairia do Pacto em 1968, por causa do estremecimento de relações entre Moscou e Pequim.

As bases militares montadas nos países da OTAN e do Pacto de Varsóvia receberam, no primeiro momento, mísseis americanos e soviéticos convencionais. Eram foguetes equipados com bombas potentes, não nucleares, do tipo das famosas "V-2" criadas pelo físico alemão Werner Von Braun e utilizadas por Hitler no bombardeio de Londres, em 44.

O avanço da tecnologia nuclear logo permitiria a redução do tamanho da bomba atômica: em 1954 a bomba já podia, em tese, ser transportada na ogiva de um foguete. Ganhavam importância, nessa fase, aspectos como o alcance e o nível de segurança dos foguetes.


Sputnik-1: a URSS lidera a corrida

Em 1957, coube à União Soviética inaugurar a era dos mísseis de longo alcance e precisão. Em outubro, os soviéticos lançaram um foguete que colocou em órbita o primeiro satélite artificial da história, o Sputnik-1. Tratava-se de um artefato simples, uma esfera de alumínio de 58 centímetros de diâmetro e 84 quilos, equipado com um termômetro e um transmissor de rádio. Em novembro de 57, foi lançado o Sputnik-2. Dessa vez, um satélite de meia tonelada com uma célebre passageira a bordo: a cachorra da raça laika, que permaneceu dez dias no espaço ligada a instrumentos de medição da pressão arterial, dos batimentos cardíacos e de outras reações neurofisiológicas.


Moscou exibe seus mísseis táticos
O sucesso do projeto Sputnik causou um grande impacto, porque pôs em evidência a vantagem dos russos na corrida armamentista. Na lógica militar, um foguete que coloca um satélite em órbita da Terra é capaz também de transportar ogivas nucleares. Ainda em novembro de 57, a inquietação no Ocidente aumentou com a exibição, em Moscou, de mísseis nucleares
de curto alcance, os chamados "mísseis táticos", durante as comemorações do quadragésimo aniversário da Revolução Russa. A tecnologia disponível no final da década de 50 tornou cada vez mais próxima a realidade dos mísseis balísticos intercontinentais, chamados de ICBM, a mais temível arma inventada pelo homem. Por trás de todo aquele avanço bélico e tecnológico estava Nikita Khruschev, sucessor de Stalin no comando da União Soviética. Dono de uma personalidade carismática, ele tratou de aproveitar as conquistas soviéticas para fazer propaganda do regime. E gostava de lançar dúvidas sobre a capacidade dos Estados Unidos de conter o avanço do socialismo.


EUA criam a Nasa

Os americanos, em resposta, aceleraram ao máximo o seu programa armamentista. Era a lógica da Guerra Fria. Com a evolução da tecnologia nuclear, o tempo de destruição passou a ser contado em segundos. Rapidez, precisão e potência passaram a ser uma obstinação dos responsáveis pela indústria de armamentos dos dois países. Em janeiro de 1958, os Estados Unidos lançaram o satélite Explorer. Em outubro, anunciaram a criação da Nasa - National Aeronautics and Space Administration -, órgão encarregado de coordenar as pesquisas para o desenvolvimento de foguetes e artefatos espaciais. Os projetos soviéticos e norte-americanos seguiam duas vertentes paralelas e complementares. Uma delas era a pesquisa nuclear, com a fabricação de bombas cada vez menores e mais potentes. A outra vertente era a construção de foguetes cada vez mais velozes e precisos.


Europa, cenário de uma guerra improvável

Moscou e Washington desenvolveram bases subterrâneas e plataformas móveis, incluindo submarinos, para o lançamento de mísseis. Criaram também os mísseis antibalísticos, capazes de detectar e detonar foguetes inimigos antes de eles atingirem o alvo. Esse armamento, em especial, inquietava os países europeus, que poderiam servir de cenário involuntário de uma guerra em que os territórios das superpotências estariam protegidos.

Europa: rota dos mísseis de EUA e URSS
"A rota dos mísseis intercontinentais e dos mísseis de médio alcance sobre a Europa tinha uma função, durante a Guerra Fria, estritamente estratégica. Ela contava com o fato de que o temor disseminado entre os países da região central - onde se daria o eventual ataque - contribuiria para que a pressão política impedisse a guerra
dos dois lados. Ou seja, a guerra nuclear, na verdade, sempre foi um jogo político, ela nunca foi planejada para de fato acontecer. Nessa mesma linha, a rota do (oceano) Pacífico não interessava a qualquer dos dois blocos, exatamente por essa razão. Não havia poder político a ser exercido naquela região, literalmente despovoada. O que interessava era obter a conquista de corações e mentes da Europa, da área que seria eventualmente pulverizada por uma guerra nuclear."

Roberto Godoy
jornalista e analista de assuntos militares


A crise dos mísseis em Cuba

O primeiro momento de grande tensão aconteceu em outubro de 62. Aviões de espionagem dos Estados Unidos detectaram movimentos que indicavam a disposição soviética de instalar mísseis em Cuba. O território norte-americano ficaria vulnerável a um hipotético ataque deflagrado a menos de 200 quilômetros de distância. O mundo viveu duas semanas de tensão.

O presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, advertiu Khruschev de que seu país não teria dúvidas em usar armas nucleares contra a iniciativa russa. O dirigente soviético recuou, mas a opinião pública conscientizou-se da possiblidade real de confrontação armada entre os dois países. Essa preocupação tinha razão de ser. No início dos anos 60, a tecnologia nuclear não estava mais limitada às duas superpotências: a Grã-Bretanha e a França também já possuíam a bomba atômica.

Àquela altura, havia uma clara tendência à proliferação dos arsenais nucleares. Por essa razão, e ainda sob o impacto da crise dos mísseis de Cuba, os Estados Unidos, a União Soviética e a Grã-Bretanha assinaram, em 1963, um acordo proibindo testes nucleares. No ano seguinte, os três países aprovaram o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares. O objetivo dos acordos era tentar conter a corrida armamentista dentro de certos limites. Apesar disso, a China realizou, naquele mesmo ano de 64, seus primeiros testes atômicos.

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