Enchentes
Enchente não é, necessariamente, sinônimo de catástrofe.
É apenas um fenômeno natural dos regimes dos rios. Não
existe rio sem enchente. Por outro lado, todo e qualquer rio tem sua área
natural de inundação. As inundações passam
a ser um problema para o homem quando ele deixa de respeitar esses limites
naturais dos rios. Por exemplo, quando remove as várzeas e quando
se instala junto às margens. Ou então quando altera o ambiente
de modo a modificar a magnitude e o regime das enchentes, quando desmata,
remove a vegetação e impermeabiliza o solo.
"As alterações que o homem provoca na bacia hidrográfica,
alterando suas características físicas, também aumentam
o prejuízo dessas enchentes. Como o homem altera as características
da bacia?
De diversas formas. A primeira, ou a mais importante, é quando
ele suprime a cobertura vegetal e introduz obras com características
de impermeabilização do solo, como construção
de casas, telhados, pavimentação de ruas, quintais etc.
Perdemos a capacidade de retenção da água através
da vegetação e perdemos também a capacidade de infiltração
dessa água no solo. Por conseguinte, os volumes de água
que chegarão nos rios serão sempre maiores. E, portanto,
os prejuízos das inundações também serão
maiores.
A pergunta que fica é: como podemos enfrentar o problema dos
prejuízos decorrentes das inundações?
Existem basicamente três formas: a primeira é não
ocupar as áreas de inundação; a segunda é
não alterar - ou alterar o menos possível - as características
físicas da bacia hidrográfica. E, por último, através
da implantação de obras de contenção de cheias,
como a construção de barragens, reservatórios, construção
de diques para proteção de áreas de riscos altos
de inundação, enfim, outras obras de engenharia, do tipo
desassoreamento de rios e ampliação de seus leitos. Todas
essas obras têm uma característica comum: são extremamente
caras e onerosas para a sociedade. Conquanto tenha um certo grau de eficiência,
nós podemos dizer que elas não são absolutamente
eficazes porque, mesmo contando com essas obras, sempre haverá
um evento de chuva, um evento de cheia que provocará uma inundação
maior do que aquelas para as quais essas obras foram projetadas".
Constante Bombonatto
Engenheiro da SABESP
especialista em ciclo hidrológico
A Água no
Mundo
A água tem se
tornado um elemento de disputa entre nações. Um relatório
do Banco Mundial, datado de 1995, alerta para o fato de que "as guerras
do próximo século serão por causa de água,
não por causa do petróleo ou política".

Distribuição de Água
|
Hoje, cerca
de 250 milhões de pessoas, distribuídos em 26 países,
já enfrentam escassez crônica de água.
Em 30 anos, o número de pessoas saltará para 3 bilhões
em 52 países. Nesse período, a quantidade de água
disponível por pessoa em países do Oriente Médio
e do norte da África estará reduzida em 80 por cento.
A projeção que se faz é que, nesse período,
8 bilhões de pessoas habitarão a terra, em sua maioria
concentradas nas grandes cidades. Daí, será necessário
produzir mais comida e mais energia, aumentando o consumo doméstico
e industrial de água. Essas perspectivas fazem crescer o
risco de guerras, porque a questão das águas torna-se
internacional. |
Em 1967, um dos motivos
da guerra entre Israel e seus vizinhos foi justamente a ameça,
por parte dos árabes, de desviar o fluxo do rio Jordão,
cuja nascente fica nas montanhas no sul do Líbano. O rio Jordão
e seus afluentes fornecem 60 por cento da água necessária
à Jordânia. A Síria também depende desse rio.
A populosa China também sofre com o problema. O grande crescimento
populacional e a demanda agroindustrial estão esgotando o suprimento
de água. Das 500 cidades que existem no país, 300 sofrem
com a escassez de água. Mais de 80 milhões de chineses andam
mais de um quilômetro e meio por dia para conseguir água,
e assim acontece com inúmeras nações.
Um levantamento da ONU aponta duas sugestões básicas para
diminuir a escassez de água: aumentar a sua disponibilidade e utilizá-la
mais eficazmente. Para aumentar a disponibilidade, uma das alternativas
seria o aproveitamento das geleiras; a outra seria a dessalinização
da água do mar.
Esses processos são muito caros e tornam-se inviáveis para
a maioria dos países que sofrem com a escassez. É possível,
ainda, intensificar o uso dos estoques subterrâneos profundos, o
que implica utilizar tecnologias de alto custo e o rebaixamento do lençol
freático.
A Água no
Brasil
O Brasil é um
país privilegiado no que diz respeito à quantidade de água.
Sua distribuição, porém, não é uniforme
em todo o território nacional.

Bacias Hidrográficas Brasileiras
A Amazônia, por exemplo, é uma região que detém
a maior bacia fluvial do mundo. O volume d'água do rio Amazonas
é o maior do globo, sendo considerado um rio essencial para o planeta.
Essa é, também, uma das regiões menos habitadas do
Brasil.
Em contrapartida, as maiores concentrações populacionais
do país encontram-se nas capitais, distantes dos grandes rios brasileiros,
como o Amazonas, o São Francisco e o Paraná. E há
ainda o Nordeste, onde a falta d'água por longos períodos
tem contribuído para o abandono das terras e para a migração
aos centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro, agravando
ainda mais o problema da escassez de água nessas cidades.
Além disso, os rios e lagos brasileiros vêm sendo comprometidos
pela queda de qualidade da água disponível para captação
e tratamento.
Na região amazônica e no Pantanal, por exemplo, rios como
o Madeira, o Cuiabá e o Paraguai já apresentam contaminação
pelo mercúrio, metal utilizado no garimpo clandestino. E nas grandes
cidades esse comprometimento da qualidade é causado principalmente
por despejos domésticos e industriais.

Garimpo Clandestino
|

Despejos Domésticos
|
"Se a bacia é ocupada por florestas nas condições
naturais, essa água vai ter uma boa qualidade porque vai receber
apenas folhas, alguns resíduos de decomposição de
vegetais. &eacutE; uma condição perfeitamente natural. Mas,
se essa bacia começar a ser utilizada para a construção
de casas, para implantação de indústrias, para plantações,
então a água começará a receber outras substâncias
além daquelas naturais, como, por exemplo o esgoto das casas e
os resíduos tóxicos das indústrias e das substâncias
químicas aplicadas nas plantações. Isso vai contribuir
para que a água vá piorando de qualidade. Por isso ela deve
ser protegida na fonte, na bacia. Essa água, depois, vai ser submetida
a um tratamento para ser usada pela população. Mas, mesmo
a estação de tratamento tem suas limitações.
Ela retira com facilidade os produtos de uma floresta, de uma condição
natural. Mas esgotos pioram muito, e a presença de substâncias
tóxicas vai tornando esse tratamento cada vez mais caro. Acima
de um certo limite, o tratamento nem mais é possível, porque
existe uma limitação para a capacidade depuradora de uma
estação de tratamento. Então, a água se torna
totalmente imprestável".
Samuel Murgel Branco
Prof. titular da Faculdade Saúde Pública - USP
Esses problemas atingem também os principais rios e represas das
cidades brasileiras, onde hoje vivem 75% da população.
- Em Porto Alegre,
o rio Guaíba está comprometido pelo lançamento
de resíduos domésticos e industriais, além de
sofrer as conseqüências do uso inadequado de agrotóxicos
e fertilizantes.
- Brasília,
além de enfrentar a escassez de água, tem problemas
com a poluição do lago Paranoá.
- A ocupação
urbana das áreas de mananciais do Alto Iguaçu compromete
a qualidade das águas para abastecimento de Curitiba.
- O rio Paraíba
do Sul, além de abastecer a região metropolitana do
Rio de Janeiro, é manancial de outras importantes cidades de
São Paulo e Minas Gerais, onde são graves os problemas
devido ao garimpo, à erosão, aos desmatamentos e aos
esgotos.
- Belo Horizonte
já perdeu um manancial para abastecimento - a lagoa da Pampulha
- que precisou ser substituído pelos rios Serra Azul e Manso,
mais distantes do centro de consumo. Também no rio Doce, que
atravessa os Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, a extração
de ouro, o desmatamento e o mau uso do solo agrícola provocam
prejuízos enormes à qualidade de suas águas.
- O Estado de
São Paulo sofre com a escassez de água e com problemas
decorrentes de poluição em diversas regiões:
no Alto Tietê junto à região metropolitana; no
rio Turvo; no rio Sorocaba, entre outros.

Rio Poluído
|
"Em seu
processo de crescimento, a cidade foi invadindo os mananciais que
outrora eram isolados , estavam distantes da ocupação
urbana. E também é muito importante frisar que toda
ação que ocorre numa bacia hidrográfica vai
afetar a qualidade da água desse manancial. Não é
simplesmente a ação em torno do espelho d'água
que faz com que você degrade mais ou menos.
Muito pelo contrário: pode ocorrer o surgimento de uma área
industrial distante desse espelho d'água principal, mas com
grande capacidade de poluição e, portanto, com possibilidade
de degradar totalmente esse manancial. |
Os corpos d'água
são entes vivos. Eles conseguem se recuperar, mas possuem um limite.
Portanto, é muito importante que a população esteja
consciente de que é preciso disciplinar todo tipo de uso e ocupação
do solo das bacias hidrográficas, principalmente das bacias cujos
cursos d'água formam os mananciais que abastecem a população".
Paulo Massato Yoshimoto
Engenheiro da SABESP
A
Água e seu Consumo
A proteção dos mananciais que ainda estão conservados
e a recuperação daqueles que já estão prejudicados
são modos de conservar a água que ainda temos. Mas isso
apenas não basta. É preciso fazer muito mais para alcançarmos
esse objetivo de modo que o uso se torne cada vez mais eficaz.
Mas, o que fazer? Qual o papel de cada cidadão? Cada um de nós
deve usar a água com mais economia.
Na agricultura, por exemplo, o desperdício de água é
muito grande. Apenas 40% da água desviada é efetivamente
utilizada na irrigação. Os outros 60 por cento são
desperdiçados, porque se aplica água em excesso, se aplica
fora do período de necessidade da planta, em horários de
maior evaporação do dia, pelo uso de técnicas de
irrigação inadequadas ou, ainda, pela falta de manutenção
nesses sistemas de irrigação.

Técnica de Gotejamento
uso racional na agricultura
Na indústria é possível desenvolver formas mais econômicas
de utilização da água através da recirculação
ou reuso, que significa usar a água mais do que uma vez. Por exemplo,
na refrigeração de equipamentos, na limpeza das instalações
etc. Essa água reciclada pode ser usada na produção
primária de metal, nos curtumes, nas indústrias têxteis,
químicas e de papel.
Nos sistemas de abastecimento de água uma quantidade significativa
da água tratada - 15 % ou mais - é perdida devido a vazamentos
nas canalizações, assim como dentro de nossas casas.
É fácil observar como a população colabora
na conservação da água em cidades que têm problemas
de abastecimento ou onde existe pouca água. Ou, ainda, onde a água
é cara. Nessas cidades, as pessoas costumam usar a mesma água
para diferentes finalidades. Por exemplo, a água usada para lavar
roupa é depois usada para lavar quintal. As pessoas ainda mudam
seus hábitos para usar a água na hora em que ela está
disponível; evitam vazamentos; só regam jardins e plantas
na parte da manhã ou no final da tarde; lavam seus carros apenas
eventualmente; não lavam calçadas, apenas varrem; não
instalam válvulas de descarga nos vasos sanitários e sim
caixas de descarga, que são mais econômicas e produzem o
mesmo resultado e conforto.

Descarga
acoplada
mais econômica
|

Manter
torneira fechada
sempre que possível
|
O crescente agravamento
da falta de água tem levado as pessoas a estabelecer uma nova
forma de pensar e agir, inclusive mudando seus hábitos, usos
e costumes. Essa forma de pensar e agir visa o crescimento econômico
respeitando a capacidade dos recursos do meio ambiente, sobretudo a
água.
A conscientização e a educação do povo,
do consumidor, são fundamentais.
Racionalizar o uso da água não siginifica ficar sem ela
periodicamente. Significa usá-la sem desperdício, considerá-la
uma prioridade social e ambiental, para que a água tratada, saudável,
nunca falte em nossas torneiras.
Próxima:
| Ensinar e Aprender |
|