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A Nova Ordem Mundial

(Continuação)


Anos 90: disputa pelo mercado

Com o fim do comunismo, os antigos países socialistas abriram suas fronteiras e seus mercados. No ocidente, os países detentores de tecnologias avançadas, como Alemanha e Japão, já não precisavam se submeter à lógica da Guerra Fria e à liderança dos Estados Unidos. O resultado foi o início de uma feroz disputa pelo mercado mundial. Em junho de 91, os Estados Unidos lançaram uma ofensiva em seu comércio exterior com a "Iniciativa Para as Américas", um plano que pretendia criar um mercado unificado do Alasca à Terra do Fogo.
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Bush no Brasil: garantindo mercado
O objetivo era criar facilidades nas transações comerciais e financeiras entre os Estados Unidos e o restante da América. Com essa estratégia, Washington procurava se proteger contra a concorrência da Europa e dos países asiáticos, todos de olho no grande mercado latino-americano. Logo depois de anunciar a Iniciativa para as Américas, George Bush visitou o Brasil, sinalizando a importância que a Casa Branca atribuía ao maior país da América Latina.
Em 93, os Estados Unidos ganharam mais motivos concretos para se preocupar. Em 1.º de janeiro daquele ano, foi criada a União Européia, uma zona de livre comércio entre os antigos países-membros da Comunidade Econômica Européia. No outro lado do mundo, o Japão e os Tigres Asiáticos, como eram conhecidos Hong Kong, Taiwan, Coréia do Sul, Cingapura e Malásia, constituíam outro pólo em plena expansão, com que os Estados Unidos vinham mantendo relações comerciais tensas desde o final dos anos 80. Apenas o continente africano estava fora das grandes disputas comerciais, com a exceção de alguns países ricos, como a África do Sul.


América Latina: Nafta, Mercosul, Alca...

Nesse quadro, a América Latina aparecia como um mercado consumidor atraente e poderoso. Apenas o Brasil, sozinho, com todos os seus problemas, representava um mercado potencial de 140 milhões de habitantes, com o décimo Produto Interno Bruto do mundo, algo em torno de 500 bilhões de dólares. De olho nesse mercado e no de toda a América Latina, o presidente norte-americano Bill Clinton lançou, em 1994, o Nafta, o mercado comum da América do Norte, agregando Estados Unidos, Canadá e México. O passo seguinte do Nafta seria a inclusão de outros países do continente até, eventualmente, atingir o conjunto das Américas, como havia proposto o presidente Bush.
A eficácia dessa estratégia foi questionada em função da instabilidade da economia mexicana. Além disso, em dezembro de 94 surgiria o Mercosul, uma zona de livre comércio agregando Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Potencialmente, o Mercosul, uma alternativa atraente de investimentos europeus e asiáticos, poderia representar uma fonte de problemas para os Estados Unidos. imagem
Itamar e Menem (e assessores): Mercosul
Mas a simples formação do bloco sul-americano não significava uma garantia de independência em relação ao capital estrangeiro. Mesmo nos anos pós-Guerra Fria, era a política que mandava no tipo de investimentos, alianças e compromissos estratégicos de um país ou de um bloco de países. Assim, o Mercosul, ou qualquer outro bloco, tanto poderia agir em defesa dos seus próprios interesses como poderia reproduzir as políticas que interessavam às grandes corporações multinacionais.

"Nos anos 60, o general De Gaulle, então presidente da França, se recusou a receber o primeiro-ministro do Japão, dizendo que ele, o japonês, não passava de um vendedor de transistores. Naquela época, a política era vista como algo elevado, a política se referia à guerra. Muita água passou por debaixo daquela ponte e hoje todos os estadistas, sem exceção, são vendedores de transistores. Todos fizeram da economia, do comércio internacional, um dos aspectos centrais de suas estratégias políticas. Há algo muito irônico no fato de que o maior vendedor de transistores seja o líder da principal potência militar do mundo, Bill Clinton. é Bill Clinton seguindo uma trajetória de George Bush, que procura impor o comércio administrado ao Japão, obrigando-o a comprar produtos americanos até uma determinada cota limite. Na linguagem do governo dos Estados Unidos, a segurança nacional é hoje, em grande parte, segurança econômica. Isso significa abertura de mercados para produtos norte-americanos. O Brasil não está fora da guerra comercial, nem o Mercosul. Ao Brasil interessa evitar que os Estados Unidos consigam muito rapidamente rebaixar tarifas de importação nas Américas, que é o projeto da Alca - Área de Livre Comércio das Américas. A Alca foi lançada em 1990 por George Bush, e é outro projeto a que Bill Clinton dá seqüência.

Demétrio Magnoli
geógrafo, doutor em Geografia Humana


A ex-União Soviética

E a Rússia? Bem, a Rússia não foi integrada a nenhum bloco econômico. Em primeiro lugar, ela se tornou o país-líder da CEI, a Comunidade de Estados Independentes, formada depois da dissolução da União Soviética. A Comunidade constituiu-se num grande mercado para Moscou, mesmo não sendo uma zona de livre comércio. Os países da CEI dependiam do petróleo, de manufaturados e de várias matérias-primas para a indústria e o comércio, todos produtos oferecidos pela Rússia.

Ieltsin: amplo programa de privatização
Logo após o fim da União Soviética, em dezembro de 1991, o presidente russo Bóris Ieltsin iniciou um programa de privatização do comércio, da indústria e do sistema bancário. Esse programa acabou criando um problema inesperado: a grande maioria das empresas foi parar nas mãos do crime organizado, único setor com dinheiro para comprar as ações oferecidas pelo Estado.
Nessas condições, a Rússia caminhava para um período de caos econômico, social e político. Segundo dados do Ministério do Interior da Rússia, no final de 94 os grupos mafiosos já controlavam dois mil bancos e uma parcela considerável do parque industrial russo, além de liderar uma vasta rede de contrabando, narcotráfico, casas de jogo, prostituição e um sistema de importação de carros roubados na Europa Ocidental. Da noite para o dia, logo após a dissolução da União Soviética, a população experimentou as conseqüências da hiperinflação num país em que, oficialmente, os preços permaneceram estáveis por sete décadas.

A tensão política atingiu um ponto delicado em outubro de 93, quando, numa disputa de poder, o parlamento russo desafiou a autoridade do governo. O presidente Yeltsin ordenou a ocupação militar do parlamento, numa operação que causou a morte de pelo menos trezentas pessoas. A crise estimulou o fortalecimento de grupos de extrema-direita, que passaram a pregar a reconstrução de uma Grande Rússia, ainda que fosse necessário utilizar o arsenal nuclear do país. O mais conhecido representante dessa corrente conservadora, Vladimir Jirinovsky, concorreu às eleições presidenciais em dezembro de 93, obtendo quase 25% dos votos.

Dessa forma, as energias políticas da Rússia foram quase integralmente consumidas por seus próprios problemas. Diante dessa conjuntura, os Estados Unidos, especialmente após a Guerra do Golfo, sentiram-se à vontade para determinar os rumos da política internacional.

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