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O fim da Guerra Fria - Era Gorbatchev

(Continuação)


Conflitos internos no Partido Comunista

Em seu segundo ano de governo, Mikhail Gorbatchev enfrentava duas correntes formalmente inconciliáveis. Uma delas, adversária das mudanças, acreditava que a saída para a crise estava no aprofundamento dos traços coletivistas da União Soviética. Liderada por Igor Ligatchov, a ala tinha o apoio dos burocratas da época de Brejnev. O outro grupo, ao contrário, queria acelerar as reformas. Defendia a limitação dos privilégios usufruídos pela cúpula do poder e maior apoio à iniciativa privada. Essa corrente, formada pelos setores mais jovens, tinha a liderança de Bóris Ieltsin, chefe do partido em Moscou. Gorbatchev tentou o caminho da conciliação. Em vez de adotar um dos pontos de vista e combater o outro, escolheu uma política de compromissos e concessões. Num certo momento, cedia às pressões dos reformistas. Em outro momento, criticava os excessos e satisfazia a chamada "ala burocrática". A primeira grande vítima desse processo foi Bóris Ieltsin, que no final de 87 caiu em desgraça e perdeu todos os cargos de chefia do Partido Comunista. O ano de 1988 foi decisivo para a implantação da glasnost e da perestroika. Gorbatchev autorizou a Igreja Ortodoxa Russa a celebrar seu milésimo aniversário em todo o país. A medida contribuiu para criar um clima inédito de festa e de liberdade espiritual. Além disso, em maio de 88, o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, visitou Moscou numa atmosfera de descontração política que prenunciava importantes acordos sobre desarmamento.


Costumes soviéticos tornam-se mais liberais

IMAGEM
Miss Moscou 88:
liberalização dos costumes
As mudanças chegaram aos costumes, que tornaram-se mais liberais. Em junho, o primeiro concurso de Miss Moscou mostrava que a preocupação com a beleza frívola já não era mais considerada um sinal de decadência burguesa ou um desvio do socialismo.
O cinema soviético logo refletiu a liberalização dos costumes. O filme "A Pequena Vera", por exemplo, mostrava o comportamento dos jovens na era da glasnost e as relações sociais e familiares na União Soviética no fim dos anos 80. Foi nesse clima que se instalou, em junho e julho de 88, a 19.ª Conferência do Partido Comunista. Gorbatchev anunciou sua determinação de permitir o pluralismo político no país, respeitando as particularidades do regime socialista. A partir dessa data, os membros do partido precisariam disputar para valer, através do voto, os cargos eletivos do Estado e as vagas do Soviete Supremo, o órgão máximo de poder do país. Na mesma conferência, Gorbatchev condenou abertamente, pela primeira vez, a natureza do socialismo soviético, classificada por ele de arbitrária. Defendeu a criação de um sistema de garantias dos direitos dos cidadãos, o estado de direito. Com essa postura, o dirigente entrou em confronto direto com Igor Ligatchov, o líder dos burocratas do partido. Os ventos da mudança começavam a soprar mais rapidamente sobre Moscou. A primeira decisão importante depois da conferência do Partido Comunista foi tomada em agosto de 88: as tropas do exército soviético começaram a deixar o Afeganistão depois de nove anos de ocupação e guerra.


Surgem as frentes populares

Outro fato significativo foi o surgimento das Frentes Populares nas repúblicas que formavam a União Soviética. Eram organizações não partidárias, mas com uma plataforma política definida, que reuniam milhares de membros do Partido Comunista, especialmente os mais jovens. De um modo geral, essas frentes lutavam pelo fim da opressão exercida durante décadas pelo poder central. Faziam denúncias dos crimes da era stalinista e lutavam contra o descaso do governo em relação às questões ambientais. Nas repúblicas de maioria islâmica, as frentes populares impulsionavam movimentos religiosos, como no Tadjiquistão. Muitas dessas frentes, desde o início de suas atividades, enfatizavam a necessidade da proclamação da independência em relação à União Soviética.
No final de 88, a paisagem cultural estava substancialmente diferente, como se podia observar nas ruas de Moscou. Mas verificava-se um vácuo no sistema político soviético. Com tantas mudanças em curso, não havia ainda um novo sistema definido, em substituição ao antigo. IMAGEM
Moscou, 1988: ares capitalistas
A economia do país não ia bem. Sem medo de punições, funcionários públicos procuravam fortuna fácil no mercado negro, tirando mercadorias de circulação para revendê-las a preços mais altos. Além disso, uma resolução da 19.ª Conferência do Partido Comunista permitiu a criação de cooperativas privadas, com objetivos claros de lucro. Com elas surgiu uma casta de prósperos negociantes, em geral antigos burocratas do Estado ou integrantes de grupos mafiosos internacionais. Enquanto isso, a maioria da população sofria os efeitos da desordem administrativa.

"A situação da economia soviética durante o período da perestroika foi resultado de dois movimentos contraditórios e assimétricos no tempo. O primeiro foi aquele que resultou no desmanche dos ministérios e no desmanche do aparelho de planificação. O outro foi aquele que pretendia introduzir um novo sistema, de relações de mercado, descentralizando decisões, desestatizando as empresas estatais. O primeiro se fez muito rapidamente. O segundo levou mais tempo. E, exatamente por tomar mais tempo, está sendo introduzido na Rússia até hoje. Era inevitável que esses movimentos gerassem a desorganização econômica que se refletiu numa série de dificuldades, entre elas o abastecimento. Cabe acrescentar que esse problema no abastecimento foi agravado pelo comportamento da própria população, que, ainda sob o trauma da guerra, resolveu estocar mantimentos em suas casas."

Lenina Pomeranz
economista

Todos os setores da sociedade foram sacudidos pelas reformas de Gorbatchev. As pressões políticas e econômicas sobre Moscou vinham de todos os lados. Nas repúblicas, movimentos nacionalistas queriam a independência. Na economia, a população temia a instabilidade, a inflação e os abusos do mercado negro. Na política, o Partido Comunista estava cada vez mais dividido, enquanto as frentes populares cresciam.

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